Com temperaturas próximas de 46°C, a onda de calor na Europa amplia mortes, ameaça lavouras e revela o despreparo de cidades para extremos climáticos.
A onda de calor na Europa que se intensificou desde meados de junho deixou um rastro de impactos sobre a saúde pública, infraestrutura urbana, energia e agricultura. Com temperaturas acima de 40°C em vários países, fechamento de escolas, alertas vermelhos e risco elevado de incêndios florestais, o episódio mostra a vulnerabilidade do continente a eventos climáticos cada vez mais intensos.
Calor extremo mata de forma silenciosa
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), mais de 150 milhões de pessoas foram afetadas pelas altas temperaturas provocadas pela onda de calor na Europa. A OMM também estima que mais de 1.300 mortes acima do esperado tenham sido registradas desde 21 de junho em razão do calor extremo. O número ainda é preliminar e se baseia no cálculo de excesso de mortalidade, que compara os óbitos esperados para o período com os efetivamente registrados.
O calor extremo é considerado um dos desastres climáticos mais perigosos porque seus efeitos nem sempre são imediatos e visíveis. Ao contrário de enchentes, tempestades ou furacões, as ondas de calor não deixam, necessariamente, um cenário de destruição física. Muitas vítimas morrem dias depois, em consequência do agravamento de problemas cardiovasculares, respiratórios e renais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que idosos, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis. Em países europeus, a combinação entre temperaturas recordes, população envelhecida e moradias pouco adaptadas ao calor ampliou os riscos.
A França registrou cerca de 1.000 mortes em excesso associadas à onda de calor na Europa, entre o fim de junho e o início de julho, de acordo com a agência Santé Publique France. Cerca de 85% das vítimas tinham mais de 65 anos, dado que ressalta o impacto desproporcional das altas temperaturas sobre a população idosa.
Na Espanha, o Ministério da Saúde informou 1.029 mortes relacionadas ao calor extremo apenas em junho. O período foi o segundo junho mais quente desde o início das medições meteorológicas no país e coincidiu com uma sequência de dias com temperaturas acima de 40°C em diversas regiões.
Temperaturas chegam perto de 46°C
Portugal e Espanha registraram marcas próximas de 46°C, enquanto cidades da França, Itália, Grécia, Croácia e dos Bálcãs ultrapassaram os 40°C por vários dias consecutivos. Em algumas áreas, as máximas ficaram até 18°C acima da média climatológica para esta época do ano. No Reino Unido, a Inglaterra teve o junho mais quente já registrado, com temperatura média de 16,9°C, segundo o Met Office. Em algumas partes do país, os termômetros passaram dos 34°C.
Cidades europeias ainda não estão adaptadas ao calor
Na França, o governo suspendeu as aulas em 2.213 escolas durante o pico da onda de calor na Europa. Muitos prédios escolares foram projetados para reter calor no inverno e não contam com isolamento térmico adequado ou sistemas de refrigeração. A situação tornou difícil manter estudantes e professores em segurança durante os dias mais quentes.
A infraestrutura europeia também mostrou sinais de despreparo. Grande parte das casas, escolas, hospitais e redes de transporte foi construída para lidar com um clima mais frio. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), menos de 20% das residências europeias têm ar-condicionado. No Reino Unido, o índice é de apenas 5%.
Esse cenário ajuda a explicar por que ondas de calor têm efeitos tão amplos no continente. No Reino Unido e na Alemanha, operadoras ferroviárias reduziram a velocidade dos trens devido ao risco de deformação dos trilhos. Em algumas cidades, o asfalto cedeu sob as altas temperaturas. Aeroportos e serviços ferroviários também registraram atrasos e cancelamentos.
Calor pressiona energia e ameaça agropecuária
O setor elétrico foi outro ponto de pressão. O aumento do uso de sistemas de refrigeração elevou o consumo de energia, enquanto o calor reduziu a capacidade de operação de algumas usinas. Na França, um reator nuclear foi desligado e outros tiveram a produção reduzida porque a água dos rios usada no resfriamento estava quente demais para atender aos limites ambientais. Situação semelhante foi observada na Hungria.
No campo, agricultores enfrentaram estresse hídrico, perda de produtividade e dificuldades de irrigação. Em áreas da Itália, Espanha e França, produtores relataram impactos sobre lavouras devido à evaporação acelerada da água do solo. A pecuária também foi afetada, já que temperaturas extremas prejudicam o bem-estar animal e podem comprometer a produção de leite.
Por que a Europa aquece tão rápido?
Estudos da rede científica World Weather Attribution indicam que eventos como a atual onda de calor na Europa se tornaram mais prováveis e intensos devido ao aquecimento global causado pelas emissões de gases de efeito estufa, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis. Com a elevação da temperatura média do planeta, recordes de calor tendem a ocorrer com mais frequência.
A Europa é considerada o continente que aquece mais rápido no mundo. De acordo com a OMM e o Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas, a taxa de aquecimento europeia é cerca de duas vezes superior à média global. Entre os fatores associados estão a amplificação do aquecimento no Ártico, mudanças na circulação atmosférica e características geográficas e oceânicas do continente.
O avanço das temperaturas mostra que o calor extremo deixou de ser um evento isolado e passou a representar um desafio estrutural para a Europa. A adaptação de cidades, sistemas de saúde, moradias, transportes e produção agrícola será cada vez mais decisiva para reduzir mortes e prejuízos diante de um clima em rápida transformação.