“Essa consolidação ofereceria uma oportunidade adicional ao Brasil: ampliar o reconhecimento internacional de biomas cuja relevância ambiental, econômica e social ainda permanece subestimada. Entre eles, a Caatinga ocupa lugar de destaque”
Por Alfredo Lopes, editor do Portal Brasil Amazônia Agora (BAA)
A criação do Tropical Forest Forever Facility (TFFF) representa uma das mais sofisticadas iniciativas internacionais de financiamento da conservação. Ao transformar a manutenção dos ecossistemas em um ativo econômico permanente, o mecanismo inaugura uma nova geração de instrumentos voltados ao enfrentamento das mudanças climáticas.
A iniciativa parte de uma premissa correta: conservar custa menos do que reconstruir.
Mas justamente por seu caráter inovador, o TFFF tem diante de si uma oportunidade igualmente inovadora: reconhecer que a estabilidade climática do Brasil depende da conservação integrada de seus biomas, especialmente daqueles que historicamente receberam menor atenção internacional.
Entre eles, nenhum merece maior reflexão que a Caatinga.
Durante décadas, consolidou-se uma percepção equivocada de que a Caatinga seria apenas uma vegetação seca, pobre e resistente. A ciência vem desmontando essa visão simplificada.
Trata-se do único bioma exclusivamente brasileiro. Nele vivem milhões de pessoas, desenvolveu-se uma biodiversidade altamente especializada e funciona um dos mais importantes reguladores dos ciclos hidrológicos do Nordeste.
Os reservatórios que abastecem grandes centros urbanos, como Fortaleza e Salvador, dependem diretamente das bacias hidrográficas associadas ao bioma. Como tem insistido o Instituto Escolhas, não é o litoral que leva água ao sertão. É o sertão que garante a água que chega às grandes capitais nordestinas.
Essa inversão de perspectiva provavelmente seja uma das mais importantes do debate ambiental brasileiro.
Quando a Caatinga perde cobertura vegetal, aumenta a erosão, diminui a infiltração das chuvas, reduz-se a recarga dos aquíferos, comprometem-se os reservatórios e amplia-se o avanço da desertificação.
Hoje, aproximadamente 12% do bioma já apresenta processos de desertificação em diferentes níveis de intensidade. Não se trata apenas de um problema ambiental.
É uma questão de segurança hídrica, segurança alimentar, estabilidade econômica e permanência das populações no Semiárido.
Por isso, a recente criação da Política Nacional de Recuperação da Caatinga representa um passo importante. Os estudos do Instituto Escolhas estimam que investimentos em sistemas agroflorestais e restauração ecológica poderiam gerar cerca de 465 mil empregos, produzir retorno econômico superior a R$ 29 bilhões ao longo de três décadas e fortalecer simultaneamente renda, produção e conservação.
Poucos programas ambientais apresentam tamanha convergência entre benefícios ecológicos e desenvolvimento regional.
Sob essa ótica, a eventual elegibilidade da Caatinga em mecanismos internacionais de financiamento, como o TFFF, não deveria ser vista como exceção.
Poderia representar uma evolução natural do conceito de conservação. Afinal, preservar não significa apenas impedir o desmatamento de grandes florestas tropicais.
Significa recuperar ecossistemas cuja degradação ameaça milhões de pessoas e compromete funções ambientais essenciais para todo o país.
O próprio desenho do TFFF incorpora uma lógica que dialoga diretamente com essa visão.
Ao remunerar áreas conservadas, direcionar parte dos recursos às comunidades locais e criar incentivos econômicos permanentes para a manutenção dos ecossistemas, o fundo reconhece que conservação e desenvolvimento podem caminhar juntos.
Essa lógica poderia ser ampliada para contemplar programas estruturados de restauração de biomas estratégicos. A Caatinga reúne atributos raros para isso. Possui enorme capacidade de regeneração quando corretamente manejada.
E mais: concentra tecnologias sociais desenvolvidas ao longo de séculos pelas populações do Semiárido. Abriga oportunidades relevantes para sistemas agroflorestais adaptados às mudanças climáticas. Produz benefícios diretos sobre disponibilidade hídrica, conservação dos solos, biodiversidade e resiliência climática.
Além disso, representa uma das maiores oportunidades mundiais de transformar restauração ambiental em inclusão produtiva. Ao discutir o futuro do financiamento climático, talvez seja hora de abandonar uma visão excessivamente compartimentada dos biomas brasileiros.
A Amazônia continuará sendo insubstituível. O Cerrado permanece decisivo para os recursos hídricos nacionais. O Pantanal regula grandes sistemas ecológicos. A Mata Atlântica protege algumas das regiões mais densamente povoadas do país.
E a Caatinga sustenta silenciosamente o equilíbrio ambiental de uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas.
O Brasil possui uma riqueza rara: diferentes ecossistemas cumprindo funções complementares. Reconhecer essa diversidade também significa aperfeiçoar os instrumentos globais de financiamento ambiental.
Se o Tropical Forest Forever Facility pretende se consolidar como um mecanismo voltado à estabilidade climática do planeta, considerar a restauração da Caatinga como elegível aos seus programas pode representar menos uma mudança de escopo do que um amadurecimento de sua própria missão.
Conservar o futuro brasileiro passa necessariamente por reconhecer que a floresta em pé e o Semiárido vivo fazem parte da mesma equação.