“Em vez de discutir apenas a sobrevivência do modelo, a iniciativa da Conferência ZFM 2050 recoloca a Amazônia na condição de protagonista do futuro brasileiro. E faz isso num momento em que o país parece cada vez mais obrigado a decidir se continuará tratando a região como periferia econômica ou se finalmente a reconhecerá como um dos seus maiores ativos estratégicos”.
Coluna Follow-Up
Há eventos que cumprem agenda. Outros revelam agenda.
A Conferência ZFM 2050 – Agenda Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, promovida pela CNI em parceria com a FIEAM e o CIEAM, ocorre em um momento particularmente sensível para a economia amazônica. Não se trata apenas de uma discussão sobre planejamento de longo prazo.
O encontro acontece enquanto se acumulam pressões políticas, fiscais e institucionais sobre o modelo Zona Franca de Manaus, justamente quando o mundo redescobre o valor estratégico da floresta em pé, dos minerais críticos, da bioeconomia e da soberania territorial.
Nas últimas décadas, poucos instrumentos de política pública foram tão questionados e, ao mesmo tempo, tão resilientes quanto a Zona Franca de Manaus. A cada ciclo de reforma tributária, ajuste fiscal ou reorganização federativa, ressurge a tentativa de apresentar os incentivos regionais como um privilégio a ser reduzido ou eliminado.
O curioso é que essa pressão frequentemente parte de setores econômicos concentrados nas regiões mais desenvolvidas do país, justamente aquelas que já dispõem da maior parte da infraestrutura, do crédito, dos mercados consumidores e dos investimentos públicos nacionais.
É nesse contexto que a iniciativa da CNI ganha relevância.
Ao reunir lideranças industriais, economistas, representantes da política nacional e formuladores de políticas públicas, a conferência sinaliza que a discussão sobre a Amazônia não pode continuar limitada a uma disputa contábil sobre incentivos fiscais. A questão central passa a ser outra: qual é o papel da Amazônia na estratégia nacional de desenvolvimento dos próximos 25 anos?
A programação oferece pistas importantes.
A apresentação do documento “Zona Franca de Manaus 2050”, conduzida pelo professor Márcio Holland, da FGV, sugere um esforço de construção de uma visão de longo prazo baseada em evidências, cenários econômicos e tendências globais. O simples fato de projetar o horizonte para 2050 já representa uma mudança de perspectiva. Enquanto parte do debate nacional continua presa às urgências do próximo exercício fiscal, a Amazônia exige planejamento compatível com ciclos de infraestrutura, inovação, educação e transição energética.
Mais interessante ainda é o painel dedicado à visão dos planos de governo para 2026. Em ano pré-eleitoral, a presença de representantes das principais campanhas presidenciais pode oferecer uma oportunidade rara para verificar se a Amazônia aparece apenas como discurso ambiental ou se passa a ser compreendida como ativo geopolítico, econômico e tecnológico do Brasil.
A pergunta que paira sobre Brasília é simples.
Os candidatos enxergam a Amazônia apenas como uma área a ser protegida ou como uma plataforma de desenvolvimento sustentável capaz de posicionar o país nas novas cadeias globais de valor?
A resposta tem implicações profundas.
A disputa internacional por minerais estratégicos, a reorganização das cadeias produtivas globais, a transição energética, a economia de baixo carbono e os mercados de ativos ambientais colocaram a Amazônia no centro da geopolítica do século XXI. O Brasil possui uma vantagem comparativa rara. Mas vantagens não se transformam automaticamente em prosperidade. Exigem estratégia.
É exatamente aí que a Zona Franca de Manaus adquire nova dimensão.
O modelo deixou de ser apenas um mecanismo de compensação regional. Hoje, ele pode ser interpretado como uma infraestrutura institucional já existente para apoiar uma nova economia baseada em inovação, tecnologia, bioeconomia, indústria verde, pesquisa científica e integração regional.
A conferência também ocorre em um momento em que o setor industrial amazônico busca reposicionar sua narrativa. Durante anos, a defesa da Zona Franca concentrou-se na preservação dos incentivos. Agora, a discussão parece migrar para algo mais amplo: qual Amazônia o Brasil pretende construir até 2050?
A presença de Ricardo Alban, presidente da CNI, de Antônio Silva, presidente da FIEAM, e de Luiz Augusto Barreto Rocha, presidente do Conselho Superior do CIEAM, reforça a percepção de que a indústria deseja participar dessa construção de forma mais propositiva, articulando competitividade, sustentabilidade, soberania e inclusão social.
Não por acaso, o evento adota como lema três conceitos que raramente aparecem juntos no debate nacional: indústria forte, Amazônia viva e futuro sustentável.
E qual é o principal mérito da Conferência ZFM 2050.
Em vez de discutir apenas a sobrevivência do modelo, a iniciativa recoloca a Amazônia na condição de protagonista do futuro brasileiro. E faz isso num momento em que o país parece cada vez mais obrigado a decidir se continuará tratando a região como periferia econômica ou se finalmente a reconhecerá como um dos seus maiores ativos estratégicos.
A discussão que começa em Brasília interessa ao Amazonas. Mas interessa, sobretudo, ao Brasil.
Porque a Amazônia de 2050 está sendo desenhada agora. E quem não participar dessa conversa corre o risco de apenas assistir às decisões depois de tomadas.