Pesquisa identifica genótipos promissores para desenvolver tomates resistentes ao calor e reduzir perdas agrícolas causadas por ondas de calor mais intensas.
O avanço da crise climática também ameaça lavouras e plantações, o aumento das temperaturas e a maior frequência de ondas de calor comprometem processos essenciais à produção de alimentos. No caso do tomate, um dos alimentos mais cultivados e consumidos no mundo, o calor excessivo pode dificultar a formação dos frutos e provocar fortes perdas de produtividade.
Um estudo publicado na Scientific Reports da Revista Nature identificou genótipos com maior capacidade de suportar temperaturas elevadas. A descoberta oferece recursos genéticos promissores para o desenvolvimento de tomates resistentes ao calor, uma estratégia importante para proteger a agricultura e a segurança alimentar diante do aquecimento global.
O tomate apresenta melhor desenvolvimento em temperaturas entre 21 e 27 °C. Quando os termômetros ultrapassam 35 °C, sua fase reprodutiva se torna especialmente vulnerável. O calor pode reduzir a viabilidade do pólen, provocar a queda de flores e impedir a formação adequada dos frutos.
Para investigar essas respostas, pesquisadores do Instituto Indiano de Pesquisa de Vegetais avaliaram 35 genótipos durante os verões de 2025 e 2026. As plantas foram cultivadas em ambientes controlados: enquanto o grupo de referência permaneceu entre cerca de 26 e 28 °C durante o dia, o tratamento de estresse térmico chegou a 40º C.
Calor derruba produção por planta
Os resultados mostram a dimensão do risco climático para a cultura. Sob calor intenso, houve redução no tamanho e no peso dos tomates, na espessura da polpa, no teor de sólidos solúveis — relacionado a características como sabor e qualidade — na viabilidade do pólen, na formação dos frutos e na produtividade.
O peso médio dos tomates caiu de 66,27 para 45,94 gramas. O impacto mais expressivo, entretanto, ocorreu na produção: a média despencou de 1,48 quilo para cerca de 319 gramas por planta, uma redução de quase 80%.
Mesmo nesse cenário, alguns materiais apresentaram resultados superiores. O VRT-06 produziu 846 gramas por planta, seguido por VRT-67, Superbug, VRT-34 e VRT-494. Diferentes métodos de análise confirmaram a estabilidade de parte desses genótipos, com destaque para VRT-06, VRT-67, Superbug, VRT-494 e H-88-78-1.
Pólen revela capacidade de resistência
Uma das principais contribuições do estudo está na identificação de sinais que podem acelerar a seleção de tomates resistentes ao calor. A viabilidade do pólen apresentou forte relação com a formação dos frutos e também com a produtividade. Na prática, analisar seu comportamento sob altas temperaturas pode ajudar pesquisadores a reconhecer mais rapidamente os materiais com maior potencial de resistência.
Os genótipos tolerantes também demonstraram uma defesa celular mais eficiente. Eles acumularam mais prolina, substância que ajuda a proteger células e proteínas, e apresentaram maior atividade antioxidante. Além disso, registraram entre 30% e 45% menos MDA, marcador associado a danos nas membranas celulares.
A análise genética reforçou os resultados. Genes ligados à resposta ao choque térmico e à defesa antioxidante foram mais ativados nos materiais tolerantes. O VRT-06 se destacou por combinar boa produção, estabilidade reprodutiva e uma forte resposta molecular ao calor.
As descobertas não significam que esses tomates resistentes ao calor já estejam prontos para cultivo comercial em qualquer região. Os experimentos foram realizados em condições controladas na Índia e os materiais ainda precisam ser avaliados em diferentes solos, climas e sistemas de produção.
Ainda assim, o estudo oferece um ponto de partida relevante para o desenvolvimento de cultivos adaptados ao novo cenário climático. Com ondas de calor mais frequentes e intensas, obter tomates resistentes ao calor, capazes de manter a reprodução e reduzir perdas, é não apenas um avanço científico, como também uma ferramenta de adaptação para a cadeia de produção e consumo de alimentos.