“Se o Brasil pretende liderar a construção de soluções para o desenvolvimento sustentável, especialmente a partir da Amazônia, precisa fortalecer instrumentos de credibilidade e confiança. A transparência é um deles”
A decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de revogar a obrigatoriedade dos relatórios de sustentabilidade merece reflexão cuidadosa, sobretudo em um momento em que os mercados globais avançam justamente na direção da ampliação da transparência corporativa.
A discussão não se limita ao campo jurídico, embora os questionamentos apresentados pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) sobre consulta pública, análise de impacto regulatório e segurança normativa sejam relevantes. O tema alcança uma dimensão econômica, estratégica e geopolítica que afeta diretamente a competitividade das empresas brasileiras.
Nos últimos anos, investidores, instituições financeiras, seguradoras, agências de classificação de risco e organismos multilaterais passaram a incorporar fatores ambientais, sociais e de governança em suas decisões. Trata-se de uma transformação estrutural do capitalismo contemporâneo. O acesso ao capital está cada vez mais associado à capacidade das empresas de demonstrar, de forma transparente e comparável, como administram seus riscos climáticos, ambientais e sociais.
Nesse contexto, os relatórios de sustentabilidade deixaram de ser instrumentos meramente reputacionais. Tornaram-se ferramentas de gestão, governança e atração de investimentos.
Na Amazônia, essa realidade é ainda mais evidente. As empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus convivem diariamente com o desafio de demonstrar ao Brasil e ao mundo que desenvolvimento econômico e conservação ambiental podem caminhar juntos.
São décadas de investimentos em certificação em todas as áreas de conformidade ambiental, gestão de resíduos, eficiência energética, economia circular, pesquisa, inovação e geração de emprego formal em uma região estratégica para o equilíbrio climático global.
Por essa razão, a transparência não deve ser compreendida como obrigação burocrática. Ela constitui um ativo estratégico.
A adoção de padrões internacionais de reporte cria uma linguagem comum entre empresas, investidores e mercados. Reduz assimetrias de informação, aumenta a previsibilidade, fortalece a governança e contribui para a formação de um ambiente de negócios mais seguro e competitivo.
Quando o Brasil reduz exigências de divulgação justamente no momento em que outras economias ampliam seus mecanismos de transparência, corre o risco de transmitir sinais contraditórios ao mercado internacional. A consequência pode ser o aumento da percepção de risco, a elevação do custo de capital e a perda de atratividade para investimentos de longo prazo.
A questão torna-se ainda mais sensível diante da crescente relevância da agenda climática mundial e da responsabilidade que o país assumirá nos debates globais sobre sustentabilidade, bioeconomia, transição energética e financiamento climático.
Se o Brasil pretende liderar a construção de soluções para o desenvolvimento sustentável, especialmente a partir da Amazônia, precisa fortalecer instrumentos de credibilidade e confiança. A transparência é um deles.
Os relatórios de sustentabilidade ajudam investidores a compreender riscos e oportunidades, permitem comparações objetivas entre empresas e fortalecem a reputação dos mercados. Em um cenário global cada vez mais orientado por critérios ESG, a divulgação consistente dessas informações representa uma vantagem competitiva.
A sustentabilidade deixou de ser um diferencial opcional. Ela integra a infraestrutura de confiança sobre a qual se apoiam os investimentos, a inovação e o desenvolvimento econômico do século XXI.