Investimento de R$ 2,5 bilhões em Urucu expande a exploração de petróleo na Amazônia e expõe contradições entre geração de riqueza, energia e desenvolvimento local.
A Petrobras anunciou um investimento de R$ 2,5 bilhões para ampliar a produção de petróleo e gás na Província Petrolífera de Urucu, em Coari, no interior do Amazonas. O anúncio foi feito na terça-feira (27/5), em Manaus, durante evento com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Localizada no centro da Floresta Amazônica, Urucu é considerada a maior província petrolífera terrestre do Brasil. A área completa 40 anos de exploração de petróleo em 2026 e, atualmente, produz cerca de 105 mil barris de óleo equivalente por dia.
Com os novos investimentos na exploração de petróleo na Amazônia, a Petrobras pretende perfurar mais poços e instalar cerca de 40 quilômetros de linhas para transporte de petróleo e gás. A expectativa da companhia é acrescentar 4.400 barris de óleo equivalente por dia à produção atual, um aumento inferior a 5%.
A produção de Urucu tem papel estratégico no abastecimento energético da Região Norte. Segundo a Agência Petrobras de Notícias, o gás natural extraído da província é responsável por viabilizar 65% da geração de energia elétrica consumida em Manaus e em outros cinco municípios. Já o gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, tem produção média de 80 mil botijões por dia na região e abastece todos os estados do Norte, além de parte do Nordeste.
Apesar da relevância econômica da operação, o avanço da exploração de petróleo na Amazônia enfatiza o debate sobre os impactos sociais e ambientais da produção de combustíveis fósseis na região. Quase quatro décadas após o início das atividades, moradores de Coari, município localizado a cerca de 360 km de Manaus, ainda enfrentam carências estruturais em serviços públicos, desemprego e instabilidade no fornecimento de energia.
A contradição foi registrada na série de reportagens e no documentário “Insustentável: a realidade do petróleo na Amazônia”, de André Borges, Ruy Baron e Fernanda Ligabue. Em 2023, durante visita ao município, Borges ouviu relatos sobre apagões e dificuldades enfrentadas pela população local.
O município recebe valores expressivos em royalties. Em 2022, foram R$ 136,3 milhões, destinados a uma cidade com cerca de 70 mil habitantes. Mesmo assim, a população ainda enfrenta falta de medicamentos básicos, problemas na merenda escolar e precariedade em áreas essenciais, como saúde e educação.
Para Gleides Menezes, coordenadora da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) na cidade, a presença da indústria do petróleo não se traduziu em melhoria concreta para a população. “Para um município que recebe esses recursos, o que a gente percebe é essa precariedade, sobretudo nas questões essenciais do serviço público”, afirmou. Ela também destacou a falta de diversificação econômica, já que sem uma indústria além da petroleira, os moradores enfrentam poucas oportunidades de trabalho e renda.
Durante o anúncio, Lula afirmou que a Petrobras é um instrumento importante para ampliar investimentos, gerar empregos e fortalecer a economia nacional. No entanto, o caso de Coari expõe um dos principais questionamentos sobre a exploração de petróleo na Amazônia: a riqueza gerada pela atividade nem sempre se converte em desenvolvimento local.
O investimento em Urucu também ocorre em meio ao debate global sobre a dependência dos combustíveis fósseis. Em artigo publicado no Financial Times e na Folha, Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, afirmou que choques recentes no mercado internacional mostram a vulnerabilidade dos países que mantêm suas economias atreladas ao petróleo. Para ele, insistir em novos projetos fósseis pode representar um risco econômico diante de cenários de queda na demanda global.
Segundo Prates, companhias nacionais de petróleo investem cerca de US$ 425 bilhões em projetos que podem não ser lucrativos em cenários de menor consumo. Estados produtores, por sua vez, podem perder trilhões em receitas esperadas até 2040, mesmo em uma transição energética de ritmo moderado.

