ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento demográfico acelerado e consumo perdulário, diante da emergência de uma nova revolução industrial baseada na produtividade dos recursos naturais

Paulo R. HaddadMembro da Academia Mineira de LetrasBelo Horizonte Abril/2026

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates durante o processo eleitoral relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.

Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

  • I. Anotações Introdutórias: o Brasil que Queremos
  • II. O que fazer com o planejamento nos Estados?
  • III. O planejamento do desenvolvimento sustentável dos Estados e Municípios 
  • IV. O futuro da Amazônia: savanização ou sustentabilidade?
  • V. A construção de uma nova política econômica: estabilização monetária com desenvolvimento sustentável
  • VI. Políticas sociais e regimes de desigualdades no Brasil
  • VII. Atualização das políticas ambientais no Brasil
  • VIII. Atualização das políticas de desenvolvimento regional no Brasil
  • IX. O futuro do capitalismo no Brasil
  • X. Brasil: a Grande Transformação. 

Michael Fairbanks and Stace Lindsay

Harvard Business School

  • “Use uma linguagem simples e não pressuponha que as pessoas já entendem de conceitos econômicos pouco familiares; seja honesto sobre a desonestidade que permeia o debate político; não tenha receio de tratar de forma crítica os assuntos controversos, as fake news e os argumentos econômicos que são elaborados de má-fé; não deixe de lado a boa briga pela verdade, pela justiça e pelo antizumbi (ideias que já morreram e que insistem em estar entre nós); lembre-se ser legítimo que cada um tenha as suas próprias ideias, mas não os seus próprios fatos”  Paul Krugman (2020) – Coluna no New York Times.
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“A autoridade da Economia deriva em grande parte de sua opacidade. Insisto, ao contrário, na absoluta necessidade de que as ideias principais em Economia (e, de modo geral, nas Ciências Sociais) sejam transparentes, essencialmente não mergulhadas no jargão técnico… A opacidade é uma forma de poder disfarçado”.

Robert Skidelsky – What’s Wrong With Economics? Yale, 2021.

A concepção e a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável, no Brasil, colocam em questão os problemas de articulação dos objetivos das políticas econômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento de médio e de longo prazo. 

Essa questão inclui, de um lado, a consolidação do ajuste fiscal e financeiro, e, do outro lado, a superação do atual quadro de desigualdades sociais e regionais, por meio de políticas públicas que promovam um novo ciclo de expansão, com equidade social e sustentabilidade ambiental.

O papel do tempo na análise dos problemas econômicos sempre foi uma questão controversa. Em 1923, Keynes, principal economista do século 20, procurava estabelecer uma noção clara do que seria o curto prazo. Para ele, no curto prazo, há um passado que já transcorreu e trouxe, para o presente, a acumulação de um estoque de capital físico (fábricas, áreas agricultáveis, infraestrutura econômica e social), um dado perfil de distribuição de renda e de riqueza, uma força de trabalho com diferentes qualificações, os fundamentos das instituições políticas e sociais, um certo grau de degradação do capital natural, etc.

Políticas econômicas de curto prazo, que lidam com problemas de inflação, de flutuações nos níveis de produção e emprego, têm de ser operadas dentro das restrições impostas por um tempo histórico e irreversível. É indispensável tomar essas restrições e condicionalidades como ponto de partida.

Se, nos momentos tumultuados do presente, quisermos resolver graves questões econômicas com orientações estratégicas que somente são eficazes no longo prazo, as políticas econômicas podem fracassar. Assim, como dizia Keynes, no longo prazo poderemos estar todos mortos.

Keynes, com essa afirmação, estava simplesmente nos lembrando de que os economistas podem tornar sua vida mais fácil se, em momentos de tempestades, se limitarem a apontar caminhos de tranquilidade que estão além dos mares revoltos, sem demonstrar, contudo, como é possível atravessar o quadro das dificuldades presentes, preservando as conquistas realizadas*

Particularmente em situações em que ainda persistem inconsistências macroeconômicas, com déficits públicos e elevada relação de endividamento, a sociedade inclina-se a considerar as políticas de médio e de longo prazo como supérfluas e residuais. Pressupõe que os problemas de curto prazo (inflação, déficits públicos, etc.) são tão críticos e dominantes que não haveria condições para cuidar das suas questões de médio e de longo prazo (a erradicação da pobreza absoluta, a gestão sustentável dos recursos hídricos, a atenuação dos desequilíbrios regionais, etc.) antes de se consolidar a estabilidade econômica.

Vale dizer, numa sociedade em regime de rigoroso ajuste fiscal e financeiro, as soluções dos problemas de estrutura (os de médio e de longo prazo) ficariam cronologicamente condicionadas pelas soluções dos problemas de conjuntura (os de curto prazo). Uma racionalização possível: “Uma vez equacionado o equilíbrio fiscal de forma sustentada, os problemas econômicos da sociedade seriam equacionados pelas forças livres dos mercados”.

Ora, essa querela perde o seu significado quando se vive, durante mais de duas décadas, uma sequência de políticas de curto prazo, pois surgem efeitos não previstos ou indesejáveis sobre a evolução dos problemas de médio e de longo prazo. 

Uma sequência quase interminável de políticas de estabilização, por exemplo, pode impactar sensivelmente a distribuição funcional da renda nacional, a estrutura de oferta de serviços públicos tradicionais, os níveis de riscos e de incertezas dos investimentos diretamente produtivos. Ou seja, de ajuste em ajuste, o que se pensava ser tão somente políticas explícitas de curto prazo vão se tornando políticas implícitas de médio e de longo prazo.

Na verdade, uma longa sequência de ajustes de curto prazo acaba trazendo um aprendizado perverso tanto para o Governo quanto para os agentes econômicos privados, que se viciam em estratégias adaptativas ou conformistas, as quais excluem uma visão de perspectiva sobre os interesses maiores do futuro da sociedade.

De um lado, o Governo sabe, cada vez mais, como lidar com políticas monetárias e cambiais eficazes, para controlar, no curto prazo, desequilíbrios macroeconômicos, internos e externos, que possam gerar inflação e desconfiança. Do outro lado, os agentes privados se protegem de eventuais incertezas e instabilidades investindo menos, acumulando menos, se endividando menos, especulando mais. Resultado: o crescimento sustentado não vem, os serviços públicos se deterioram, expande-se o cassino da especulação financeira e encurta-se a agenda dos problemas nacionais a serem enfrentados.

A questão que se coloca é identificar alternativas ou novos paradigmas de desenvolvimento que possam vingar até mesmo em um ambiente macroeconômico de ajustes fiscais e financeiros, rigorosos e recorrentes; que sejam compatíveis com o processo de estabilização econômica em andamento; que não se configurem apenas como bem-sucedidos casos de vitrine ocasionais, não replicáveis contudo com a amplitude e abrangência indispensáveis.

A experiência histórica de diversos países nos mostra que os caminhos para superar os limites de políticas macroeconômicas de curto prazo passam por diversos imperativos. É preciso reverter as expectativas mais imediatistas dos agentes econômicos por meio de um projeto nacional de desenvolvimento (por exemplo: uma combinação do tipo PAEG mais Plano Decenal de Campos e Bulhões); que seja lastreado em reformas econômicas e institucionais (tributária, previdenciária, política, etc.) tecnicamente consistentes e politicamente factíveis.

É preciso inovar em matéria de mobilização de recursos latentes, tangíveis e intangíveis, por meio de experiências multifacetadas de desenvolvimento endógeno e de gestão compartilhada em diferentes espaços e segmentos da sociedade civil. É preciso ampliar a agenda de mudanças sociais e de transformações produtivas para incorporar o tratamento sustentável e progressivo das diferentes formas de capital (ver Texto X).

Um dos problemas mais inquietantes nesse contexto tem sido a persistência dos desequilíbrios regionais de desenvolvimento no País. De um lado, temos regiões mais desenvolvidas que oferecem aos seus habitantes condições de vida típicas dos países de economias avançadas; do outro lado, temos regiões que se caracterizam pelos elevados índices de pobreza e de extrema pobreza dos seus habitantes. É o que poderíamos chamar de dualidade básica de desenvolvimento social e econômico do Brasil.

economia brasileira

Quando se analisa o processo de desenvolvimento do Brasil, tendo em vista os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), não se pode desconsiderar a grave questão das desigualdades regionais de desenvolvimento. Essas desigualdades se agravaram a partir da II Grande Guerra, atenuaram-se a partir dos anos 1970 e se acomodaram no século atual, congelando as desigualdades.

As políticas de desenvolvimento regional do Brasil se basearam em investimentos públicos e incentivos fiscais e financeiros do Governo Federal, as quais perderam, atualmente, o seu poder de transformação, pois a profunda crise fiscal as torna ineficazes e supérfluas. Essas políticas precisam ser arquitetadas dentro de um novo projeto do desenvolvimento sustentável, em um país que se caracteriza por ser um dos mais socialmente desiguais do mundo, de crescimento pífio face às suas imensas potencialidades, e que interrompe as suas políticas ambientais em benefício da tentação populista, em favor de predadores dos ecossistemas.

Quando um país consegue reduzir os processos de desequilíbrios regionais de desenvolvimento, convergindo as condições de vida das regiões mais pobres para as condições de vida das regiões mais ricas, é preciso que consolide, sustente e reinvente as políticas públicas para evitar a reversão desses desequilíbrios e da convergência ao longo do tempo. Ou seja, não basta que as regiões menos desenvolvidas do Brasil tenham melhorado sua posição relativa desde os anos 1970, é necessário que o seu progresso econômico e social avance ainda mais. 

Em artigo publicado no New York Times, Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, mostra que as disparidades regionais de desenvolvimento não são um fenômeno novo nos EE.UU. Antes da II Grande Guerra, a nação mais rica e produtiva do mundo era também a nação com milhões de fazendeiros muito pobres, sendo que muitos não tinham eletricidade e água encanada em suas casas. Mas, até 1970, essas disparidades foram rapidamente diminuindo, graças às políticas de desenvolvimento regional que se iniciaram a partir do New Deal do presidente Roosevelt, para livrar a economia norte-americana da depressão econômica de 1929.

Krugman toma, como exemplo, o estado do Mississipi, o mais pobre dos EE.UU. Nos anos 1930, a renda per capita do Mississipi era apenas 30% da renda per capita do estado de Massachusetts. Nos anos 1970, essa relação subiu para mais de 70%. Esperava-se, então, que esse processo de convergência continuasse.

Entretanto, o processo se reverteu e o Mississipi está atualmente com uma relação de apenas 55% da renda per capita de Massachusetts. Krugman destaca que o Mississipi está tão pobre quanto as áreas costeiras da Sicília em relação ao Norte da Itália*

No caso brasileiro, após a implementação do Plano de Metas do Presidente JK, a região economicamente menos desenvolvida era o Nordeste. Durante as três primeiras décadas de sua organização, a SUDENE conseguiu induzir o crescimento econômico regional, através de um sistema de incentivos fiscais e de intensos investimentos em infraestrutura econômica e social do Governo Federal.

Nesse período, em diversos anos, as taxas de crescimento da região foram superiores ao crescimento médio nacional. É bom lembrar que historicamente, em 1890, o PIB per capita do Nordeste foi estimado como sendo o dobro do PIB per capita do estado de São Paulo. 

No século 21, a posição relativa do PIB do Nordeste no PIB brasileiro tem oscilado entre 13 e 14%, sendo que, nos anos de 2018 e 2019, o PIB nordestino cresceu praticamente a metade do PIB nacional, o qual foi apenas de 1,1 % ao ano. Pode-se dizer que, no Nordeste, parafraseando Gramsci, o velho modelo de crescimento econômico regional não morreu e o novo modelo de desenvolvimento sustentável ainda não nasceu.

O velho modelo muito dependia, para se transformar, do aporte direto ou indireto de volumosos recursos do Governo Federal, que passa atualmente por uma profunda crise fiscal e financeira. E o novo modelo de desenvolvimento sustentável esbarra no déficit de capitais e valores intangíveis da região (social, institucional, humano, empreendedorismo, endogenia, etc.) os quais são responsáveis, em última instância, por resgatar, endogenamente, a região das entranhas do atraso econômico e da pobreza social. (ver Texto III)

Mantidas as atuais taxas de crescimento do Nordeste e do Brasil, serão necessárias muitas décadas para que a região e os seus estados atinjam 70% do PIB per capita do País. Uma assimetria espacial no padrão de vida dos brasileiros, que é politicamente intolerável em uma democracia federativa moderna. 

Tomando como exemplo a Amazônia Legal, que inclui nove Estados, temos a impressão, pela sua riqueza em recursos naturais, de que “os desequilíbrios regionais de desenvolvimento” são uma questão do Nordeste: Entretanto, muitas de suas áreas têm indicadores socioeconômicos e socioambientais das áreas economicamente deprimidas. Além do mais, algumas unidades da Federação apresentam graves desequilíbrios intraestaduais de desenvolvimento, como é o caso de Minas Gerais (Sul e Triângulo são mais desenvolvidos, se contrapondo ao Norte do estado e aos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, menos desenvolvidos). (ver Texto III)

É bom lembrar que o Budismo nos ensina que não há nada mais democrático do que o sol que, quando se levanta, ilumina igualmente todas as regiões. Ou, como dizia Platão: “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro. A real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. 

O geógrafo Jared Diamond*, da Universidade da Califórnia (UCLA), ao analisar historicamente como as sociedades antigas e as sociedades modernas escolheram entre o seu colapso e o seu progresso econômico e social duradouro, destaca que a diferença depende, entre outros fatores, de líderes que não atuam apenas de forma passiva, mas que têm a coragem de antecipar crises e agir, abortando-as antecipadamente. São capazes de prospectar o futuro das sociedades em que vivem e, inconformados, liderar processos de grandes e inovadoras transformações. 

É fundamental que se promova, como um dos projetos prioritários para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Brasil (ODS), a retomada das políticas que visam a atenuar os desequilíbrios regionais de desenvolvimento. As regiões não podem ser consideradas tão somente como almoxarifados de recursos naturais, onde as áreas mais desenvolvidas vêm em busca de matérias-primas e de insumos energéticos, nem como espaços para a prática de políticas compensatórias características de ações eleitoreiras ou emergenciais (ou seja, um almoxarifado de votos).

Essas políticas devem priorizar as áreas economicamente deprimidas, abandonadas até mesmo pela lógica dos mercados. São áreas que se caracterizam como um conjunto de municípios com baixo nível do PIB per capita (inferior a 30% do PIB per capita brasileiro), elevados índices de pobreza e de carência de serviços sociais básicos, insuficiência de absorção de mão de obra (elevadas taxas de desemprego aberto, de subemprego ou desemprego disfarçado).

Essas áreas se encontram, principalmente, no Sertão e no Agreste do Nordeste do País, nos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, no Norte de Minas, em áreas desmatadas da Amazônia, em quatro microrregiões do Vale do Rio Doce, envolvendo mais de 70 milhões de brasileiros.

Economias regionais e municipais podem passar por experiências históricas de auge e de declínio, de ciclos de prosperidade a ciclos de estagnação, de anos dourados a anos de decadência. Mas não se trata de um determinismo que se impõe à evolução histórica dos municípios e regiões. Nada que uma política pública bem concebida e bem implementada não possa equacionar. 

Precisamos acreditar, politicamente, que grandes transformações endógenas podem acontecer, e acontecem. Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006, escreveu sobre a Turquia: “Algumas pessoas pensam que num país brutal como o nosso, onde a vida humana pouco vale, é tolice se deixar destruir por causa das próprias crenças e de grandes ideais, e que só quem vive nos países ricos pode se dar a esses luxos… mas é exatamente ao contrário: num país pobre, o único consolo que o povo pode ter é o de suas crenças”.

Quando examinamos o PIB per capita do Brasil e de seus estados, em 2023, percebemos (ver MAPA 1) que persistem os desequilíbrios regionais de crescimento econômico, o que pode ser constatado pelos dados do PIB per capita, no primeiro ano após a COVID 19: 

“O PIB per capita do Brasil alcançou R$ 53.886, segundo o Sistema de Contas Regionais do IBGE em 2023 (último dado) registrando crescimento de 8,56% em relação a 2022. Apesar do avanço nacional, a distribuição da renda permanece bastante desigual entre as regiões e unidades da federação. O Sudeste segue como a região mais rica, com média de R$ 69 mil, impulsionada por São Paulo (R$ 77 mil) – o maior PIB per capita entre os estados – e pelo dinamismo econômico de Rio de Janeiro (R$ 73 mil), de serviços e indústrias.

Já o Centro-Oeste, com forte presença do agronegócio e serviços públicos, registra média de R$ 63 mil, destacado por Mato Grosso (R$ 74 mil).  O DF possui o maior valor absoluto do país (R$ 129 mil), um ponto fora da curva da alta renda associada à forte concentração da administração pública federal. O Sul apresenta média regional de R$ 61 mil, puxada por Santa Catarina (R$ 67 mil) e Rio Grande do Sul (R$ 59 mil). A região mostra equilíbrio produtivo, com desempenho na indústria, agro e serviços.

No Norte, com média de R$ 36 mil, observa-se um avanço gradual de riqueza econômica rumo à região, incluídos Rondônia (R$ 48 mil), Tocantins (R$ 42 mil) e Amazonas (R$ 41 mil), os dois primeiros ligados ao agronegócio, enquanto o Amazonas mantém papel central na forte indústria do Polo Industrial de Manaus. Já o Nordeste (R$ 27,6 mil) concentra os menores níveis de renda per capita, com estados como Maranhão (R$ 22 mil) e Piauí (R$ 24 mil) entre as últimas posições.

Ainda assim, os maiores PIBs per capita da região são registrados por Rio Grande do Norte e Bahia, ambos por R$ 30 mil, acima da média nordestina, com destaque no setor de serviços, comércio, turismo, agro, assim como o polo petroquímico da Bahia. O crescimento econômico continua concentrado nas regiões mais populosas e industrializadas, enquanto desafios históricos ligados à baixa industrialização e investimentos ainda freiam outras áreas do país.

Essas disparidades reforçam a necessidade de políticas que impulsionem a produtividade e diversifiquem a economia nas regiões menos desenvolvidas do país”.

MAPA 1

pib per capita brasil upscaled
populacao regioes brasil upscaled

Fonte: Post do Brasil em Mapas, S.P. (2025).

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Observa-se, pois, que nesse início do século 21, a preocupação maior com a questão dos desequilíbrios regionais de desenvolvimento no Brasil tende a se concentrar nos estados das macrorregiões do Norte e do Nordeste, com as seguintes ressalvas: quando as disparidades regionais são medidas em termos de renda per capita entre os estados, o contexto é menos grave, uma vez as políticas sociais compensatórias (Bolsa-Família; Benefícios Continuados, Previdência Social, entre outras) tendem a beneficiar relativamente mais as unidades da Federação menos desenvolvidas; por exemplo, enquanto o PIB per capita do Maranhão representava 27,20% do PIB per capita de São Paulo (2020), a renda per capita do Maranhão representava 37,89% da renda per capita de São Paulo (ver Texto I);

Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2022, as duas macrorregiões mais pobres concentram 72 milhões de brasileiros, sendo mais de 54 milhões no Nordeste (ver Figura 1); é evidente que não se trata da distribuição regional dos indicadores de pobreza e de pobreza extrema, pois há também uma distribuição intraestadual da renda e da riqueza entre os seus habitantes; os desequilíbrios intraestaduais de desenvolvimento, especificamente os descompassos entre os níveis atuais de crescimento e os índices de potencialidade de expansão de algumas áreas, têm estimulado propostas de criação de novos estados e territórios no Brasil (movimentos separatistas); seguem abaixo as principais propostas de novos  estados em discussão no Congresso Nacional:

  1. Tapajós e Carajás: Desmembramento do Pará.
  2. Maranhão do Sul: Criação a partir de municípios do sul do estado.
  3. Rio São Francisco: Área desmembrada do oeste baiano.
  4. Mato Grosso do Norte e Araguaia: Projetos na região do Mato Grosso.
  5. Entorno de Brasília: Proposta para o Entorno do DF. 
  6. Rio Negro e Solimões: Propostas no Amazonas.
  1. Em geral, os Estados menos desenvolvidos não dispõem do superávit primário em suas contas fiscais, necessário para financiar os investimentos em infraestrutura econômica e social, e indispensável para atrair projetos de investimentos diretamente produtivos.

Assim, um processo de atenuação dos desequilíbrios regionais de desenvolvimento no Brasil passa pela identificação de novos projetos de investimentos por parte da iniciativa privada. Destacamos alguns desses projetos localizados preferencialmente nos estados e regiões de menor nível de prosperidade socioeconômica e ou degradados ambientalmente. Examinaremos cinco situações: as novas rotas da seda, os novos eixos de desenvolvimento, o turismo inclusivo, a exploração de petróleo na Amazônia (analisado no Box 1, Texto IV), a reestruturação de áreas ambientalmente descentralizadas.

As relações entre o processo de crescimento econômico de uma região e o processo de distribuição da renda e da riqueza geradas entre seus habitantes ao longo do tempo são de natureza paradoxal. No Brasil, houve diversos períodos históricos em que essas relações se manifestaram através de configurações bastante diferenciadas das quais puderam ser extraídas muitas lições e paradigmas.

A grande questão que se coloca do ponto de vista do desenvolvimento sustentável de uma região onde se localiza um grande projeto de investimento é a formação de um “enclave econômico”, que restringe os impactos espaciais em benefício das populações locais. Vejamos o caso dos projetos de turismo e a sua concepção através de benefícios líquidos para as comunidades empobrecidas, numa abordagem estratégica alinhada com o programa dos 17 ODS da ONU, denominados “Pro-poor tourism” (PPT).

Na última década, o Brasil realizou um conjunto grandioso de projetos de investimento em turismo, liderados pelo PRODETUR no Nordeste. A expectativa é a de que esses projetos possam contribuir para aliviar a pobreza nas áreas em que se localizam, a par do inquestionável processo de crescimento econômico que nelas desencadeiam.

A preocupação com esta questão deriva do fato de que são frequentes as experiências de investimentos em resorts turísticos, altamente subsidiados com recursos públicos, que se constituem muitas vezes em verdadeiros enclaves econômicos nas localidades onde se situam. Nelas os investidores se apropriam do capital natural, sem impactar significativamente as condições de vida das populações pobres residentes no seu entorno espacial ou sem se preocupar em apoiar programas de desenvolvimento de fornecedores locais.

Evento típico também de projetos de investimentos que se destinam à exploração de recursos naturais renováveis e não renováveis em determinadas regiões, onde acabam se implantando como verdadeiros “enclaves econômicos”. Os impactos diretos e indiretos sobre a renda da população são limitados e, no caso da exaustão de recursos não renováveis, há um processo de decadência econômica acelerada, como ocorreu na Serra do Navio (Amapá) com a exaustão da exploração de manganês. 

Não há dúvida de que os novos investimentos em atividades turísticas nas áreas periféricas do País contribuíram para resultados muito positivos nas nossas contas externas, no nível geral de emprego, nas taxas de crescimento do PIB, etc. Mas, ainda resta dúvida sobre os benefícios que teriam aportado para os habitantes dessas áreas. Será que, na concepção e na implementação desses projetos de investimento, não estaria embutido um conflito entre os critérios de eficiência econômica e de equidade social?

A análise das experiências dos ciclos de expansão de diferentes economias nacionais e regionais no pós-II Grande Guerra não revela a existência de nenhuma correlação geral e sistemática entre o processo de crescimento econômico e a distribuição de renda e de riqueza nesse processo.

Constatou-se que a compatibilidade entre o crescimento econômico e o desenvolvimento social não se processa espontaneamente. O desenvolvimento social não se revelou como um subproduto cronológico do crescimento econômico. De fato, a experiência histórica vem demonstrando que a simples mobilização intensiva dos fatores de produção pode reproduzir, agora sim, de forma espontânea, as condições sociais iniciais que lhes deram sustentação.

Em princípio, não se pode afirmar que os critérios de eficiência econômica e de equidade social (ou de distribuição de renda e de riqueza) que orientam a seleção e a prioridade de projetos de investimentos sejam mutuamente exclusivos. Um programa ou projeto de investimento, como o de melhoria da competitividade de um arranjo produtivo local de turismo, pode se enquadrar no critério de eficiência e no critério de distribuição, pois, de um lado, aumenta os fluxos de comercialização, as margens de lucro, e, enfim, a competitividade setorial e, ao mesmo tempo, pode beneficiar a formação de mão de obra local em áreas menos desenvolvidas. O que interessa ressaltar é a ênfase ou a intencionalidade dada ao programa ou projeto.

No primeiro ciclo de expansão do pós-II Grande Guerra, o objetivo principal era acelerar o processo de substituição de importações, quando ocorreu uma concentração espacial de crescimento econômico no Eixo Rio-São Paulo. Já no segundo ciclo de expansão dos anos 1970, a concentração de atenção foi na modernização e na integração competitiva da economia brasileira, o que levou à concentração social da renda e da riqueza nacional.

É preciso, pois, definir os procedimentos operacionais através dos quais é possível combinar a eficiência empresarial ou microeconômica dos investimentos em turismo com a busca do desenvolvimento humano das populações das áreas em que se localizam.

Há, nesse ponto, duas instituições que têm registrado detalhadamente as experiências internacionais bem sucedidas nessa direção: o Projeto Pro-poor Tourism (PPT), financiado pelo Department for International Development (DFID) do Reino Unido e a OMT (Organização Mundial do Turismo). O próprio MINTUR considera que as propostas mais adequadas de políticas públicas do setor devem ter, como ponto de partida, o estabelecimento de portas de saída para a pobreza. 

Não faltam experiências em que mirar, nem concepções adequadas de turismo sustentável nas burocracias especializadas ou até mesmo capacidade de planejamento nos quadros técnicos dessas burocracias para desenhar políticas, programas e projetos que articulem os investimentos em capital físico, capital humano e capital social em torno das atividades turísticas. 

Entretanto, como se trata de investimentos que envolvem os três níveis de governo, complexas relações entre o interesse público e o interesse privado, além de intensa transversalidade nas burocracias públicas, talvez o nó górdio da sua implementabilidade esteja na fragilidade ou na própria ausência da função de coordenação geral no processo de planejamento do Governo Federal. Os projetos de investimentos em turismo não podem se tornar ilhas de prosperidade econômica em áreas de pobreza social. 

Peter Frankopan é um dos maiores historiadores contemporâneos. Pesquisador da Universidade de Oxford, escreveu o livro “O Coração do Mundo – Uma Nova História Universal a partir da Rota da Seda: o encontro do Oriente com o Ocidente”. No ano de 2024, o presidente da China, Xi-Jinping esteve em Brasília e assinou, com o presidente Lula, 37 acordos para a expansão da Nova Rota da Seda, envolvendo a cooperação em torno de 15 temas, como o agronegócio, intercâmbio educacional, cooperação de comércio, incluindo não apenas commodities.

Com a crescente onda de protecionismo nas economias avançadas, os novos Acordos Brasil-China constituem a grande oportunidade do comércio internacional em maior e imensa escala para as empresas brasileiras.

Tais acordos abrem um campo de oportunidades de desenvolvimento do comércio exterior com os países do Sudeste Asiático (China, Japão, Coreia do Sul, Vietnam, Índia, etc.) particularmente nas Novas Rotas da Seda. Entre essas oportunidades podemos identificar algumas que se relacionam diretamente com as atividades do agronegócio brasileiro, as quais se associam às declarações conjuntas em torno de princípios gerais sobre a nova ordem socioeconômica e socioambiental do Planeta, sobre a cooperação técnica, científica e interinstitucional, sobre muitos dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Para alguns alimentos, os acordos são bem específicos, tais como a cooperação e abertura de quatro mercados: farinha de peixe, óleo de peixe e outras proteínas e gorduras derivadas de pescado para ração animal; sorgo; gergelim, uva fresca. Outros mercados deverão ser abertos à medida que avançar a cooperação técnica e comercial no setor agrícola, tal como previsto nos acordos.

A meu ver, os maiores impactos deverão ocorrer quando houver maior integração do Brasil nas Novas Rotas da Seda, a partir dos investimentos em logística de transporte e de comunicação com saída pelo Oceano Pacífico, desde o Acre até o Porto de Chankay, no Peru*, quando deverá se ampliar e consolidar a posição da China como principal parceiro comercial do Brasil (além de uma das mais importantes fontes de investimento externo no País), o que vem ocorrendo desde 2009. Há expectativa de que os acordos entre Brasil e China para a agropecuária possam elevar a posição do País no ranking de exportação mundial.

É bom lembrar que, na nova era Trump, o empresariado brasileiro não deixou que os seus negócios internacionais fossem contaminados pela polarização política, que avança em escala mundial nos últimos anos.

A sua postura pragmática está sintonizada com o pensamento de Milton Friedman, que, juntamente com Adam Smith (1776) é considerado um dos pais do liberalismo econômico:

Um novo ciclo de expansão do agronegócio brasileiro terá que delimitar os seus mercados futuros. Há dificuldades com as perspectivas do mercado interno brasileiro, que cresce lentamente: a produtividade total dos fatores de produção tem sido muito baixa, a distribuição da riqueza e da renda nacional está muito concentrada, houve uma desaceleração no crescimento demográfico do País e as políticas sociais compensatórias se curvam diante da crise fiscal nos três níveis de governo.

Por outro lado, o mercado mundial está crescentemente protegido através de diferentes formas e motivos, o que tem se intensificado a partir da posse de Trump no novo mandato presidencial. Sem saída? Não. Porque a China realizou com o Brasil 37 acordos no ano passado, os quais deverão ampliar a abertura para o comércio de bens e serviços, principalmente para o agronegócio brasileiro. Assim, a onda protecionista anti-China nos EE.UU. e na União Europeia pode se transformar em um campo de oportunidades para o comércio exterior do Brasil, desde que o país formule e implemente estratégias de desenvolvimento apropriadas.

  • Uma Estratégia de Desenvolvimento para a Região do Matopiba/Rondônia/Acre/Centro-Norte do Mato Grosso

Um corredor ou eixo de desenvolvimento é uma área formada por um eixo de transporte cujas economias progridem e se reforçam mutuamente, permitindo que as cidades cresçam mais rapidamente do que se cada uma tivesse de promover o seu próprio desenvolvimento.

Quando ocorreu o processo de descentralização industrial da Região Metropolitana de São Paulo, a partir da década dos anos 1970 (naquela época a RMSP acumulava 40% do PIB industrial brasileiro), formaram-se vários eixos de desenvolvimento industrial na direção Oeste-Ribeirão Preto, Campinas-Sorocaba, Sul de Minas, etc.  Esses eixos estão atualmente entre as áreas mais desenvolvidas do País. Como exemplos, o PIB do eixo Oeste de São Paulo é maior do que o PIB do Chile e o eixo Campinas-Sorocaba é denominado Eixo Asiático por causa de sua grandiosidade econômica.

Esses eixos já desenvolvidos constituem uma imagem-objetivo como referência (benchmarking) para o processo de desenvolvimento sustentável (= crescimento econômico + inclusão social + sustentabilidade ambiental) de novos Eixos estruturados em vários Estados. A imagem-objetivo é um contexto histórico, socioeconômico e socioambiental para a construção do futuro, através da metodologia de planejamento de longo prazo, levando em consideração o conhecimento existente, as restrições e condicionalidades, as aspirações da sociedade.

Uma imagem-objetivo é definida de forma participativa, através de pesquisas de opinião pública, do histórico de narrativas nos meios de comunicação social, de entrevistas com lideranças políticas e comunitárias (stakeholders), consideradas as restrições político-institucionais vigentes.

Uma das possibilidades de conceber e implementar um novo eixo de desenvolvimento no Norte/Nordeste para a exploração de alimentos, fibras naturais, bioenergias e muitos outros produtos da bioeconomia, está na organização de um plano de desenvolvimento sustentável em uma área-programa formado por Matopiba*/Rondônia/Acre/Centro-Norte do Mato Grosso. Se houver, efetivamente, uma expansão das exportações brasileira para o Sudeste Asiático será necessário a acessibilidade do Brasil ao Porto de Chancay.

A área-programa definida se constitui principalmente de regiões que foram beneficiadas pela “revolução dos Cerrados”, podendo dobrar a sua produção agropecuária a partir do Terceiro Salto Científico e Tecnológico da Agropecuária Brasileira, viabilizando alguns acordos das Novas Rotas da Seda. As pré-condições para o sucesso do novo eixo de desenvolvimento regional estão dadas: demanda elevada e em ascensão; inovações científicas e tecnológicas para aumentos de produtividade; logística de transporte equacionada e financiável, etc.(ver Texto IV).

d.1. O Brasil dispõe de inúmeras áreas economicamente deprimidas que resultaram historicamente da exploração predatória de sua base de recursos naturais, renováveis e não renováveis. Esse uso não sustentável dos recursos ambientais compromete o futuro do bem-estar social das novas gerações que habitam as áreas economicamente deprimidas por causa da degradação de suas potencialidades econômicas (florestas, água, minerais, etc.) e as restrições ao seu desenvolvimento.

Já há muitas experiências nacionais e internacionais que, através de metodologias de planejamento do desenvolvimento regional, conseguiram reestruturar as economias de áreas deprimidas e colocá-las em um novo espaço de crescimento econômico. Mas o que fazer quando a desestruturação das economias regionais ocorre por causa de desastres ambientais?

Há inúmeros estudos orientados para políticas públicas de conservação, preservação e reabilitação dos ecossistemas que foram degradados, visando a estimar o valor econômico da perda do potencial produtivo do capital natural, conjuntamente com o capital físico resultante de desastres ambientais.

d.2.  O historiador Niall Ferguson*, ao discutir os vários tipos de catástrofes que ocorreram na história da Humanidade, os classifica desde desastres geológicos (terremotos) até desastres geopolíticos (guerras), de desastres biológicos (pandemias) e de desastres tecnológicos (acidentes nucleares).

Acredita que a dicotomia entre catástrofes naturais e catástrofes produzidas pelo homem (man-made) é equivocada. Desastres são raramente eventos exógenos, inteiramente à parte da história da economia, da cultura, da sociedade e da política.

Até mesmo um terremoto será catastrófico, principalmente na medida da extensão do processo de urbanização ao longo da falha geológica ou da falha tectônica. Uma coisa é um deslizamento de terra em uma região isolada com vazio demográfico, que ocorre com certa frequência na natureza; outra coisa, por exemplo, é um deslizamento de terra nos municípios das serras do estado do Rio de Janeiro (Petrópolis, Teresópolis, etc.); uma pandemia é constituída de um novo agente patogênico e dos agrupamentos sociais que ele ataca, como outro exemplo.

Ainda segundo Niall Ferguson, os desastres são inerentemente difíceis de serem previstos, pois não são distribuídos normalmente. Quem tenta predizê-los, pode acabar decepcionado e frustrado na identificação de rupturas futuras que se caracterizam como tipping points.

Entretanto, como os seus impactos são previsíveis, embora não se possa prever quando ocorrerão, as políticas públicas ambientais podem mitigá-los. Podemos não prever quando ocorrerá uma elevação dos níveis do mar, mas temos grande certeza de que, quando os mangues são eliminados pela especulação imobiliária urbana, os seus impactos serão deletérios.

“Não temos como saber qual será o próximo desastre. Nosso objetivo modesto deveria ser tornar nossas sociedades e sistemas políticos mais resilientes – e idealmente menos frágeis – do que são atualmente. Isto requer uma melhor compreensão da estrutura de rede e da disfunção burocrática do que se tem atualmente. Aqueles que aquiescem ao novo totalitarismo de vigilância onipresente deixam de avaliar que alguns dos piores desastres foram causados por regimes totalitários”.

d.3.  Oscar Wilde dizia que um cínico é aquele que sabe os preços de todas as coisas, mas não sabe o valor de nada. Um madeireiro pode saber qual é o preço da madeira que extraiu num processo de desmatamento de uma área de floresta prístina, mas não sabe qual é o seu valor para a sociedade. Qual o valor econômico que é destruído por um desastre ambiental, como ocorreu recentemente na Bacia do Rio Doce (MG/ES) ou do Rio Guaíba (RS)? Quanto esses desastres comprometem o futuro do desenvolvimento regional de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul? 

O valor de um recurso ambiental é dado por: (ver Texto VII)

O valor econômico total (VET) de um recurso ambiental (por exemplo, uma floresta tropical) é igual à soma do valor de uso direto, mais o valor de uso indireto mais o valor de opção mais o valor de existência do recurso ambiental, sendo que*:

  • Valor de uso direto: valor atribuído ao recurso pelos indivíduos e pelas organizações que usufruem dos insumos e dos produtos do meio ambiente; os valores de muitos desses insumos e produtos podem ser calculados por levantamentos e informações de mercado, enquanto outros são de estimativa bastante complexa; ex: madeira e não madeira; plantas genéticas, alimentos, fibras, combustíveis, etc.;
  • Valor de uso indireto: corresponde ao conceito de “funções ecológicas”, as quais podem ser mais bem compreendidas pelo valor do dano causado ou pelo custo de reposição; ex: ciclo de nutrientes, proteção das bacias hidrográficas; microclima, sequestro de carbono, filtragem das águas, etc.; na busca de valor de uso direto, madeireiras, garimpeiros e extrativistas passam por cima e destroem o valor de uso indireto;
  • Valor de opção: relacionado com o montante que os indivíduos e as organizações estariam dispostos a pagar para conservar o recurso ambiental para um uso futuro; ex: doações para instituições que desejam a preservação de espécies animais (ararinha azul, baleias, mico-leão dourado, etc.);
  • O valor de existência: relacionado com as avaliações monetárias dos ativos ambientais, sem vinculação com o seu uso corrente ou o seu uso opcional; é um componente importante do valor econômico total, particularmente em situações de incerteza quanto à extensão dos danos ou de ativos únicos; quando o desejo de pagar para preservar um ativo ambiental está vinculado aos benefícios que esse ativo poderá trazer para os seus descendentes, temos o caso do valor de legado.

Na verdade, para o PNUMA, a avaliação inclui um sistema de projeção cultural “a qual impõe um modo de pensar e uma forma de relacionamento com o meio ambiente, assim como reflete realidades particulares percebidas, cosmovisões, estruturas mentais e sistemas de crenças.

Contudo, a avaliação serve também como um instrumento de reflexão pessoal e um mecanismo de realimentação que ajuda as pessoas a repensar suas soluções com o ambiente natural e ampliar seu conhecimento sobre as consequências do consumo, de escolhas e comportamento”. Assim, a avaliação econômica é um processo restritivo e limitado para fundamentar o uso e o não uso dos recursos ambientais.

A menor consideração pelas consequências do processo de uma região por causa de uma crise ambiental se explica pelo fato de que a maioria do povo brasileiro enxerga os ativos ambientais (florestas, bacias hidrográficas, ar puro, costas marítimas etc.) do País e de suas regiões tão somente pelo seu valor de uso direto, esquecendo que são também um valor de legado para as futuras gerações. Da mesma forma, esses ativos ambientais, se bem preservados, conservados e reabilitados são prestadores de serviços ambientais que têm valor econômico (polinização, sequestro de carbono, filtragem das águas, contenção de encostas, turismo ecológico, fauna e flora, etc.). 

d.4.   Enquanto alguns problemas socioeconômicos e socioambientais decorrentes de desastres ecológicos podem ser equacionados através de ações emergenciais e compensatórias de curto prazo, outros precisam ser equacionados no bojo de um sistema de planejamento de médio e de longo prazo. Todo governo precisa dispor de estruturas de planejamento, que possam exercer de forma sistemática, as funções programáticas de mitigar, de compensar e de transformar. Mitigar certos impactos maléficos e desastrosos, como os das mudanças climáticas. Compensar muitas desigualdades sociais, como a concentração da renda e da riqueza. Transformar estruturas produtivas anacrônicas com a incorporação de inovações científicas e tecnológicas

A implementação desses objetivos de desenvolvimento sustentável implica grandes transformações nas estruturas de produção e de consumo, nas instituições que formulam e executam políticas públicas, no comportamento ético intergeracional, no estilo de governar, etc., uma temática que compõe a agenda de um processo de planejamento de longo prazo, o qual para se efetivar deveria estar integrado com objetivos das políticas econômicas de curto e médio prazo. 

Na verdade, um processo de planejamento de longo prazo é um mecanismo que permite à sociedade pensar e refletir sobre o seu futuro e contribuir para implementar os seus objetivos, que não pode ser deixado por conta da “mão invisível” dos mercados.

Para avaliar se um plano, relacionado com a reconstrução da trajetória de desenvolvimento sustentável, tem chances de sair das diretrizes e de compromissos genéricos e ser efetivamente implementado, as seguintes pré-condições devem ser observadas, pois irão contribuir para a consolidação do processo de democratização do Brasil:

  • Serem elaborados e executados dentro do estilo de planejamento participativo, através do qual os grupos sociais que serão afetados pelos seus custos e benefícios têm a oportunidade institucionalizada de participar de sua concepção, controle e avaliação;  um processo de planejamento deve seguir as Seis Propostas para o Novo Milênio, de Ítalo Calvino : a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência; 
  • Os planos, programas e projetos regionais, estaduais e locais devem ser elaborados e implementados dentro do modelo de desenvolvimento endógeno. Participação, Flexibilidade e Endogenia são as colunas vertebrais do planejamento em economias de mercado e podem ser detalhados nas pré-condições seguintes: avaliação econômica das perdas e danos da economia através de um modelo de equilíbrio geral computável (DSGE),que tem sido utilizado em situações de desastres ou catástrofes em diferentes países e regiõesnão adotar o estilo clássico de planejamento, mas o estilo de planejamento para a negociação, uma vez que os governos regionais, nacionalmente não estão controlando instrumentos econômicos que possam atingir os objetivos desejados
  • ao compor os projetos e atividades que estarão na programação do plano, utilizar como referência as experiências das relações custo-benefício e dos procedimentos tecnológicos de projetos isomorfos nacionais e internacionais (como exemplos: a revitalização das Bacias do Paraopeba e do Rio Doce nos desastres ambientais de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais; a reconstrução da região de New Orleans no desastre ambiental do furacão Katrina, nos EE.UU.); na programação dos projetos e atividades, não incorporar a solução de antigos problemas dos municípios que tenham apenas uma relação indireta e difusa com os impactos diretos do atual desastre ambiental, o que pode tornar o fluxo de caixa do plano financeiramente inviável, dada a atual crise fiscal dos três níveis de governo e deixar o espaço aberto para o oportunismo político;
  • como os projetos e atividades poderão ter cronogramas de execução diferenciados (revitalização das bacias hidrográficas em dez anos, enquanto algumas obras de infraestrutura em dois anos), recomenda-se a metodologia de “Rolling Plan” do Central Bureau of Planning da Holanda, através do qual o plano de longo prazo é concebido e executado através de uma sequência de planos trienais atualizados e avaliados ao final de cada ano; para cada projeto na atividade do plano incorporar os grupos sociais que especificamente participarão dos seus custos e benefícios em todas as etapas, da sua concepção ao controle e avaliação de sua implementação;
  • na análise e avaliação de projetos e atividades de reconstrução, adotar a metodologia “custo-efetividade”; para novos projetos e atividades, a metodologia de “avaliação socioambiental de projetos de investimento” do Banco Mundial/BID/OCDE; lembrar que o Governo Federal passa por uma profunda crise fiscal, de tal forma que, se na análise das “fontes de fundos de financiamento” não houver a definição de uma fonte segura e estável mas apenas recursos do vir a ser dos PPAs, os projetos e atividades programados no plano podem terminar na vala comum das obras inacabadas, sem sequenciamento e sem intensidade. para a concepção e implementação dos programas, projetos e atividades do plano, é indispensável a construção de parcerias com o Terceiro Setor (associações empresariais, organizações não governamentais, movimentos sociais), pois o esforço de reconstrução poderá ser gigantesco e exigirá a sinergia das diferentes forças sociais do Estado e do País;
  • para operacionalizar o processo de planejamento do desenvolvimento sustentável é preciso que na modelagem das políticas, programas e projetos haja uma perspectiva integrada de “crescer, distribuir e preservar”; a dimensão da sustentabilidade ambiental não pode se reduzir a uma diretriz genérica, como se o Meio Ambiente fosse apenas um adorno do plano ou um bem de luxo a ser abandonado.

Constata-se, em geral, que a preocupação com as questões ambientais (poluição, mudança climática, extinção das espécies animais e vegetais, etc.) somente ganha prioridade em períodos de prosperidade recorrente. Governantes, dirigentes de empresas e os próprios cidadãos de um país somente incorporam essas questões nas suas agendas e em seus processos de planejamento estratégico a partir de um determinado patamar de sua renda, de sua receita operacional ou de sua riqueza acumulada.

A partir desse patamar, passam a considerar com maior critério os trade-offs ou as escolhas conflitivas entre os objetivos do crescimento e da estabilidade de suas instituições, de um lado, e os da preservação, conservação e restauração do meio ambiente ou dos ecossistemas, do outro lado. 

Bens de luxo são bens cuja demanda pelos consumidores aumenta mais do que proporcionalmente ao aumento de sua renda. Na fase de prosperidade, sua demanda cresce; na fase de retração, sua demanda decresce. A essencialidade de um bem a merecer alocação de recursos escassos que tem usos alternativos é definida a partir da escala de preferências individuais dos cidadãos ou a partir das estruturas ideológicas ou doutrinárias de dirigentes públicos ou privados, responsáveis pela formulação e pela execução de seus planos e projetos estratégicos.

Durante a crise econômica global de 2008, por exemplo, estimou-se que as vendas de bens de luxo tenham caído de 10% a 15% no mundo, e de forma mais acelerada nos EE.UU., onde cerca de um terço de todos os bens de luxo são vendidos.

Da mesma forma, é possível caracterizar o tratamento do meio ambiente como um bem de luxo nas políticas públicas, nas decisões empresariais e nos orçamentos familiares, à medida que sua prioridade é descartada em períodos de crise econômica, enquanto países como a China têm utilizado as políticas ambientais como mecanismos de promoção de desenvolvimento sustentável e de programas da defesa anticíclica dos níveis de renda e de emprego*.

As pessoas estão dispostas a apoiar e a realizar maiores gastos na qualidade do meio ambiente quando estão mais prósperas. Em níveis de renda per capita menores, a satisfação das necessidades básicas de alimentação e de habitação ganha prioridade. Quando cresce a renda per capita, essas necessidades básicas são cada vez mais satisfeitas, e os cidadãos passam a gastar mais em “bens de luxo”, tais como nas melhorias dos ecossistemas em que vivem.

Da mesma forma, em um contexto de crise, quando a economia desanda, é comum ver-se descartar, da sua estrutura de demanda, os bens de luxo; tende a haver menos comprometimento nas parcelas dos orçamentos públicos e privados com a qualidade do meio ambiente. E a Economia volta às suas origens de “ciência sinistra” (dismal science).

Isso ocorre porque, para o pensamento econômico tradicional, o meio ambiente é simplesmente uma externalidade, onde os efeitos não intencionais da decisão de produzir ou de consumir de um agente econômico causam perdas ou benefícios de bem-estar a terceiros, não compensados e usualmente excluídos dos cálculos econômicos dos agentes. Uma típica falha do mercado que tem de ser corrigida por intervenções exógenas das políticas públicas.

Em uma visão econômica contemporânea, estamos vivendo uma experiência de capitalismo natural, onde o meio ambiente não é apenas um fator de produção menos importante, mas um envoltório contendo, provisionando e sustentando a economia.

Sistemas empresariais mal concebidos ou mal estruturados, crescimento demográfico acelerado e padrões de consumo perdulários são apontados como causas primárias da perda do capital natural. O elemento diferenciador do capitalismo natural é a hipótese que está se criando uma nova revolução industrial, a partir dos aumentos radicais na produtividade dos recursos naturais. 

Em tempos de crise e sem compreender os novos processos do progresso econômico futuro, governos irão desarticular políticas públicas ambientais em andamento; empresas irão tratar os impactos ambientais de seus projetos de capital como peças de enfeite em seus relatórios de marketing social; os cidadãos irão resistir às atitudes transformadoras de uma nova pedagogia ambientalista.


* Gilles Dostaler – Keynes et ses combats. Editions Albin Michael, 2005. Alguns dos argumentos do Texto VIII aparecem também nos Textos II e III a fim de que seja mantida a consistência lógica de sua apresentação.

* Paul Krugman – Arguing with Zombies – Economics Politics and the Fight for a Better Future. Norton, 2020. Chapter 12: Inequality.

*Jared Diamond – Collapse – How Societies Choose to Fail or Succeed – Viking, 2005

Paulo R. Haddad – Três Ensaios sobre a Economia Brasileira. e-Galáxia / Amazon, 2023.

* O Porto Chankay se localiza a 70 Km de Lima; foi construído com capitais chineses; a sua inauguração ocorreu durante a visita do Presidente Xi-Jinping à América Latina no ano passado.

*Matopiba = a sigla reúne as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia que formam algumas de suas áreas beneficiadas pela “revolução dos cerrados” e das mais promissoras para o progresso do agronegócio brasileiro na produção da soja, do milho, do algodão e da pecuária. A área total é de 73 milhões de hectares, abrangendo 337 municípios contíguos de 4 Estados. Matopiba foi criada em 2015; ver o Livro “A Fronteira do Matopiba: as Novas Faces do Capital e seus Conflitos”.

* Niall Ferguson – Doom: The Politics of Catastrophe Princeton, 2021.

Tipping point: termo que tem sua origem nos estudos de epidemiologia e é utilizado quando uma doença infecciosa atinge um ponto para além de qualquer habilidade; é, muitas vezes, considerado como um ponto de inflexão, em geral provocado por algum evento menos significativo e aparentemente inesperado.

* PNUMA – TEEB The Economics of Ecosystems and Biodiversity Ed. Earthscan, 2010, 4 volumes.

* Jorge Arbache “Impressões de minha última viagem à China”. IFF, 2026.

Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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