Expansão da mineração impulsionada pela transição energética amplia conflitos territoriais, desafia a governança e testa, na prática, os limites do conceito de mineração sustentável.
A corrida global por tecnologias de baixo carbono intensificou a demanda por minerais críticos e expôs um paradoxo central: a transição energética depende de uma expansão sem precedentes da mineração, atividade historicamente associada a profundos impactos ambientais.
Esse dilema tem alimentado um debate conceitual e político sobre a chamada mineração sustentável. Na academia, a ideia é frequentemente questionada. Alguns autores afirmam que o conceito é um “oxímoro corporativo”. Segundo o antropólogo Stuart Kirsch, esse termo é utilizado para suavizar críticas e criar a percepção de controle sobre danos muitas vezes irreversíveis.
Duas correntes principais orientam essa discussão. A primeira, associada à chamada “sustentabilidade forte”, defende que a mineração não pode ser sustentável por operar sobre recursos finitos e insubstituíveis. Já a visão dominante na indústria aposta na “sustentabilidade fraca”, baseada na ideia de que perdas ambientais podem ser compensadas por ganhos econômicos, infraestrutura ou inovação tecnológica.
Entre inovação e limites: o papel da tecnologia na mineração
Na prática, o setor mineral tem buscado sustentar sua narrativa por meio de tecnologias de mitigação que reforçam o discurso da mineração sustentável. Um dos exemplos mais relevantes é o uso do “dry stacking”, o empilhamento a seco, que reduz o teor de umidade dos rejeitos para cerca de 10% a 15%, permitindo sua compactação sem a necessidade de barragens. A técnica pode recuperar entre 85% e 90% da água utilizada e eliminar o risco de rompimentos de barragens.
Outro avanço está nos sistemas de recirculação hídrica em circuito fechado, que já conseguem reaproveitar até 90% da água no processamento mineral. Em cenários mais avançados, tecnologias de “Zero Liquid Discharge” (ZLD) permitem praticamente eliminar o descarte de efluentes líquidos.
A eletrificação também ganha espaço. Em minas subterrâneas, a substituição de equipamentos a diesel por veículos elétricos pode reduzir em até 40% os custos de energia e 60% os de manutenção. Em operações de superfície, sistemas “trolley-assist” permitem cortes de até 90% nas emissões em trechos eletrificados.
Apesar desses avanços, limites biofísicos permanecem incontornáveis. Um dos principais é o declínio global dos teores minerais. Para produzir a mesma quantidade de cobre hoje, por exemplo, é necessário movimentar volumes significativamente maiores de rocha do que há décadas. Esse processo amplia o consumo energético e a geração de rejeitos, fenômeno conhecido como “deslocamento de carga”.
Há ainda impactos que a tecnologia não consegue reverter. A perda de biodiversidade em áreas sensíveis pode ser definitiva, enquanto a drenagem ácida de mina pode exigir tratamento contínuo por séculos ou até milênios.
No plano geopolítico, cresce o debate sobre a “colonialidade verde”, um conceito usado para criticar práticas que, embora apresentadas como sustentáveis, reproduzem desigualdades históricas do colonialismo, especialmente contra povos indígenas, comunidades tradicionais e países do Sul Global. No caso da mineração, países do Norte Global aceleram sua transição energética enquanto transferem os custos ambientais da extração para regiões do Sul Global, frequentemente habitadas por comunidades indígenas e populações vulneráveis.
No Brasil, essa dinâmica se agrava com a expansão do garimpo ilegal. Entre 1985 e 2022, a área ocupada por essa atividade cresceu de forma acelerada, com mais de 91% concentrada na Amazônia, com foco em terras indígenas e unidades de conservação. Em 2022, ao menos 77% dos pontos de extração de garimpo apresentavam indícios de ilegalidade.
O uso de mercúrio é um dos principais problemas. O garimpo responde por cerca de 37% das emissões globais desse metal tóxico, que se acumula na cadeia alimentar e afeta diretamente populações ribeirinhas e indígenas.
Diante desse cenário, a economia circular surge como alternativa estratégica. A reciclagem de minerais críticos pode suprir entre 25% e 40% da demanda até 2050, segundo estimativas internacionais. No entanto, há um atraso estrutural: como muitos desses materiais estão sendo utilizados agora, levará entre 15 e 20 anos para que retornem ao ciclo produtivo em escala significativa.
Entre avanços tecnológicos, limites físicos e disputas políticas, a atividade mineral se consolida como um dos principais campos de tensão da transição energética, onde desenvolvimento, meio ambiente e justiça social se encontram em permanente conflito, colocando em xeque, na prática, os limites do próprio conceito de mineração sustentável.