Sem romantizar a indústria, é preciso reconhecer sua função estratégica: ela não é perfeita, mas é ferramenta de estabilização institucional. É o que impede que a Amazônia seja empurrada novamente para ciclos de improviso e informalidade estrutural sombria.
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Há duas maneiras de contar a história econômica da Amazônia.
A mais superficial descreve a região como natureza e ausência, floresta e carência.
A mais responsável começa por Manaus como fato: um polo industrial que, para além de produzir bens, produz institucionalidade.
No meio do ruído ideológico e das simplificações apressadas, dois símbolos discretos sintetizam essa construção: o CNPJ e a Nota Fiscal Eletrônica. Não são apenas códigos burocráticos. São linguagem. São registro. São pacto. São a gramática mínima da legalidade em um território onde, quando o Estado falha, o vazio costuma ser ocupado por outras forças, ou facções.
A Zona Franca de Manaus, aos 59 anos, não é peça de museu. É uma estrutura de resistência. Resistência ao determinismo que empurra a Amazônia para o extrativismo bruto. Resistência à ideia de que floresta só pode ser cenário ou saque. Resistência à tentação de reduzir uma política territorial complexa a uma linha de planilha.
Quando o Brasil fala em renúncia, Manaus responde com engenharia produtiva.
Quando se fala em custo, a Amazônia responde com trabalho formal, arrecadação e presença institucional.
Quando a floresta é tratada como paisagem, o Polo Industrial insiste em transformá-la em futuro.
Ato 1 — Manaus, a indústria da floresta
A economia do Amazonas tem uma espinha dorsal concreta. O Polo Industrial de Manaus movimenta cerca de 85% da economia do estado e responde por aproximadamente 30% da formação de riqueza da Região Norte, segundo dados amplamente referenciados por Suframa, IBGE e estudos acadêmicos. Em 2025, o estado ultrapassou a marca de 550 mil empregos formais, sendo mais de 130 mil diretamente ligados à indústria de transformação.
Uma economia formal, com nota fiscal, contrato e padrão tecnológico, reduz a pressão para que a floresta seja convertida em “alternativa de renda” pela via mais rápida: derrubada, grilagem, garimpo predatório, informalidade crônica e sombria.
Setores como eletroeletrônicos, duas rodas e químico sustentam emprego, arrecadação e cadeia logística. O segmento de duas rodas, por exemplo, alcança números expressivos de faturamento e formalização. O que isso significa na prática? Que há salário com carteira assinada, imposto recolhido, rastreabilidade, contabilidade.
O CNPJ, aqui, não é formalidade fria. É declaração de pertencimento ao pacto legal. A Nota Fiscal não é apenas documento fiscal. É prova de existência institucional.
Ato 2 — O que essa riqueza precisa sustentar
Riqueza urbana, se não se converte em estrutura para o interior, vira ilha.
Interiorizar desenvolvimento na Amazônia custa caro. Energia, logística, conectividade, formação técnica, presença contínua do Estado. Não se trata apenas de abrir estrada — trata-se de manter serviços, universidades, pesquisa, extensão. Por isso não faz sentido inserir o Amazonas – entre os mais pobres do Brasil – no rol dos 8 estados que mais contribuem com a receita federal.
Universidade, na Amazônia, é infraestrutura.
O fundo de manutenção da UEA, alimentado por contribuições das empresas do Polo Industrial desde 2004, é um exemplo concreto de como a economia formal sustenta a presença acadêmica no território. São centenas de empresas contribuindo regularmente para manter campi espalhados por municípios onde o mercado, sozinho, não pisaria.
Nesse desenho, a universidade não é custo administrativo. É mecanismo de permanência. É a diferença entre um interior dependente de ciclos predatórios e um interior com formação técnica, pesquisa aplicada e perspectiva de futuro.
A Zona Franca, quando compreendida em sua maturidade institucional, é muito mais do que um polo produtivo. É uma matriz de sustentação territorial.
Ato 3 — Programas Prioritários: P&D como método
Não existe bioeconomia sem método. Não existe floresta em pé sem engenharia econômica.
Os Programas Prioritários da Suframa, especialmente no âmbito da Lei de Informática, criaram um circuito obrigatório de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação. O PPBio, coordenado pelo Idesam desde 2019, é exemplo de como recursos de P&D podem estruturar cadeias produtivas da sociobiodiversidade, apoiar bionegócios e organizar iniciativas que deixam de ser promessa e passam a ser contrato.
Sem P&D, “bioeconomia” vira slogan. Com P&D, vira cadeia produtiva.
E cadeia produtiva significa algo muito concreto: renda formal, contrato registrado, escala produtiva, qualidade certificada, rastreabilidade. É a floresta em pé saindo do discurso e entrando na contabilidade.
Ato 4 — A tensão do pacto federativo
Toda política territorial complexa vive sob tensão. A Zona Franca também.
Parte do debate nacional ainda insiste em analisar a ZFM exclusivamente como renúncia fiscal, sem incorporar a equação completa: geração de emprego formal, arrecadação indireta, financiamento da interiorização, investimentos obrigatórios em inovação, manutenção de instituições estratégicas.
A discussão é legítima. O que não é legítimo é simplificar.
A Amazônia não pode ser medida ignorando suas distâncias logísticas, seus custos estruturais e o papel estratégico de manter presença econômica formal numa região que concentra 60% do território nacional.
Quando se desconsidera essa complexidade, o risco não é apenas contábil. É territorial. Fragiliza-se a principal âncora de formalização econômica da região. E onde a formalidade recua, o ilícito avança.
Ato 5 — O cotidiano como campo de resistência
A disputa amazônica não se decide em slogans. Ela se decide no cotidiano. Quando uma empresa escolhe cumprir regras mesmo sob custo elevado. Quando um pesquisador insiste em manter laboratório no interior. Quando uma cooperativa tenta formalizar sua produção. Quando uma cadeia da sociobiodiversidade busca padrão, certificação, mercado.
É nesse cotidiano que o CNPJ vira ato político. Que a Nota Fiscal vira instrumento de previsibilidade.
Previsibilidade é o primeiro antídoto contra a economia da depredação.
Sem romantizar a indústria, é preciso reconhecer sua função estratégica: ela não é perfeita, mas é ferramenta de estabilização institucional. É o que impede que a Amazônia seja empurrada novamente para ciclos de improviso e informalidade estrutural sombria.
Epílogo — Um país que começa a entender
Durante décadas, parte do Brasil olhou para a Zona Franca como exceção inconveniente. Hoje, ainda que timidamente, algo começa a mudar.
O país começa a perceber que o CNPJ na Amazônia ao contrário dos que apontam um privilégio, significa presença do Estado nessa região. Que a Nota Fiscal Eletrônica não é uma burocracia excessiva, é na verdade um exercício de cidadania econômica. Que a economia formal da floresta é condição para que a floresta permaneça em pé.
Ainda são sinais discretos.
Ainda há ruído, desinformação e resistência. Mas há também uma compreensão nascente de que o combate à ilegalidade ambiental passa pela expansão da legalidade econômica.
Acolher a economia da floresta não significa blindá-la de críticas. Significa compreendê-la como instrumento de soberania, estabilidade e inclusão.
O Brasil começa a entender que desenvolvimento amazônico não é sinônimo de devastação — pode ser sinônimo de formalização, inovação e ciência.
E talvez a maturidade esteja justamente aí: menos caricatura, mais compreensão; menos simplificação, mais pacto. Se a floresta precisa permanecer em pé, ela precisará também de CNPJ, de nota fiscal, de universidade, de pesquisa, de empresa responsável.
E o Brasil, pouco a pouco, parece começar a aceitar essa ideia.