Pesquisa mostra que eventos de secas quentes se intensificaram nas últimas décadas, aumentando a mortalidade de árvores e empurrando a Amazônia para além de seus limites ecológicos.
Secas quentes, cada vez mais comuns na Amazônia, oferecem pistas valiosas sobre os limites da floresta diante das mudanças climáticas. Segundo estudo publicado na revista Nature, o bioma pode estar caminhando para o que os cientistas chamam de clima hipertropical: um regime em que os efeitos combinados de calor extremo e escassez de água ultrapassam a capacidade natural de sobrevivência da floresta.
Por meio da análise de mais de 30 anos de dados de monitoramento e experimentos de campo, a pesquisa revela que o calor intenso somado a períodos de falta de água já provoca um aumento abrupto na mortalidade de árvores, especialmente nas regiões central e oriental da Amazônia.
A pesquisa oferece uma janela para o futuro da Amazônia frente ao avanço do aquecimento global e revela que o fenômeno das secas quentes — cada vez mais recorrente — pode reduzir a capacidade da floresta de atuar como sumidouro de carbono, transformando-a em fonte de emissões, como já ocorre em áreas degradadas do bioma.
O que é uma “seca quente”?
De forma simplificada, o fenômeno climático descrito na pesquisa como “hot drought” (seca quente) ocorre quando a floresta enfrenta duas ameaças ao mesmo tempo ou de forma consecutiva: a escassez de chuva e o calor extremo. Isso gera um ambiente em que o ar “puxa” ainda mais água das folhas das plantas, devido ao chamado déficit de pressão de vapor, o que causa estresse hídrico severo.
É como se as árvores estivessem tentando “respirar” em um ambiente seco e fervendo. Para as análises, os autores criaram um novo índice climático que combina temperatura e déficit de umidade do ar — o chamado déficit de pressão de vapor (DPV) — com a falta de chuva. Esse novo índice permitiu identificar um limiar crítico, um ponto a partir do qual pequenas variações climáticas disparam de forma desproporcional a mortalidade das árvores.
Eventos como as secas quentes de 2015–2016 e 2023 já ultrapassaram esse limite crítico em várias áreas da Amazônia, funcionando como uma espécie de ensaio real do que pode acontecer em um mundo mais quente. A floresta, dizem os cientistas, mostra sinais de exaustão diante das novas condições climáticas presentes nas secas quentes.
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Uma floresta menos diversa e funcional
As secas quentes não impactam toda a Amazônia da mesma forma. Regiões que já enfrentam estresse hídrico natural são as mais vulneráveis. Nessas áreas, árvores de crescimento lento e adaptadas a ambientes úmidos e temperaturas estáveis morrem mais rápido que espécies típicas de áreas secas.
Esse processo pode causar uma mudança estrutural na floresta, com perda de diversidade, redução da capacidade de armazenar carbono e maior risco de degradação. O colapso de algumas espécies pode abrir espaço para outras, menos exigentes, alterando o equilíbrio ecológico do bioma.
Destaque brasileiro na ciência climática
O estudo tem a coautoria de Niro Higuchi, engenheiro florestal com mais de 40 anos de pesquisa na Amazônia. Pesquisador Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Higuchi é uma das maiores referências do país em manejo e dinâmica florestal.

Ele participou dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Também foi reconhecido com o Prêmio Fundação Bunge (2010) e integra a Academia Brasileira de Ciências.
De sumidouro a possível fonte de carbono
Com mais árvores morrendo, a floresta perde parte da sua capacidade de capturar CO₂. Em vez de ajudar a conter o aquecimento global, pode passar a emitir mais carbono do que retém: alimentando um ciclo vicioso em que o aumento das emissões acelera o aquecimento global, que por sua vez intensifica o estresse climático sobre a floresta, levando à morte de mais árvores e a novas emissões.
Os pesquisadores alertam que os modelos climáticos atuais ainda subestimam os efeitos combinados de calor e seca sobre a floresta, o que pode levar a previsões excessivamente otimistas sobre a resiliência de florestas tropicais.

Qual a perspectiva para o futuro?
Os resultados apresentados na pesquisa reforçam que a floresta amazônica oferece sinais claros do que pode acontecer em escala global nas próximas décadas. As evidências fortalecem a hipótese de que partes da Amazônia já se aproximam, ou ultrapassaram em algum momento, um regime climático hipertropical.
O estudo mostra que proteger a Amazônia vai além de combater o desmatamento, é essencial limitar o aquecimento global para evitar a ultrapassagem de pontos de não retorno ecológicos. Mais do que eventos extremos, as secas quentes são sintomas de um novo regime climático em formação.
