“A Cracolândia de Manaus da Praça dos Remédios é uma ferida aberta no coração simbólico da cidade. É um ultraje à memória de Samuel Benchimol, aos migrantes que ajudaram a edificar a economia regional, à dignidade do povo amazonense. E é também um sintoma de um colapso ético: a naturalização da miséria”
Na virada do século XIX para o XX, Manaus era sinônimo de civilização, luxo e ousadia. Sede do maior teatro da América Latina, da primeira rede de energia elétrica do Brasil, dos bondes elétricos e da elite econômica e intelectual da borracha, a capital do Amazonas chegou a ser chamada de Paris dos Trópicos. Esse esplendor ancorava-se justamente no espaço portuário da cidade, onde hoje a miséria escancara a falência da dignidade urbana.
Foi ali, naquele mesmo entorno da Igreja dos Remédios e do Mercado Municipal, que o professor Samuel Benchimol, um dos maiores pensadores da região, entrevistou mais de 3.000 nordestinos — em sua maioria cearenses — para compreender os fluxos migratórios e compor sua obra seminal, “Formação Econômica e Cultural da Amazônia”. Trata-se de um esforço intelectual monumental, comparável à contribuição de Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala.

Benchimol reconheceu nessa massa de migrantes um dos fundamentos da identidade amazônica: miscigenada, resiliente e produtiva. Ali também, nos escombros ainda visíveis da antiga Faculdade de Direito, uma das mais antigas do país, à sombra de uma jaqueira, muitos tivemos o privilégio de receber dele mesmo algumas lições — aulas vivas de pensamento e consciência amazônica.
E ali, antes de muitos hoje se darem conta, Benchimol já advertia que Manaus nunca foi um paraíso fiscal, como repetem os que ignoram ou distorcem a realidade. Manaus é, na verdade, o paraíso do fisco, cuja produção de riqueza torna o Amazonas um dos maiores contribuintes da Receita Federal, mesmo convivendo com mazelas sociais gritantes.
A degradação que clama por dignidade
Mais de um século depois do ciclo da borracha, a cidade que ainda hoje gera bilhões em arrecadação tributária assiste impassível à proliferação de uma nova Cracolândia no coração de seu centro histórico. A região do entorno da Praça dos Remédios, onde pulsa a memória da Manaus glamourosa, é agora território da exclusão, da dependência química, da fome e do desespero.
As imagens são brutais: dezenas de pessoas em situação de rua, dormindo no chão entre fezes, lixo e cinzas de objetos queimados. Crianças, idosos, gestantes. Manaus projeta, hoje, a miséria — como antes projetava a ópera e a ciência. E o faz sem qualquer resposta estruturada dos poderes públicos.
Não se trata apenas de um problema de segurança pública, mas de uma tragédia urbana, social e civilizatória. São vidas humanas em frangalhos — e são nossos irmãos.
Um problema nacional, uma responsabilidade local
A Cracolândia de São Paulo se tornou, ao longo das décadas, símbolo de um problema que o Brasil não soube enfrentar. Agora, Manaus ingressa nesse triste mapa, apesar de sua riqueza natural, de seu modelo industrial e da constante entrada de recursos públicos via Zona Franca. E a diferença é esta: aqui se produz muita riqueza — mas não se distribui qualidade de vida.
Por que a cidade que sustenta parte da balança comercial brasileira convive com esse nível de abandono? Onde estão as políticas públicas de saúde mental, habitação popular, assistência social e reintegração cidadã? Onde está a prioridade orçamentária?
Recomendações urgentes
Diante da brutalidade desse cenário, é imperativo que as autoridades tomem providências imediatas, dentro dos critérios da dignidade humana, da justiça social e da corresponsabilidade pública:
1. Remoção humanizada e urgente das pessoas em situação sub-humana, para locais com infraestrutura adequada, acolhimento social, cuidados médicos e acompanhamento psicossocial;
2. Instalação de centros permanentes de acolhimento, capacitação e reabilitação, próximos a unidades básicas de saúde e com foco em reinserção cidadã;
3. Aplicação prioritária de recursos federais, estaduais e municipais em programas integrados para dependência química, moradia digna e formação profissional;
4. Revitalização inclusiva do centro histórico, com políticas de cultura, trabalho e cidadania para os mais vulneráveis;
5. Criação de um comitê intersetorial permanente, com participação da sociedade civil, universidades, igrejas e instituições públicas, para monitorar e agir com agilidade diante da degradação urbana.
Manaus não pode seguir anestesiada
A Cracolândia da Praça dos Remédios é uma ferida aberta no coração simbólico da cidade. É um ultraje à memória de Samuel Benchimol, aos migrantes que ajudaram a edificar a economia regional, à dignidade do povo amazonense. E é também um sintoma de um colapso ético: a naturalização da miséria.
A cidade que já foi símbolo de civilização tropical não pode assistir à sua decadência moral como se fosse um fato inevitável. Não é. Há recursos, há inteligência, há capacidade institucional. Falta vontade. Falta sensibilidade. Falta indignação ativa.
Que este ensaio-denúncia seja mais que um alerta. Que seja convocação à responsabilidade. Porque não há cidade moderna onde a miséria é normalizada, e não há progresso real sem justiça social.

