‘A bomba veio para o Brasil que recebeu o golpe mais duro:
50 por cento sobre todas as suas exportações para os Estados Unidos”.
— El País, Espanha
Coluna Follow-Up
Editorial BAA
A Amazônia está habituada a sobreviver. Sobrevive ao abandono cíclico da política nacional, às falsas promessas de integração, às ondas de desinformação e às tentativas sucessivas de deslegitimar seu modelo econômico-industrial baseado na floresta em pé. Mas agora o que se anuncia é mais grave: um míssil tarifário disparado do coração da geopolítica global contra o Brasil, e com impacto direto e destrutivo sobre a Zona Franca de Manaus.
A decisão de Donald Trump de sobretaxar em 50% as exportações brasileiras aos Estados Unidos, como resposta a fatores de ordem política e judicial envolvendo seu aliado sul-americano, transcende a retaliação comercial. É uma afronta institucional, uma intromissão unilateral, uma instrumentalização da política externa com objetivo de intimidação ideológica.
E diante desse espetáculo grotesco, o que se vê? Festejos. Palminhas. Sorrisos insensatos.
Há algo de doentio na forma como parte da sociedade brasileira — ou o que dela resta nesse subsolo ideológico — comemora uma penalidade econômica que ameaça empregos, desestrutura setores produtivos e enfraquece o país. A imagem que nos assalta, com força simbólica irrefreável, é a mesma de 2021, quando em plena falta de oxigênio nos hospitais de Manaus, o então presidente da República zombava do sofrimento com gargalhadas em rede nacional.

Agora, em novo teatro de escárnio, o povo da Amazônia volta a ser alvo indireto. Mas a dor é concreta.
Um golpe sobre a Zona Franca de Manaus
Os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações do Amazonas, atrás apenas da Venezuela por razões logísticas e históricas. Exportamos para os EUA motocicletas, componentes industriais, eletroeletrônicos, concentrados, produtos que carregam inovação, legalidade, emprego e responsabilidade ambiental. A sobretaxa compromete a viabilidade de contratos, sufoca a retomada das vendas externas e crava uma estaca no peito da competitividade amazônica, já pressionada por gargalos logísticos e ausência crônica de infraestrutura adequada.
Essa tarifa-bomba não é apenas injusta: é geograficamente desigual, socialmente cruel e ambientalmente contraproducente. Ela pune um modelo que reduz o desmatamento, mantém a floresta em pé e ampara a governança pública e privada de uma região estratégica para o planeta.
O riso que denuncia
Diante disso, o riso dos cúmplices não diverte — envergonha. Envergonha a inteligência nacional, fere o sentimento de pertencimento e questiona os limites da ética pública. Comemorar o prejuízo nacional em nome de fidelidades extremistas é, na prática, celebrar a pobreza, o desemprego e o retrocesso.
Não é a primeira vez. Mas talvez seja a mais simbólica.
E o que fazer?
Cabe ao Brasil responder com firmeza, altivez e estratégia. Não basta emitir notas diplomáticas. É preciso:
- Acionar os mecanismos internacionais da Organização Mundial do Comércio (OMC) para reverter ou mitigar os efeitos da medida;
- Apoiar emergencialmente os setores produtivos afetados, com medidas compensatórias e crédito facilitado para exportadores;
- Reforçar a legitimidade internacional da Zona Franca de Manaus, como modelo de sustentabilidade fiscal e ambiental baseado na Constituição;
- E sobretudo, denunciar o cinismo político que transforma pautas de interesse público em armas eleitorais e instrumentos de chantagem internacional.
A Zona Franca de Manaus não é propriedade de governo nenhum.
Ela é patrimônio do povo brasileiro, sustentáculo da Amazônia em pé e referência mundial de desenvolvimento constitucional com responsabilidade socioambiental.
Celebrar o que a enfraquece é trair o Brasil
