A logística na colônia Amazônia

“O deslocamento na Amazônia é a maior das barreiras ao desenvolvimento econômico e social. Enquanto a infraestrutura da região for tratada apenas como via de escoamento, ao invés de uma estrutura de vida, a colônia Amazônia seguirá refém de um modelo extrativista. Os amazônidas continuarão passageiros marginais de um território rico em natureza, mas pobre em cidadania”

Ainfraestrutura da Amazônia tem a função de escoar produções. Falta-lhe uma função transformadora, voltada para a promoção do bem-estar. Os interesses dos modelos macro de construções e obras pensam apenas nos interesses externos, como agronegócio ou a mineração para os exportadores. A construção de uma infraestrutura para a sociedade é relegada ao esforço e dispêndio das próprias populações locais, com os impostos servindo de financiamento para os clientes estrangeiros que não financiam a infraestrutura com as suas aquisições.

Como consequência, as populações locais enfrentam dificuldade de movimento. Poe exemplo, se um morador de Manaus quiser fazer turismo no interior profundo da Amazônia terá mais custos e mais tempo dispendido do que para fazer turismo em outros países. O polo de decisão das prioridades segue sendo extrarregional e a integração territorial é baixa ou inexistente. Que estratégia nacional de logística da Amazônia respeitaria a natureza e a cidadania? Toda a lógica favorável a infraestrutura é a de extrair os recursos naturais.

COLONIA AMAZONIA
© RICARDO STUCKERT/PR

Superar o paradigma extrativo destrutivo é o maior desafio de engenharia e da política na Amazônia. Os ânimos sempre se exaltam e o foco é um embate entre a inação ou a exploração desmedida. Ainda não conseguimos harmonia para um caminho que vise os interesses regenerativos e de qualidade de vida local. Precisamos de vias e meios de circulação interna estruturados. Hoje temos, em geral, apenas o que a natureza nos ofertou.

 A criação da dignidade no interior da Amazônia começará quando os portos forem centros urbanos vibrantes, geradores de renda e serviços, estruturados para as vocações de cada localidade e não um troféu ao improviso. Será que queremos uma logística de extração ou de conexão de vidas? O território é ocupado em função das pessoas e as pessoas ocupam os territórios em decorrência de uma construção territorial, como defendia Milton Santos. Os projetos de infraestrutura na Amazônia do presente seguem uma estrutura de ausência, somada com um imperialismo extrativista.

O pertencimento e o bem-estar nos interiores da Amazônia serão possíveis com a presença verdadeira do modal aquaviário. Hoje temos rios generosos, mas desembarcamos em barrancos — tanto nas capitais quanto nos interiores profundos — como se a Amazônia ainda não tivesse sido cartografada pela engenharia pública. Segundo a ANTAQ, mais de 70% dos embarques em municípios Amazônicos ocorrem em atracadouros improvisados. Nas pequenas cidades não há voos com frequências razoáveis. Quando existem, as tarifas são muito altas.

O deslocamento na Amazônia é a maior das barreiras ao desenvolvimento econômico e social. Enquanto a infraestrutura da Amazônia for tratada apenas como via de escoamento, ao invés de uma estrutura de vida, a Amazônia seguirá sendo uma colônia logística. Os amazônidas seguirão passageiros marginais de um território rico em natureza, mas pobre em cidadania.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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