América Latina na rota da transição energética: avanços, gargalos e o papel das parcerias público-privadas

A transição, portanto, precisa ser equitativa. Não basta ser limpa — ela deve alcançar todos os territórios e populações, inclusive as comunidades isoladas da Amazônia, onde a dependência de óleo diesel para geração de eletricidade é um desafio ambiental e social. A UCB Power, nesse contexto, tem atuado para viabilizar soluções de transição energética descentralizadas, com foco em energias renováveis, armazenamento e sistemas híbridos adaptados às realidades locais.

Não se trata mais de inovação tecnológica. As soluções estão postas. A dificuldade maior está na ausência de decisões políticas firmes e de instrumentos eficazes para implementá-las. Faltam linhas de financiamento específicas, marcos regulatórios ajustados às novas realidades energéticas, segurança jurídica para investimentos de longo prazo e agências estatais coordenadas e capacitadas para lidar com a complexidade da transição energética. Os governos da região, reunidos sob o Conselho de Transição Energética (ETC), iniciam agora um esforço para superar esses obstáculos.  

transição energética

A reunião de alto nível na Cidade do Panamá, com apoio do Instituto Talanoa e outras entidades, é um passo crucial para construir um entendimento comum, fortalecer alianças regionais e criar sinais políticos de convergência rumo a uma nova etapa de desenvolvimento limpo.

Nesse sentido, é urgente ampliar o diálogo entre governos, empresas e sociedade civil, não apenas para repartir responsabilidades, mas para desenhar soluções integradas. A governança da transição precisa ser multissetorial e multinível, com clareza de propósitos e metas tangíveis. Os pactos supranacionais que emergem desse processo — como a ampliação da Aliança pelo Fim do Carvão (PPCA) na América Latina — são importantes marcos, mas precisam estar ancorados em ações concretas nos territórios.

projeto da ucb power usa baterias de sodio para o armazenamento de energia em comunidades remotas
Projeto da UCB Power usa baterias de sódio para o armazenamento de energia em comunidades remotas Imagem: Unsplash

Nenhum país da região enfrentará sozinho os desafios da transição. É hora de consolidar uma inteligência coletiva, capaz de mapear boas práticas, sistematizar erros e construir plataformas de conhecimento compartilhado. Precisamos transformar experiências locais em políticas replicáveis, ampliar redes de aprendizado e criar instâncias permanentes de cooperação energética e climática.

Esse é um dos grandes méritos da mobilização em torno da COP30: ela oferece um cronograma político que nos obriga a agir e uma vitrine estratégica para projetar nossas soluções. O documento final que será produzido na reunião do Panamá, com recomendações políticas para a presidência da COP30, deve refletir esse espírito de colaboração e urgência. Mais do que declarações, é preciso sinalizar ao mundo que a América Latina está pronta para liderar com coragem, ambição e pragmatismo.

Estamos diante de uma janela de oportunidade única. A transição energética é o eixo estruturante de um novo modelo de desenvolvimento para a América Latina. Mas, para isso, precisamos garantir que cada decisão — do financiamento à governança, da regulação à parceria tecnológica — esteja orientada pelo bem comum, pelo enfrentamento da pobreza energética e pela construção de resiliência climática.

A UCB Power reafirma seu compromisso com esse processo. Acreditamos que é possível — e urgente — avançar. Mas isso só ocorrerá se, juntos, governos, empresas e sociedade civil assumirem com seriedade o desafio de transformar o protagonismo político em transformação concreta. A hora de agir é agora. E Belém, em novembro, será o nosso teste de maturidade.

Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes é CEO da UCB Power e Conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas

Artigos Relacionados

Os peixes esquecidos da Amazônia: 144 espécies na lista vermelha e seis ações para evitar perdas irreversíveis

Peixes da Amazônia: estudo identifica 144 espécies ameaçadas e apresenta seis ações para proteger rios, biodiversidade e comunidades.

Flávio Bolsonaro promete fracking e menos controle ambiental sobre empreendimentos

Flávio Bolsonaro propõe licenças automáticas, revisão de órgãos ambientais e fracking. Entenda os possíveis impactos socioambientais.

Fazendeiros ameaçam invadir terra indígena no Pará se Flávio Bolsonaro vencer eleição, revela áudio

Terra Indígena Apyterewa recebe ameaças de invasão caso Flávio Bolsonaro vença, levando governo a reforçar segurança.