Manaus e o desafio de recompor seus igarapés, suas árvores e identidade

“É preciso transformar indignação em plano, boa vontade em política pública, e a cidade concreta em floresta viva. Que o coração da Amazônia volte a pulsar, também, dentro da cidade, e de cada um de nós.”

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Manaus vive um paradoxo cruel — e é preciso insistir no seu enfrentamento. No coração da maior floresta tropical do planeta, a capital da Amazônia se tornou símbolo da desconexão urbana com a natureza. As imagens ocasionais de alguns voluntários retirando toneladas de lixo dos igarapés ilustram – boa vontade à parte – com força simbólica, a falência do ordenamento urbano em relação aos resíduos sólidos. Lixo que se acumula, constrange e contamina em muitos sentidos.

Essas cenas escancaram algo mais profundo: a perda de vínculo com os bens comuns, com o espaço público, com a própria memória da Amazônia, a etnia Manaó, que dá nome à cidade.

O que fizemos com nossos igarapés?

Os igarapés, que antes banhavam a cultura, o esporte e os encontros das famílias manauaras, hoje servem como depósitos improvisados de lixo doméstico. Sem lixeiras, sem fiscalização e com raros investimentos em educação ambiental, a cidade assiste — ou ignora — o colapso de seus sistemas naturais. É um processo contínuo de degradação que afeta a saúde coletiva, especialmente das crianças, e revela um descaso cívico que parece ter se naturalizado. As barreiras de retenção de lixo parecem convencer o cidadão de que ele pode seguir detonando, pois, a barreira retém.  

Manaus vive um paradoxo cruel — e é preciso insistir no seu enfrentamento. No coração da maior floresta tropical do planeta, a capital da Amazônia se tornou símbolo da desconexão urbana com a natureza. As imagens ocasionais de alguns voluntários retirando toneladas de lixo dos igarapés ilustram – boa vontade à parte – com força simbólica, a falência do ordenamento urbano em relação aos resíduos sólidos. Lixo que se acumula, constrange e contamina em muitos sentidos.

Verbas de comunicação deveriam induzir uma nova consciência ambiental. Mas como estão sendo usadas?

A legislação existe, mas não é cumprida. As campanhas de limpeza ocorrem, mas são episódicas e pouco estruturadas. O poder público trata o problema como se fosse periférico, e grande parte da população o repete como hábito. A lógica do “joga fora” contamina, inclusive, a forma como se vê a cidade: como algo a ser consumido e descartado, não cuidado nem pertencente. Como alguém pode chamar Manaus de sua?

Desmatamento urbano: o outro lado da mesma crise

Manaus também desmata dentro de si. A capital que poderia ser referência em floresta urbana é, ironicamente, uma das piores do Brasil em cobertura vegetal. Ruas sem sombra, praças escassas, bairros inteiros sufocados pelo calor e pela ausência de árvores. Esse cenário urbano quente e árido afasta a cidade de sua identidade amazônica e agrava problemas como doenças respiratórias, estresse térmico e baixa qualidade de vida.

O consumo legal ou ilegal de energia é grande porque são minúsculas as iniciativas de multiplicar árvores nativas especializadas em mitigar o clima. O asfalto, o concreto e o desmatamento urbano agravam o calor por conta disso. A raiz do problema é complexa, mas tem nome: ausência de planejamento urbano associado à omissão no investimento em educação ambiental.

Crimes ambientais: 75% dos inquéritos por queimada e desmatamento no país não indicam um responsável
Crimes ambientais: 75% dos inquéritos por queimada e desmatamento no país não indicam um responsável | Foto: Mauro Pimentel

Por décadas, a cidade cresceu sob uma visão imediatista, onde o concreto foi sinônimo de progresso e o verde, um entrave. Ainda assim, no ciclo da borracha, Manaus incorporou o verde como infraestrutura urbana. O cognome “Paris dos Trópicos” era um exagero, mas remetia a uma concepção de cidade estruturada, viva, com horizonte. Hoje, nem o passado nos desafia.

Cidades do agronegócio estão dando o exemplo

Como destacamos no último ensaio, municípios como Sinop (MT) e Rio Verde (GO), em pleno território do agronegócio, apostaram na arborização como política pública. Entenderam que plantar árvores é investir em conforto térmico, em saúde preventiva, em turismo, em valorização imobiliária — e em reputação.

O verde virou argumento estratégico e símbolo de visão de longo prazo. Enquanto isso, Manaus ainda tropeça em personalismos e publicidade esvaziada.

É hora de plantar e ensinar um novo tempo

Não basta esperar pela consciência espontânea. Ou pela sonolência de determinadas instituições. É preciso uma política pública de arborização urbana com metas claras, orçamento dedicado, participação social ativa e vontade política inegociável. Um Plano Municipal de Arborização precisa ser prioridade, e não adereço. Porque as árvores não são só ornamento: são infraestrutura verde, são saúde, são paisagem, são identidade amazônica.

“Mas plantar árvores não basta. É preciso semear consciências. Investir em princípios básicos da educação ambiental”, diz Régia Moreira, empresário e líder da Comissão ESG do Centro da Indústria do Estado do Amazonas – CIEAM.

Por isso, é urgente também a formulação de um Plano de Educação Ambiental que envolva as universidades como articuladoras de conteúdo, pesquisa e formação, mobilizando de forma transversal as redes pública e privada de ensino. Essa educação para cuidar do ambiente deve entrar nos currículos, mas também nas praças, nos bairros e nas ruas — em mutirões, gincanas, olimpíadas ambientais e vivências práticas.

Só assim se forma uma nova cultura urbana, em que cuidar da cidade seja expressão de pertencimento e cidadania. Arborizar e educar são dois lados de uma mesma proposta civilizatória: a reconciliação entre o humano e a natureza.

A floresta precisa pulsar também dentro da cidade

O prefeito, seus secretários, vereadores, educadores, líderes comunitários e empresariado têm nas mãos uma oportunidade histórica. Em tempos de transição ecológica e justiça climática, Manaus não pode continuar fora do mapa.

É preciso transformar indignação em plano, boa vontade em política pública, e a cidade concreta em floresta viva. Que o coração da Amazônia volte a pulsar, também, dentro da cidade, e de cada um de nós.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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