O modelo pode ser adaptado para identificar um café fake e potenciais adulterações de qualidade e composição em cafés especiais, autenticando sua origem geográfica
Os café tem enfrentado uma crescente nos preços devido a uma combinação de fatores, como as mudanças climáticas, que afetam a produção, oscilações nas colheitas e o crescimento da demanda global. Esse cenário de valorização do grão também tem gerado incentivos para práticas fraudulentas, como a adulteração do produto com insumos mais baratos que não são café. Essas fraudes, que produzem um “café fake”, comprometem a autenticidade da bebida e prejudicam o consumidor, que acaba pagando mais por um produto de qualidade inferior ou fora do padrão.
Diante desse desafio, pesquisadores têm desenvolvido métodos inovadores para garantir a qualidade e a rastreabilidade do café. Em um dos artigos de seu doutorado na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (FEA-Unicamp), o pesquisador Michel Rocha Baqueta e sua equipe foram capazes de demonstrar como o uso de imagens digitais captadas por um celular comum podem autenticar a origem geográfica de cafés da espécie canéfora (Coffea canephora) produzidos por comunidades indígenas em Rondônia, além de detectar adulterações no produto.

“Nosso método é baseado no sistema RGB [red, green and blue], que permite a obtenção de coordenadas de cores em dispositivos eletrônicos como celulares por meio de uma imagem, por exemplo. A foto é feita colocando-se a amostra [o café moído] em um dispositivo projetado com tecnologia de impressão 3D acoplado a um celular”, explica Baqueta em entrevista à Agência Fapesp.
“O projeto do dispositivo foi criado para manter a análise sob condições de iluminação controladas e padronizar a distância e outras variáveis que são importantes nesse tipo de ensaio”, completa. Segundo ele, as imagens capturadas das amostras de café carregam informações físicas valiosas, especialmente ligadas à colorimetria — um conjunto de medidas relacionadas às coordenadas de cor do produto. Essas informações foram extraídas com o auxílio de um programa de ciência de dados, que permitiu a criação de um modelo preditivo baseado em machine learning.
Com um banco de dados robusto, contendo amostras autênticas e adulteradas, a equipe treinou o modelo para reconhecer padrões visuais e detectar alterações nas características do café, reconhecendo um café de baixa qualidade de um café especial legítimo. Após o treinamento, o sistema foi testado com novas amostras, cuja adulteração já era conhecida pelos pesquisadores. O modelo foi capaz de identificar corretamente as adulterações em 95% dos casos, comprovando a eficácia da técnica.
Café que muda o mundo
Um dos cafés da Amazônia que se destacam pela qualidade mas também capacidade de engajar uma comunidade em torno de um empreendimento sustentável que ajuda a reflorestar uma das regiões mais desmatadas do estado do Amazonas é a iniciativa do Café Apuí Agroflorestal.
Essa iniciativa é de uma cooperativa de amazônidas apoiados pelo Idesam e pelas empresas do Polo Industrial de Manaus através da Programa Prioritário de Bioeconomia. Saiba mais clicando aqui.

Sistema pode identificar café fake
A professora Juliana Azevedo Lima Pallone, da Unicamp, explica que esse modelo específico foi criado para essas amostras de café canéfora e para adulterantes como o café arábica (Coffea arabica), a borra de café, o café canéfora de baixa qualidade, a casca de café, a semente de açaí, o milho e a soja, mas pode ser adaptado. “Com base em informações sobre adulterações em cafés, produzimos amostras adulteradas em laboratório e desenvolvemos as técnicas. O modelo pode ser adaptado para detectar um ‘café fake’, basta que seja ajustado e ‘treinado’ com outras amostras e outros adulterantes”, conta.
Na última quarta (23), o governo federal detalhou a composição de alguns produtos indicados como café fake apreendidos em fevereiro, em fábricas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A análise feita pelo Ministério da Agricultura indicou que eles eram compostos por cascas de grão e elementos considerados “lixo” da lavoura – grãos ardidos, defeituosos, que são dispensados no processo de produção de café. Além disso, as bebidas continham uma toxina cancerígena.

Para que uma bebida seja legalmente considerada café, ela deve ser feita exclusivamente a partir do fruto do cafeeiro, sem a adição de outros ingredientes. No entanto, a legislação brasileira de alimentos possui categorias que, em determinados casos e a critério do Ministério da Agricultura, podem permitir o enquadramento de produtos como “pó sabor café”, desde que sigam requisitos específicos de rotulagem e composição. O problema é que nem todos os chamados “cafés fake” deixam claro o que realmente contêm, por isso a tecnologia de identificação se faz essencial no controle de qualidade.
