Infraestrutura e desigualdade: o Amazonas esquecido

“A oportunidade industrial trazida pela reforma tributária precisa ser potencializada e para isso a infraestrutura com um sistema aéreo mais competitivo, com a recuperação da rodovia BR-319 e um efetivo estudo sobre o que fazer na “hidrovia” do Amazonas para o trânsito de navios o ano inteiro. Apenas estas três ações trariam uma transformação regional e um potencial de contribuição gigante para o país. Será que estamos prontos para crescer e desenvolver, neste momento que o mundo abre uma janela de oportunidade?”

É ausente o esforço para reduzir as desigualdades da infraestrutura no Amazonas. O Estado nunca é prioridade. Seguimos a construir estradas nas demais regiões, com bilhões de Reais alocados. No panorama do setor rodoviário da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) há 65.000km de estradas pavimentadas.  

Entre 2023 e 2024 foram R$ 111 bilhões de investimentos em rodovias, pelo governo ou concessões, Brasil afora, segundo dados do SNTR/MT, SE/MT e ANTT. Há esforços para o Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e, mais recentemente, Rondônia. O alvo são as áreas mais ricas do país ou o atendimento da necessidade de infraestrutura para exportar. Somos um país pródigo de apoio para os ricos ou estrangeiros.

A redução das desigualdades começará quando as oportunidades de crescimento forem suportadas com infraestrutura. Seguimos a investir nas regiões mais abastadas, repetindo um padrão de comportamento histórico, onde o olhar da infraestrutura regional do Amazonas é para extrair recursos. Com isso, o Amazonas possui 17% de seu PIB com impostos, enquanto a média nacional é 15% e praticamente 0% para sua infraestrutura. 

O Aeroporto Internacional de Manaus é rentável, com o terceiro maior volume de cargas do país, por isso foi concedido para a multinacional francesa Vinci, que segue focada em aumentar os preços cobrados, ao invés de ofertar reduções de custos pelo melhor desempenho operacional ou para atração de mais voos e operações na região, seguindo a regra mais básica da economia. 

Ao contrário da esperada redução de preços para o aumento da demanda, o que vemos é uma insistência para indexar os preços pela inflação ou mesmo considerar 13 meses para reajuste, ao invés dos 12 contratuais. O tal turismo na Amazônia segue sendo uma miragem, por mais que a concessão integre Manaus, Boa Vista, Porto Velho, Rio Branco, Tabatinga, Cruzeiro do Sul e Tefé. Onde estão os voos regionais com grande frequência? Por que ainda não existe um sistema forte de atração de turismo regional?

Enquanto o diálogo institucional com o Amazonas seguir sendo o de retirada de recursos, continuaremos quase como uma colônia do Século XXI. Há agora um renascimento do mercantilismo no mundo e existem esforços de quebra de um progresso que ainda não chegou. Precisamos começar a realizar a obrigação constitucional de redução das desigualdades regionais e o Amazonas possui muito mais potencial do que já realiza.

A oportunidade industrial trazida pela reforma tributária precisa ser potencializada e para isso a infraestrutura com um sistema aéreo mais competitivo, com a recuperação da rodovia BR-319 e um efetivo estudo sobre o que fazer na “hidrovia” do Amazonas para o trânsito de navios o ano inteiro. Apenas estas três ações trariam uma transformação regional e um potencial de contribuição gigante para o país. Será que estamos prontos para crescer e desenvolver, neste momento que o mundo abre uma janela de oportunidade?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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