O que a espécie de baleia “mais solitária do mundo” pode revelar sobre as mudanças climáticas

Essa espécie de baleia pode ser fruto da hibridização causada pela mudança de áreas de reprodução de outras espécies devido ao aquecimento dos oceanos; entenda por que isso pode ser um problema para a biodiversidade

Uma baleia misteriosa que intriga cientistas há décadas pode não ser apenas uma anomalia, mas sim uma pista importante sobre o que as mudanças climáticas estão causando sob as ondas do oceano. Chamada de Whale 52 [“Baleia 52”, em tradução do inglês], ela já foi ouvida muitas vezes, mas nunca vista.

A primeira vez que o animal intrigou cientistas foi quando ouviram seu canto: o som foi emitido nas profundezas do oceano a uma frequência de 52 Hertz – número que tornou-se seu apelido -, muito mais alta do que a do canto de uma baleia-azul ou de sua prima, a baleia-fin.

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| Foto: Todd Cravens na Unsplash

Espécie de baleia híbrida

A suspeita do biólogo marinho John Calambokidis, do Cascadia Research Collective, é que essa espécie de baleia “solitária” seja um híbrido: parte baleia-azul, parte baleia-fin.

Uma criatura assim, frequentemente chamada de flue whale, está se tornando mais comum à medida que o aquecimento dos mares empurra as baleias-azuis para novas áreas de reprodução, onde a probabilidade de acasalamento com suas parentes fin aumenta. “As baleias-azuis ainda lutam para se recuperar de séculos de caça, com algumas populações permanecendo com menos de 5% de seus números históricos”, afirmou Calambokidis em reportagem do portal Grist.

Uma pesquisa com baleias-azuis do Atlântico Norte, publicada no ano passado, revelou que o DNA da baleia-fin correspondia a até 3,5% de seu genoma — um número impressionante, considerando que as duas espécies divergiram há 8,35 milhões de anos.

Embora o número de híbridos confirmados ainda seja baixo, a continuação da degradação dos habitats pode torná-los mais comuns, comprometendo a diversidade genética e reduzindo a resiliência das populações já ameaçadas. Por isso, alguns biólogos marinhos consideram o fenômeno preocupante, já que as flue whales são em grande parte incapazes de se reproduzir. Embora algumas fêmeas sejam férteis, os machos tendem a ser estéreis.

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Foto: Swanson Chan | Unsplash

Baleia 52 ameaça biodiversidade

Uma espécie de baleia híbrida em ascensão apresenta implicações profundas para a conservação. Isso porque se os híbridos não forem facilmente identificáveis, isso pode levar a estimativas imprecisas da população de baleias-azuis e dificultar a avaliação da eficácia dos programas de conservação. Mais preocupante ainda: animais estéreis não podem contribuir para a sobrevivência da espécie. Ou seja, a hibridização representa uma ameaça à viabilidade a longo prazo das baleias-azuis.

“Pode ser que os híbridos não sejam tão bem adaptados ao ambiente quanto uma baleia-azul ou baleia-fin pura, o que significa que os descendentes produzidos seriam becos sem saída evolutivos”, aponta a bióloga marinha Aimee Lang.

O que a espécie de baleia "mais solitária do mundo” pode revelar sobre as mudanças climáticas
O que a espécie de baleia “mais solitária do mundo” pode revelar sobre as mudanças climáticas | Foto: Lee Kelai na Unsplash

Cada espécie de baleia desempenha um papel específico na manutenção da saúde dos ecossistemas marinhos, seja controlando populações de krill, seja fornecendo nutrientes essenciais como o ferro. Assim, híbridos que não exercem o papel que a evolução lhes atribuiu também comprometem essa relação simbiótica com o oceano, que já vem sendo transformado pelo aquecimento das águas, acidificação dos oceanos e mudanças na distribuição das presas.

Para entender verdadeiramente como essas pressões estão moldando as populações de baleias, os pesquisadores talvez ainda precisem de muitas gerações desses animais para descobrir o que está acontecendo sob as ondas, mas o canto da Baleia 52 já é interpretado como alerta desse fenômeno.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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