Refinaria de Manaus sob ataque do preconceito estrutural com a economia da Amazônia

“Ignorância ou má-fé? A manutenção dos incentivos fiscais para a Refinaria de Manaus não é um privilégio, mas uma necessidade para assegurar a segurança energética e a justiça econômica no Amazonas.”

Por Alfredo Lopes

Coluna Follow Up

A Refinaria de Manaus**, mais do que uma infraestrutura energética essencial, é um ícone da resiliência e da ousadia do Amazonas em enfrentar os desafios logísticos e econômicos de uma região marcada por distâncias continentais e dificuldades logísticas desafiadoras. Sua existência simboliza a capacidade do estado em buscar soluções próprias para garantir o atendimento às necessidades de sua população, sem depender exclusivamente de políticas centralizadas e alheias às particularidades amazônicas.

No entanto, o preconceito estrutural contra a Amazônia, amplamente enraizado no eixo econômico do Sudeste, mais uma vez se manifesta. A recente tentativa do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) de barrar os incentivos fiscais à refinaria, sob o pretexto de alinhamento com políticas ambientais, é, no mínimo, contraditória, para não dizer risível. Trata-se de uma manobra que ignora a realidade de quem vive na região Norte e que depende diretamente dessa estrutura para acesso a combustíveis básicos.

Ignorância ou má-fé? A manutenção dos incentivos fiscais para a Refinaria de Manaus não é um privilégio, mas uma necessidade para assegurar a segurança energética e a justiça econômica no Amazonas

Não é justo que o morador do Alto Solimões, a milhares de quilômetros da capital amazonense, pague o mesmo preço pelo combustível, fora o frete, que abastece o bairro dos Jardins em São Paulo. Essa distorção é fruto de um modelo que desconsidera as necessidades e os custos adicionais de transporte e logística enfrentados pelo Amazonas. Em algumas áreas, transportar um litro de combustível exige até seis litros devido à geografia complexa e às distâncias extremas. A refinaria é a única capaz de reduzir esses custos, garantindo maior acessibilidade e equidade no abastecimento energético.

Além disso, compete à Refinaria de Manaus a vital tarefa de liquidificar e engarrafar o gás que abastece comunidades ribeirinhas, cidades isoladas e vilarejos espalhados pela vasta Amazônia. Pergunta-se: por que o gás consumido nos hotéis cinco estrelas do Rio de Janeiro tem o mesmo preço da botija comprada por uma família em Roraima, no extremo norte da Amazônia Ocidental? Essa situação escancara o desequilíbrio de uma política que ignora as desigualdades regionais.

A Refinaria de Manaus é uma resposta concreta à necessidade de uma infraestrutura que atenda às demandas do maior estado da Federação, tanto em extensão territorial quanto em desafios logísticos. Enquanto o Sudeste se beneficia de uma rede de infraestrutura consolidada e subsídios invisíveis, a Amazônia enfrenta resistência a cada avanço econômico, como se sua autossuficiência fosse uma afronta ao poder centralizado.

É preciso combater o preconceito estrutural que sataniza a Refinaria de Manaus e os incentivos fiscais concedidos à Zona Franca. Esses mecanismos não são privilégios, mas instrumentos fundamentais para corrigir as assimetrias históricas que condenam a região Norte à dependência e ao atraso. A defesa da refinaria e de sua missão vai além de uma questão econômica; é uma afirmação do direito da Amazônia de desenvolver soluções próprias, respeitando suas especificidades e protegendo a dignidade de sua população.

Ignorância ou má-fé? A manutenção dos incentivos fiscais para a Refinaria de Manaus não é um privilégio, mas uma necessidade para assegurar a segurança energética e a justiça econômica no Amazonas

A população da Amazônia não pode mais ser tratada como cidadania de “segunda classe”. Garantir o funcionamento pleno da Refinaria de Manaus é assegurar que as comunidades da região tenham acesso justo a combustíveis em geral e gás, muito em particular, fortalecendo sua soberania e autonomia energética. A luta pela preservação dos incentivos fiscais e pela valorização da infraestrutura local é, em última instância, uma luta por justiça social e pelo reconhecimento de que o Brasil só será forte quando toda a sua gente for respeitada.

Ignorância ou má-fé? A manutenção dos incentivos fiscais para a Refinaria de Manaus, contida na reforma tributária, não é um privilégio, mas uma necessidade para assegurar a segurança energética e a justiça econômica no Amazonas. Sem esses benefícios, a refinaria enfrenta dificuldades operacionais que podem levar à sua inviabilidade, afetando diretamente a população que depende de seus serviços, além de naturalizar a insensatez das desigualdades abissais entre o Norte e o Sul do Brasil.

alfredo

(*) Coluna follow-up – sob a responsabilidade do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, e coordenação editorial de Alfredo Lopes, é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas e no portal BrasilAmazôniaAgora.com.br

** Trazida desmontada de Los Angels, no início dos anos 50, graças à ousadia de empreendedores judeus da Amazônia, Isaac Sabbá e Moysés Israel, a Refinaria foi inaugurada por Juscelino Kubitscheck. Foi erguida no muque dos colaboradores, pois não havia na Amazônia de então um guindaste no raio de 1.500 km.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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