Amazonas: caos da pandemia no ano passado não afeta quadro eleitoral e direita lidera

Favoritismo é de governador investigado por desvio de verbas da saúde e de prefeito que abriu valas comuns em cemitério

O Amazonas foi o epicentro da crise na saúde durante janeiro de 2021, em meio à pandemia de coronavírus no Brasil. Imagens de covas coletivas ganharam o mundo. O sistema de saúde do estado entrou em colapso.

Mais 60 pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio. Os cemitérios não comportavam a quantidade de mortos, e os enterros foram feitos em covas coletivas. Mas se enganou quem pensou que a tragédia iria provocar mudanças no quadro eleitoral.

Valas coletivas para vítimas da pandemia em cemitério de Manaus, Amazonas
Aerial picture showing a burial taking place at an area where new graves have been dug up at the Nossa Senhora Aparecida cemetery in Manaus, in the Amazon forest in Brazil, on April 22, 2020. – The new grave area hosts suspected and confirmed victims of the COVID-19 coronavirus pandemic. More than 180,000 people in the world have died from the novel coronavirus since it emerged in China last December, according to an AFP tally based on official sources. (Photo by Michael DANTAS / AFP)

:: Covid-19: crise de oxigênio em Manaus completa um ano::

O candidato favorito ao governo do Amazonas é o atual governador Wilson Lima (União Brasil), que tenta a reeleição. Acuado na pandemia, ele foi investigado por suposto desvio de verbas na compra de respiradores, mas não saiu prejudicado eleitoralmente.

O senador Eduardo Braga, que marcou posição contrária a Wilson Lima durante a CPI da covid no Senado, segue em terceiro lugar na disputa pelo governo do estado, atrás de Amazonino Mendes (Podemos).

Durante a crise da pandemia, o prefeito de Manaus era Arthur Virgílio (PSDB). Hoje ele é o favorito na disputa pelo Senado, com 31% das intenções de voto. Logo atrás, com 24%, vem o senador Omar Aziz, que tenta a reeleição. Os dados são da pesquisa da Iveritas

Aziz presidiu a CPI da covid e fez duras críticas à maneira como a crise de saúde foi conduzida pelas lideranças do estado. Hoje ele está atrás de Arthur Virgílio na corrida.

Crise na saúde não educou politicamente a população

“A Covid em Manaus não desempenhou um papel politicamente pedagógico”, afirma Marcelo Seráfico, sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Não desempenhou o papel de mostrar à maioria dos cidadãos que votaram no senhor presidente da República que a atitude que ele tomou representa uma ideia de que o Estado não tem obrigação nenhuma com os cidadãos”, afirma.

“A crise na saúde”, reforça o sociólogo, “não educou uma parte expressiva dos cidadãos e cidadãs amazonense, que na capital permanece oferecendo apoio à candidatura de Bolsonaro.

No Amazonas, o tema predominante nas eleições é a economia. Os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus perderam força no governo Bolsonaro. A medida é considerada um duro golpe na principal política de incentivo à indústria.

Por outro lado, a reconstrução da BR-319, importante rodovia que liga Manaus à Porto Velho e ao restante do país, mobiliza os discursos eleitorais a favor do governo federal. O prometido asfaltamento da rodovia, que ainda não começou, foi uma bandeira do governo Bolsonaro, que aposta em continuar projetos de infraestrutura iniciados pela ditadura militar, como a BR-319.

Imobilismo político de direita e extrema direita 

O sociólogo Marcelo Seráfico observa que as eleições no Amazonas estão polarizadas entre candidaturas de direita ou extrema-direita. Para a esquerda despontar, falta superar a influência dos grandes proprietários de terra que se perpetua há séculos no estado, e do empresariado de Manaus, que concentra o poder político e impede alternativas progressistas. 

“Nas capitais a extrema direita mantém um poder expressivo. No interior, inclusive pela difícil estruturação de partidos de esquerda e de posições vinculadas a teses mais progressistas, isso é quase que um dado é incontornável da realidade”, explica o pesquisador.

Seráfico chama ainda Manaus de “cidade-estado”, por concentrar poder político e econômico. “As tendências que saem de Manaus acabam tendo enorme influência nos desdobramentos políticos do interior do estado”, disse. 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Originalmente publicado em: BRASIL DE FATO

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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