A Zona Franca de Manaus é cosmopolita ou nacionalista?

É fundamental trazer as discussões para o presente, para quando formos visitados por alguém com juras de apoio, depois não nos surpreendermos por este alguém destruindo o rio com mercúrio, o chão de fábrica sem a ciência ou nos colocando grilhões adicionais. Mesmo que já tenhamos sido muito enganados ou achado que estávamos, ou estamos com “o certo”, o que seria o maior erro, porque a evolução se faz pela dúvida – inclusive sobre as nossas certezas.

Por Augusto César Barreto Rocha
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Cosmopolita x Nacionalista. Intervenções no Mercado x Livre Mercado. Saquaremas x Luzias. Liberais x Iliberais. Estado Forte x Estado Fraco. Contra as Elites x Foco nas Elites. Esquerda x Direita. Contra Nada x Contra Tudo. Sistema x Antissistema. Nós Contra Eles. São muitas as vertentes de conflitos e rótulos. Contudo, não convém perceber a realidade com uma visão simplista ou maniqueísta, como se somente existisse o bem (eu) e o mal (os outros).  

Não faltam lados e não faltam apelos. Em meio a tanto ruído, há certamente alternativas deploráveis. Entretanto, há várias questões legítimas. Ou seja, algumas ideias não fazem nenhum sentido e outras até que poderiam fazer, em certa medida, por mais que seja diferente do que seria “o meu certo”. Em meio a estas questões de fundo, como se posiciona a Zona Franca de Manaus (ZFM) e a sua indústria? Em geral, quem entende depender de alguma forma dela é favorável (nós). Quem se sente prejudicado por ela, é contrário (eles).  

Se você percebe o Brasil como agrário e isolado do mundo, que também tende a defender que exportemos nossas commodities, nossa vocação de explorar o ouro (ou silvinita ou…) e nosso subsolo, então muito provavelmente você aprecia o nacionalismo e, por conseguinte, será provavelmente contrário à Zona Franca de Manaus, uma vez que o olhar mais nacionalista normalmente não apreciará a globalização ou a presença de multinacionais e estrangeiros por aqui. Há algo de xenófobo (e quem sabe também contra índios – que deveriam ter a “cultura certa”, ou seja, a “sua”). A exceção talvez se dê, nesta visão, por aqueles que queiram “representar” algum Império ou que tenham muito capital. 

Por outro lado, se você percebe o Brasil como um país que tem potencial científico e tecnológico, integrado nas cadeias produtivas globais, importando e exportando, com a presença de empresas estrangeiras aqui e algumas nossas lá fora, fará todo o sentido a ZFM, pois poderemos ter reservas florestais e começar a agregar mais valores tecnológicos. Afinal, a ZFM é uma protetora indireta dos recursos naturais para o bem da humanidade, permitindo a pesquisa & desenvolvimento de potenciais científicos locais, que poderão ser exportados com maior valor e levando o (“seu”) “bem” para todos.  

Temos que tomar cuidado para não entrarmos num emaranhado ideológico e entender que coisas e ideais que atacam a globalização ao mesmo tempo defendem a ZFM. Atacar a globalização simultaneamente ataca a ZFM. Estamos em um momento de pesquisa fácil, mas de compreensão e leitura de mundo cada vez mais complexa. É fácil ter leituras rápidas da realidade e, como sempre, leituras fáceis e rápidas podem estar erradas. 

Boaventura de Souza Santos, Christian Lynch, Fernão Lara Mesquita, Ian Bremmer, Karl Popper, Pedro Doria, Yuval Harari e vários outros têm refletido sobre estas questões, em linguagem simples ou científica, com mais ou menos densidade. Independente da profundidade, é uma reflexão fundamental para que sejamos menos enganados. Ser nacionalista, focado em empresas nacionais, no extrativismo, contra a ciência e os sistemas, implicará em ser contra a ZFM. Não nos enganemos. Há vários caminhos para ser contra ZFM – ser contra tudo e todos é o caminho mais fácil, pois a ZFM é um sistema complexo e dependente de leis, portarias e regras. Sem elas, o “modelo” se torna inviável.  

O difícil será o caminho de ser favorável a algo e a construir algo. Este percurso demandará paciência, calma, diálogo, respeito e aceitação do outro. Evoluir, lentamente ou rapidamente é outra coisa. Sendo mais conservador ou arrojado, mas com foco na construção, será um caminho favorável ao meio ambiente e às convergências multilaterais. Neste percurso há espaço amplo para a ZFM – um espaço que se estreita cada vez mais, mas há um espaço. No outro, inexiste o espaço. 

Como de costume, deixo a conclusão para o leitor e, mais que isso, a indicação de possíveis caminhos para buscar um contraste apropriado aos dilemas do contemporâneo. É necessária uma atualização das discussões, saindo do olhar dos anos 1910, 1950 ou 1970.  

É fundamental trazer as discussões para o presente, para quando formos visitados por alguém com juras de apoio, depois não nos surpreendermos por este alguém destruindo o rio com mercúrio, o chão de fábrica sem a ciência ou nos colocando grilhões adicionais. Mesmo que já tenhamos sido muito enganados ou achado que estávamos, ou estamos com “o certo”, o que seria o maior erro, porque a evolução se faz pela dúvida – inclusive sobre as nossas certezas. 

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM.
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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