A volta dos militares

Enquanto alguns civis aloprados postulavam nas manifestações do fim de semana a volta dos militares para repor a ordem nas estripulias políticas e institucionais – uma proposta considerada indecente até pelos próprios convocados – a tribo amazônica organizou, neste início de dezembro, em Manaus, um programa de índio dos mais inteligentes com a participação ativa dos militares do Exército Brasileiro para mobilizar atores de ciência, tecnologia e bioeconomia a favor da Amazônia. Mais uma edição do Pró-Amazônia, uma volta interdisciplinar e interinstitucional – delineada em maio de 2015, sob a batuta cearense de Theóphilo Cals, então no Comando Militar da Amazônia, para alinhar estratégia de defesa com estratégia de P&D, pesquisa e desenvolvimento, priorizando capacitação de recursos humanos, articulação com as respectivas entidades e instituições regionais, do setor público e privado, no intuito de criar novas modulações econômicas e prover base de infraestrutura adequada para viabilizar programas setoriais, com ênfase na logística de transportes, alternativas energéticas e de comunicação. Cabos subfluviais já estão deixando a Amazônia Conectada, plugado no mundo.

Temos massa crítica de sobra se soubermos fazer permutas locais, nacionais, panamazônicas, como as fábricas de gelo movidas a energia solar, com placas fotovoltaicas no toldo das embarcações, já utilizado pelo Instituto Mamirauá, em parceria com o Instituto de Engenharia e Ambiente, da Universidade de São Paulo. A economia desta Amazônia Ocidental, beneficiária de renúncia fiscal, não pode ser predatória. Aqui, o paradigma do setor produtivo proíbe ações que exigirão reparações onerosas para o devido reequilíbrio socioambiental. O paradigma de desenvolvimento não pode permitir – sob qualquer pretexto – que o desmatamento do Amazonas, nos últimos 12 meses, tenha crescido 54% em relação ao período anterior, de acordo com os dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Vaidoso por proteger historicamente a floresta, o Amazonas se destacou negativamente entre os estados da Amazônia Legal. E não adianta dizer que isso não compromete o volume de cobertura vegetal conservada, o maior de todas as unidades da federação. O ranking predatório do Amazonas, seguido pelo Acre, ficou distante do Pará, 40% de desmatamento, e de Rondônia, 35%, os habituais alvos de nossa acusação predatória. No Pará, os agricultores de dendê batem recorde de plantio de espécie e de colheita de dividendos, com biorefinarias de óleo vegetal para atender a indústria de química fina. Paragominas, também no Pará, passou de deserto amazônico em área de regeneração florestal premiada pela ONU. E, em Rondônia, os pecuaristas trocaram a proteína bovina, 500 kgs/hectare, por proteína de peixe, deliciosa e sustentável, com o mesmo hectare de lâmina d’água, produzindo 22 toneladas na piscicultura.

Em Itacoatiara, no Amazonas, a Fazenda Aruanã mandou a pecuária pastar e em seu lugar plantou Ciência, Tecnologia e Inovação, digo, castanheiras, pupunheiras, copaíba e cumaru – entre plantadas e distribuídas, são mais de 5 milhões de mudas para adensar a mata – com suporte da Embrapa e do Inpa. São plantios de alto valor comercial que agregam inovação, ora com os cientistas do Centro de Biotecnologia da Amazônia, que ali já encontram biomoléculas preciosas para o mercado internacional de cosméticos. Este modelo é inteligente, adequado, consagrado pelo Acordo do Clima, assinado e ratificado pelo Brasil, e que deveria levar à assinatura de outro acordo, o da cidadania econômica, posto que não desmata, pelo contrário, adensa a floresta e promove oportunidades. O corte de árvore só faz sentido no MFS, o manejo florestal sustentável, igualmente focado na conservação e geração de emprego e renda. Do mesmo modo, cabe ainda explorar silvinita – o Amazonas está no topo,do ranking mundial em reserva – para a produção de potássio, cuja demanda do agronegócio obriga o Brasil a importar 85% do que consome. Só assim, as riquezas minerais deixarão de ser contrabandeadas, deixando o rastro da exclusão, sobretudo para as etnias primitivas. Aplausos para os programas de alimentos orgânicos, água potável, energia alternativa e logística regional do Pró-Amazônia, que surgem como intervenção cívica/militar adequada na medida em que juntam atores em sinergia inteligente, colaborativa, dentro do parâmetro legal e da urgência socioambiental. Os fiscais do meio ambiente deveriam operar lado a lado com os de extensão rural, reduzindo a burocracia e estimulando parceria entre desenvolvimento, sustentabilidade e prosperidade, oportunamente chamada no Pró-Amazônia de nova matriz econômica, economia de baixo carbono e de múltiplas soluções.

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Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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