“Pesquisadora ligada à FEA-USP, a especialista em sustentabilidade examina como secas, perda de biodiversidade e desequilíbrios ambientais afetam os negócios e defende uma participação mais expressiva do setor produtivo amazônico na proteção dos ecossistemas”.
Por Alfredo Lopes | Brasil Amazônia Agora
Quando uma embarcação precisa reduzir a carga porque o rio perdeu profundidade, uma mudança ambiental começa a aparecer na contabilidade das empresas. O frete sobe, os insumos demoram a chegar, os estoques exigem mais capital e o abastecimento se torna mais difícil. No Amazonas, essa sequência é conhecida por quem produz, transporta e comercializa. O que ainda avança lentamente é a incorporação dessa experiência às decisões que antecedem a próxima estiagem.
É sobre essa distância entre conhecer o risco e agir sobre ele que Vanessa Pinsky concentra sua análise. Doutora em Administração pela FEA-USP, professora e especialista em sustentabilidade, ela reúne experiência em empresas, consultoria, ensino e pesquisa. Sua atuação no Projeto Bioeconomia da FEA-USP inclui o estudo da governança de políticas públicas e dos arranjos necessários para que a bioeconomia amazônica se desenvolva nos territórios. (fiaonline.com.br, vanessapinsky.com.br)
Nossa interlocução vem dos tempos de USP e se prolonga no interesse comum pelos caminhos do desenvolvimento amazônico. Nessa convivência, Vanessa tem sido uma parceira atenta às possibilidades da região e às dificuldades de transformar conhecimento em decisões. Sua contribuição aproxima a pesquisa acadêmica das responsabilidades de quem administra empresas e formula políticas públicas, mantendo em vista as pessoas que vivem nos territórios.
Nesta entrevista ao Brasil Amazônia Agora, ela trata a floresta, os rios e o regime de chuvas como componentes da infraestrutura econômica do Amazonas. A partir dessa compreensão, examina os incentivos que favorecem decisões de curto prazo, a dificuldade de demonstrar o valor de uma perda evitada e os limites de uma adaptação empresarial que não venha acompanhada do cuidado com os ecossistemas.
Vanessa também identifica uma oportunidade para o setor produtivo regional. A presença de um polo industrial de grande porte em um território de extraordinária relevância ambiental oferece condições para uma liderança que una competitividade, conhecimento científico e conservação. Construí-la exige investimento, responsabilidades definidas e participação das comunidades que conhecem a floresta e as águas por experiência cotidiana.
A natureza no custo da operação
Brasil Amazônia Agora — Professora, sua observação de que o risco relacionado à natureza é risco financeiro encontra no Amazonas uma tradução concreta. Quando o rio baixa, a carga atrasa, o frete aumenta e o abastecimento fica comprometido. O que essa experiência já mudou na percepção dos dirigentes empresariais e o que ainda precisa mudar?
Vanessa Pinsky — Conselheiros, executivos e gestores de empresas que operam no Amazonas conhecem os riscos relacionados à natureza que afetam financeiramente os negócios no curto prazo. A mudança climática e seus efeitos sobre o ciclo de chuvas, associados a fenômenos naturais como o El Niño, vêm sendo incorporados gradativamente às decisões estratégicas das organizações e de suas cadeias de valor.
A seca materializa esse risco. A Zona Franca de Manaus depende de uma operação logística conectada aos rios. Quando a falta de chuvas compromete a navegabilidade, aumentam os custos logísticos e os atrasos na chegada de insumos e produtos. Surgem dificuldades para escoar a produção, torna-se necessário antecipar estoques e há impacto direto sobre as margens e o fluxo de caixa.
Isso vale para as empresas da Zona Franca de Manaus, para produtores de minérios e grãos e para as organizações que distribuem alimentos e outros produtos no estado. Há, ainda, um limite econômico para o repasse do aumento do frete. Não é possível transferir todo esse custo para o varejo e o consumidor final.
O desenvolvimento socioeconômico do Amazonas depende da infraestrutura construída e também da natureza como infraestrutura de produção, logística e vida no território. A manutenção dos serviços ambientais prestados pela natureza é condição para a resiliência e a competitividade das empresas no longo prazo.
Os dirigentes percebem que a degradação da natureza pode interromper operações e destruir valor. O desafio é transformar essa percepção em ações capazes de reduzir os danos aos ecossistemas e preservar os serviços dos quais as empresas dependem.
Reconhecer o risco depois que o impacto se materializa é insuficiente. Precisamos incorporá-lo à estratégia e ao mapa de riscos corporativos, com previsão orçamentária e investimentos em mitigação e adaptação.
O orçamento e o tempo da natureza
BAA — Por que é tão difícil integrar a natureza à tomada de decisão quando os efeitos financeiros dos riscos já são conhecidos? A maior resistência está na formação dos executivos, na cobrança por resultados imediatos, nos incentivos de remuneração ou na distribuição de responsabilidades?
Vanessa Pinsky — Há uma combinação desses fatores. Destaco um problema estrutural de governança, relacionado à diferença entre o tempo da natureza e o tempo dos negócios. A formação e a regeneração dos ecossistemas obedecem a processos muito distintos daqueles que orientam a avaliação de resultados financeiros trimestrais. Essa é uma reflexão que o professor Jacques Marcovitch, da FEA-USP, sempre traz.
A natureza é infraestrutura essencial para as empresas que fazem negócios nos territórios do Amazonas. Investir na manutenção dos serviços ecossistêmicos e na prevenção de danos que podem ou não se materializar no curto e no médio prazo envolve decisões complexas para conselheiros e dirigentes.
No atual contexto de crises econômicas, sociais e ambientais interconectadas, já não considero a falta de conhecimento dos executivos uma explicação suficiente. Também não tomo o negacionismo como justificativa. Há oportunismo político e decisões conscientes, baseadas em sistemas perversos de incentivos e nos interesses de curto prazo de grupos econômicos, que chegam a desconsiderar a saúde e o bem-estar das pessoas. Mas não devemos generalizar.
BAA — Uma despesa emergencial para retirar uma carga de uma situação crítica costuma encontrar justificativa imediata. Já um investimento em prevenção pode passar meses disputando espaço no orçamento. Como fazer com que a perda evitada tenha peso nas decisões, mesmo sem a visibilidade de uma receita?
Vanessa Pinsky — Esse é um problema clássico de governança e de alocação de capital. Precisamos incorporar a resiliência e a exposição aos riscos relacionados à natureza aos planos de continuidade das operações, com visão de longo prazo.
O dilema ganha complexidade porque as decisões podem afetar, positiva ou negativamente, os indicadores econômico-financeiros das organizações. Como convencer os dirigentes de que a perda evitada por investimentos preventivos também gera valor econômico? O grande desafio é tornar esse valor visível para quem decide.
É necessário construir cenários e testar a resiliência da estratégia diante de situações em que as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade comprometam a continuidade dos negócios. Um exercício difícil, mas necessário, é calcular o custo da inação na mesma planilha dos investimentos, considerando possíveis impactos sobre receita, margens, estoques e distribuição.
Adaptar a operação e cuidar do território
BAA — Há o risco de as empresas se tornarem mais eficientes em atravessar cada estiagem, com estoques e alternativas logísticas, enquanto adiam decisões que poderiam contribuir para enfrentar as causas do problema?
Vanessa Pinsky — Sinceramente, acredito que isso acontece na maioria das empresas. A capacidade de inovação e adaptação aos riscos relacionados à natureza é condição de resiliência das organizações.
Antecipar estoques, diversificar rotas, contratar embarcações menores, reduzir a distribuição no período de seca, alterar calendários de produção e contratar seguros são medidas que já fazem parte da gestão de riscos e da continuidade dos negócios.
Precisamos avançar na discussão integrada entre setor privado, governos, sociedade civil e comunidades locais sobre como tornar os territórios e os ecossistemas mais resilientes. Para isso, as organizações devem mapear suas dependências, seus impactos, riscos e oportunidades relacionados à natureza.
É um processo complexo, que envolve proteção da floresta, água, biodiversidade, uso do solo, restauração e impactos ao longo das cadeias de valor. Não há mais resiliência do mercado sem equilíbrio dos ecossistemas.
BAA — Na Zona Franca de Manaus, a competitividade costuma ser discutida a partir da segurança jurídica, dos incentivos e da infraestrutura. Que importância a proteção da floresta e das águas deveria assumir nessa agenda? O setor produtivo amazônico tem condições de exercer uma liderança mais expressiva?
Vanessa Pinsky — No Amazonas, a floresta, os rios, o regime de chuvas e os serviços ecossistêmicos constituem uma infraestrutura econômica que sustenta a atividade e a competitividade empresarial na Zona Franca de Manaus, no agronegócio, no comércio e nos serviços.
A questão é saber quanto os dirigentes compreendem a dependência de seus negócios em relação à natureza, se conseguem avaliar impactos, riscos e oportunidades e, sobretudo, se têm capacidade de preparar as organizações para responder com medidas de adaptação e mitigação.
Tenho convicção de que o setor produtivo amazônico pode exercer uma liderança expressiva nessa discussão. O Amazonas abriga simultaneamente um dos maiores polos industriais do país e um dos mais importantes ativos naturais do planeta. Precisamos transformar essas vantagens comparativas em vantagens competitivas.
Cooperação com responsabilidades definidas
BAA — Parte importante da prevenção depende de políticas públicas, pesquisa e investimentos que ultrapassam a capacidade de uma empresa. Como organizar uma cooperação efetiva entre governos, indústria e universidades? E que espaço as comunidades ribeirinhas deveriam ter nessa governança?
Vanessa Pinsky — Gerir riscos sistêmicos relacionados à natureza depende de ação coletiva entre atores públicos e privados no âmbito local. Os impactos das secas sobre os níveis dos rios e a conservação da floresta e de outros ecossistemas demandam o envolvimento de todos, em uma governança que articule diferentes níveis de atuação no território.
Precisamos de políticas públicas de Estado, com visão de longo prazo e centralidade nas pessoas. As empresas têm capacidade de investimento, inovação e gestão das cadeias produtivas. As universidades e instituições de pesquisa precisam levar os resultados dos estudos para além dos laboratórios e dialogar com o setor produtivo sobre suas demandas e os problemas práticos que precisam de solução. São atores que se complementam.
A participação das comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais é fundamental, porque os riscos relacionados à natureza dependem das características de cada território. Os povos das florestas e dos rios conhecem profundamente as mudanças no ciclo das águas, na pesca e na biodiversidade. Precisamos valorizar os saberes tradicionais na busca por soluções baseadas na natureza.
Uma boa governança territorial deve ter responsabilidades definidas, metas, indicadores, mecanismos de financiamento e continuidade institucional. Também precisa de um processo permanente de revisão e aprendizagem sobre o que funciona, ou não, na prática local. Na academia, chamamos esse processo de governança experimentalista.
As perguntas que precisam chegar aos conselhos
BAA — Para concluir com uma proposta prática, imagine que a senhora participe amanhã de uma reunião de conselho de uma empresa que opera no Amazonas. Quais seriam as três perguntas que faria à direção?
Vanessa Pinsky — A primeira seria sobre as dependências e os impactos do negócio. Como e onde nossas operações dependem da natureza e afetam os ecossistemas do Amazonas, incluindo rios, floresta, água doce e atmosfera?
A segunda trataria das consequências para a organização. Como essas dependências e esses impactos geram riscos financeiros e oportunidades?
A terceira seria sobre a nossa capacidade de decidir. Temos, dentro da organização, as competências necessárias para avaliar os riscos relacionados à natureza e subsidiar a tomada de decisão do conselho?