Mobilidade é cidadania: os caminhos para um Brasil mais acessível e integrado

Engenheiro civil, com especializações em planejamento e operação do transporte coletivo e em engenharia de tráfego, Manoel Paiva tem trajetória na gestão pública e no planejamento da mobilidade em Manaus. Foi diretor-presidente do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) e participou de projetos de logística e infraestrutura no Amazonas. (institutopiatam.org.br, fecomercio-am.org.br)

A partir dessa conversa, buscamos repercutir e aprofundar as questões levantadas, conectando os desafios do transporte público no país às particularidades da Amazônia, onde os rios são caminhos essenciais para o acesso a direitos. Mais do que discutir o preço da passagem, interessa compreender como garantir deslocamentos com qualidade, segurança, acessibilidade e respeito às necessidades de cada território.

A discussão sobre a gratuidade do transporte público em finais de semana e feriados, PEC da presidência da República, abre uma pergunta maior: como garantir que todos possam chegar ao trabalho, à escola, aos serviços e aos espaços de participação social?

Nesta entrevista, editada e organizada por temas, Paiva defende que as soluções precisam considerar as necessidades de cada território. Das calçadas das grandes cidades às comunidades ribeirinhas, o desafio é permitir que as pessoas se desloquem com autonomia, segurança e dignidade.

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Ônibus do transporte coletivo – Foto: Djavan Barbosa/TV Anhangueraim

Estamos falando do acesso à escola, à igreja, ao trabalho e à democracia. Quando se isenta a tarifa do ônibus no dia da eleição, por exemplo, permite-se que quem ganha pouco e mora na periferia tenha acesso livre para exercer o direito de votar.

Mas vimos idosos sendo carregados para entrar em locais que deveriam ter acessibilidade há muito tempo. As pessoas precisam conseguir andar, chegar e sair. A acessibilidade não se resume ao símbolo internacional de acesso ou à existência de uma rampa.

Essa discussão remete ao direito do cidadão, das pessoas que moram nas cidades, grandes ou pequenas. Também mostra como é importante o envolvimento dos governos federal e estadual nas soluções dos problemas de mobilidade.

Não se trata apenas da isenção tarifária. O que queremos alcançar é que as pessoas utilizem o transporte público. Para isso, não basta adotar a tarifa zero: é importante melhorar a operação e o sistema como um todo.

Corredor BRT com onibus
Debate da tarifa zero para o transporte público é antiga, mas avançou nos últimos anos com a formatação de um ‘Marco Legal do Transporte Público’ |Crédito: Agência Brasília

É preciso ter ônibus rodando, frequência, frota nova e infraestrutura. Não adianta apenas isentar a tarifa. Também não adianta colocar ônibus novos na rua se eles não têm condições de circular.

Precisamos de corredores exclusivos, vias conservadas e sinalizadas, semáforos funcionando de maneira inteligente, prioridade ao pedestre e acessibilidade. É necessário ter comunicação nos terminais e paradas conservadas, seguras e acessíveis aos idosos.

A qualidade também depende de não haver interrupção do serviço porque o salário dos trabalhadores atrasou. Tudo isso faz parte do funcionamento do sistema.

Essa é uma grande questão: como atrair esse futuro usuário para que deixe a motocicleta ou o carro em casa e passe a utilizar o transporte coletivo?

Quando o transporte é eficiente, limpo, confiável, cumpre horários e tem frequência, a população passa a utilizá-lo mais. Existe o aspecto econômico, mas também o operacional.

O objetivo é diminuir os engarrafamentos, os acidentes e o fluxo de veículos individuais, permitindo que mais pessoas sejam transportadas coletivamente. Para isso, é preciso oferecer qualidade.

É possível avançar no Brasil, mas a complexidade dos sistemas é diferente. Fazer isso em uma cidade como São Paulo é muito mais difícil, inclusive pelo custo elevado.

O gerenciamento também importa. A integração entre ônibus, metrô e trem e a gestão da região metropolitana fazem parte dessa discussão.

E a mobilidade precisa ser compartilhada por todo o território. Não podemos esquecer as necessidades de quem está fora das grandes cidades.

A Avenida das Torres, em Manaus, é um exemplo que eu trouxe para essa discussão. É uma grande via, mas com poucas linhas de ônibus. Isso limita o acesso de quem mora nas zonas Norte e Leste.

Existem pontos de ônibus que ficaram sem utilização porque as linhas não passam por eles. Precisamos enfrentar essa situação, fazer com que os itinerários sejam inclusivos e ofereçam opções para as pessoas se deslocarem.

O governo do estado e a prefeitura precisam conversar, elaborar projetos e investir em iniciativas comuns para a população.

Porque acessibilidade é poder ir e voltar, caminhar, chegar e sair. Não basta haver uma rampa em um ponto específico se a pessoa não consegue percorrer o caminho até aquele lugar.

Quando perguntamos por que não vemos pessoas com deficiência andando nas ruas, precisamos olhar para as condições dessas ruas. Elas são inacessíveis e acabam excluindo as pessoas.

Precisamos de uma acessibilidade inclusiva, que permita autonomia. Essa é uma luta que venho travando há muitos anos.

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Manoel é Engenheiro civil, com especializações em planejamento e operação do transporte coletivo e em engenharia de tráfego.

A acessibilidade e a mobilidade amazônicas passam pelos rios. Não podemos esquecer disso. No Alto Solimões, por exemplo, discutimos a necessidade de transporte para que pessoas de comunidades indígenas pudessem ter acesso e uma maneira de se locomover.

A mobilidade precisa ser distribuída por todo o estado. Precisamos integrar a Amazônia, o território, a logística, o transporte e a movimentação das pessoas com dignidade, segurança e inclusão.

Mobilidade é cidadania
Marcos Amend / Greenpeace

É preciso cobrar eficiência. O poder público deve gerenciar o sistema e exigir qualidade na operação. Essa é uma questão que sempre defendemos na discussão dos subsídios.

Também é fundamental a participação dos governos federal, estadual e municipal em projetos comuns. A discussão sobre mobilidade envolve essa capacidade de compartilhar responsabilidades e buscar soluções para que as pessoas tenham acesso aos lugares e aos seus direitos.

Temos, por fim, que planejar e implantar projetos de mobilidade de forma integrada, acessível e sustentável.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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