“A história já mostrou o que acontece quando a sociedade abandona a ciência. Doenças voltam, epidemias crescem e cemitérios se enchem. O HPV está lembrando isso ao Brasil da forma mais dura possível.”
Tem conta que chega devagar. Primeiro vem a mentira, depois a dúvida, em seguida o medo. Anos mais tarde, chegam as internações, os diagnósticos de câncer e os enterros. A campanha antivacina, alimentada por boatos, teorias conspiratórias e irresponsabilidade digital, começa a apresentar sua fatura. E ela está sendo paga com vidas humanas.
O HPV é um desses casos em que a tragédia já estava anunciada. Há vacina segura, gratuita e disponível pelo SUS. Há décadas de pesquisas científicas. Há médicos, enfermeiros e agentes de saúde repetindo a mesma orientação. Mesmo assim, uma parte da população preferiu acreditar em vídeos de internet, correntes de aplicativos e falsos especialistas.
O resultado agora aparece nos números.
Estudo divulgado este mês revela que os cânceres associados ao HPV provocam cerca de 7,5 mil mortes e 29 mil internações por ano no Brasil. O dado mais doloroso mostra que 85% das vítimas são mulheres. Mulheres que poderiam estar trabalhando, estudando, criando seus filhos, vivendo suas vidas. Em muitos casos, a doença poderia ter sido evitada com uma simples vacina aplicada na adolescência.
O câncer do colo do útero talvez seja hoje o retrato mais cruel da desigualdade brasileira. Nos países que levaram a vacinação a sério, a doença está encolhendo rapidamente. Em alguns lugares, especialistas já falam em eliminação do problema como ameaça à saúde pública. Aqui, seguimos convivendo com filas, sofrimento e mortes que a ciência aprendeu a evitar há muito tempo.
No Amazonas, a situação é ainda mais preocupante. A previsão de aproximadamente 1,8 mil novos casos até 2028 mostra que o problema está longe de ser controlado. A distância geográfica, as dificuldades de acesso aos serviços de saúde e as desigualdades sociais ajudam a explicar parte do cenário. Mas existe outro fator que precisa ser dito com todas as letras: a desinformação matou e continua matando.
Quando alguém espalha mentira sobre vacina, não está apenas emitindo uma opinião. Está ajudando a enfraquecer uma das ferramentas mais eficientes que a humanidade já criou para salvar vidas. Cada adolescente que deixa de ser imunizado hoje pode ser um paciente oncológico amanhã.
Vacina não é questão ideológica. Não é disputa política. Não é assunto para torcida organizada. É saúde pública.
A história já mostrou o que acontece quando a sociedade abandona a ciência. Doenças voltam, epidemias crescem e cemitérios se enchem. O HPV está lembrando isso ao Brasil da forma mais dura possível.
A boa notícia é que ainda há tempo para corrigir a rota.
A vacina continua disponível. Os exames preventivos continuam acessíveis. Os profissionais de saúde continuam fazendo sua parte.
A pergunta que resta é simples: vamos ouvir a ciência ou continuar ouvindo os vendedores de mentira?
Porque o vírus não vota, não discute política e não acompanha redes sociais. Ele apenas aproveita a oportunidade que a ignorância oferece. E cobra caro por isso.