“Defesa histórica no PPGAS/UFAM reúne tese escrita em língua Tukano e banca 100% indígena. Marco consolida políticas afirmativas iniciadas em 2010 e amplia o reconhecimento do conhecimento indígena como ciência”
A UFAM viveu, em 10 de dezembro, um marco raro: a primeira defesa de doutorado integralmente indígena do Brasil — com candidato, coorientação, banca, texto e arguição conduzidos por pesquisadores indígenas, e uma tese escrita em língua Tukano. Mais do que uma conquista individual, o episódio sinaliza uma virada institucional: a universidade deixa de apenas “acolher” a presença indígena e começa a reconhecer regimes próprios de produção de conhecimento.
A defesa que muda o eixo
A defesa ocorreu no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFAM), em formato híbrido, e teve como autor o doutorando Jaime Moura Fernandes (Diakara), do povo Desana, com a tese intitulada “Pamüse: A força do sopro e da saliva entre os dessana wahri dihputiro porã no Alto Rio Negro”. 
A banca foi composta por cinco doutores indígenas: João Paulo Barreto (Tukano), Sílvio S. Barreto (Baré), Justino S. Rezende (Tuiuka), Rosilene Fonseca (Piratapuya) e João Rivelino Barreto (Tukano). 
É um acontecimento com duas dimensões simultâneas: o gesto simbólico — histórico e irreversível — e a consequência concreta — um precedente institucional que reorienta critérios, protocolos e repertórios do que pode ser aceito como pesquisa, método, evidência e teoria dentro da universidade.
Tese em língua Tukano, ciência em outra gramática
A singularidade do marco não está apenas no “ineditismo” da banca. Ela está no princípio que se afirma: uma língua indígena pode ser língua acadêmica, e um pensamento indígena pode circular como produção científica plena, sem precisar ser reduzido a “objeto” de estudo. O próprio PPGAS registra como conquista inédita o reconhecimento do direito de estudantes indígenas escreverem dissertações e teses em língua vernácula. 
Isso desloca a universidade do papel de filtro único (que traduz e enquadra) para o papel de ponte (que aprende, acolhe e valida). E desloca também a antropologia: o Alto Rio Negro, por tanto tempo descrito, passa a ser também autor.
O que a tese revela
O PPGAS descreve a tese como um “profundo estudo” sobre cosmologia indígena e sobre os modos tradicionais de produção e uso do caxiri, bebida fermentada central à vida social e ritual dos povos do Rio Negro.No coração do trabalho, dois elementos se tornam chaves interpretativas:
• o sopro do kumu (especialista detentor de conhecimento), que potencializa processos rituais por meio de sopros de fumaça e palavras ritualizadas (o PPGAS registra o termo basese);
• a saliva feminina, entendida como potência ancestral que atravessa a fabricação do caxiri e a ativação de utensílios cerimoniais.
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O programa registra ainda que o caxiri aparece, na leitura proposta pela tese, como veículo de conhecimento, memória, criatividade, música e afetos, mas também como campo de tensões monitoradas pelos especialistas durante as festas. 
Há aqui um ganho maior para o debate público: a tese oferece uma linguagem capaz de tratar o que a ciência, muitas vezes, chama de “ritual” como aquilo que ele de fato é nesses territórios — uma tecnologia social, ética e simbólica de organização da vida.
Políticas afirmativas: a história que preparou o marco
Nada disso nasce do acaso. O PPGAS informa que foi o primeiro programa de pós-graduação em Antropologia no Brasil a criar vagas reservadas para estudantes indígenas, política instituída em 2010, com cerca de 25 estudantes indígenas acolhidos desde então por meio da seleção diferenciada. 
O programa aponta ainda que essas conquistas influenciaram a Resolução 010/2016 da UFAM, que trata da obrigatoriedade de políticas afirmativas na pós-graduação e faculta o uso da própria língua na produção acadêmica. 
Nesse sentido, a defesa de 2025 funciona como o que toda política pública madura deveria produzir: não um “evento”, mas um marco de etapa, capaz de mostrar que ações afirmativas não são apenas reparação histórica — são também inovação institucional e expansão das fronteiras do conhecimento.
BOX – IBGE: por que a Amazônia é o centro dessa virada
• O Censo 2022 registrou 1.693.535 pessoas indígenas no Brasil (0,83% da população).
• 51,25% dessa população vive na Amazônia Legal (cerca de 867,9 mil pessoas).
• O Amazonas é o estado com maior número absoluto de indígenas (490,9 mil), seguido da Bahia (229,1 mil).
• Manaus é o município com maior população indígena do país (71,7 mil). Na sequência aparecem São Gabriel da Cachoeira (48,3 mil) e Tabatinga (34,5 mil) — ambos no Amazonas.
Esses números ajudam a explicar por que uma transformação desse tipo tende a ganhar corpo primeiro aqui: a Amazônia não é periferia do Brasil indígena. Ela é o seu centro demográfico — e também um dos seus centros epistemológicos.
Alto Rio Negro: território onde conhecimento é geografia
A tese se ancora no Alto Rio Negro — uma região cuja complexidade cultural e linguística é descrita por organizações de referência como o Instituto Socioambiental (ISA). O ISA contextualiza a região a partir do sistema hidrográfico do Rio Negro e seus grandes afluentes, como o Içana e o Uaupés, além de registrar que a população indígena local constitui “pelo menos 90% do total” da região. 
Essa referência importa porque impede um erro comum do debate nacional: tratar o pensamento indígena como “minoritário” no território amazônico. Em partes decisivas da Amazônia, ele é majoritário, estruturante e cotidiano — e é justamente por isso que a universidade, quando se aproxima com humildade metodológica, tem muito a aprender.
NEAI: o laboratório vivo dessa transformação
O marco também dialoga com o trabalho do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI), descrito como um grupo que reúne professores e estudantes vinculados ao PPGAS/UFAM, com presença especial de estudantes e pesquisadores indígenas, voltado à produção de conhecimento para compreender a complexa realidade cultural amazônica. 
Na estrutura do PPGAS, o NEAI aparece como núcleo que congrega pesquisadores e desenvolve pesquisas e extensão sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, promovendo reflexividade sobre o lugar do conhecimento tradicional frente ao conhecimento universitário. 
Se a defesa é o símbolo, o NEAI é parte do mecanismo: o lugar onde se forma repertório, se disputam categorias e se constroem pontes reais — sem diluir diferenças.

