UEA forma primeira turma de professores indígenas do Vale do Javari

Solenidade aconteceu em Atalaia do Norte, no interior do estado, e reuniu 34 formandos das etnias Marubo, Matis, Matses e Kanamari.

Por g1 AM

A primeira turma de professores indígenas da Terra Indígena Vale do Javari, no interior do Amazonas, colou grau na sexta-feira (16). A solenidade aconteceu em Atalaia do Norte, no interior do estado, e reuniu 34 formandos das etnias Marubo, Matis, Matses e Kanamari. A terra indígena fica na fronteira com Peru e Colômbia e concentra o maior percentual de indígenas isolados no país. 

O curso de Pedagogia Intercultural Indígena foi oferecido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), primeira instituição do país a oferecer esse tipo de formação. 

Primeira turma de Indígenas pela UEA

“Hoje é dia de festa. Não me recordo, ao longo de meus anos como professora na UEA, de um momento tão especial e emocionante como esse. É muito bonito ver a alegria estampada nos rostos de todos vocês. Estamos formando profissionais que se dedicaram arduamente e que, a partir de agora, levarão o nome da UEA para as suas comunidades. Essa é a nossa missão”, disse a vice-reitora da instituição, Kátia Couceiro.

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34 alunos se formaram. — Foto: Divulgação/UEA

Da etnia Kanamari, José Ninha Tavares, de 49 anos, explicou que a vontade de querer ser professor surgiu da necessidade que seu povo tem na área da educação. Segundo ele, os conhecimentos não-indígenas são totalmente diferentes da realidade das comunidades, o que acaba dificultando o aprendizado. 

“Precisamos valorizar e fortalecer o que é nosso, pois o aluno precisa entender, primeiramente, o seu próprio mundo para, depois, descobrir novos conhecimentos. Por isso, é importante assumirmos o papel de educador”, pontuou Tavares, um dos mais emocionados durante a cerimônia de colação de grau.

Curso sem evasão

UEA
Segundo coordenadora do curso, não houve evasão durante as aulas. — Foto: Divulgação/UEA

Segundo a coordenadora do curso, Célia Bettiol, não houve desistências durante o curso, que iniciou com 35 alunos e terminou com 34 formandos, já que um aluno morreu durante a pandemia da Covid-19.

As aulas tiveram ênfase na língua própria de cada etnia e o uso do português como segundo idioma. Também foram utilizados materiais didáticos específicos com o objetivo de contemplar o fortalecimento dos saberes tradicionais. 

“Para escolas indígenas, professores indígenas. Essas escolas são interculturais, bilíngues, específicas de um povo. Por isso é tão importante ter professores indígenas formados que possam cuidar do processo pedagógico e fazer a diferença no sentido de dialogar os conhecimentos da sociedade com os saberes de seu próprio povo”, explicou.

Etnias e a educação

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Terra Indígena concentra o maior percentual de povos isolados no país. — Foto: Divulgação/UEA

Os professores indígenas das etnias Marubo, Matis, Matses e Kanamari são povos que tiveram o contato com a sociedade nacional intensificado a partir da década de 1970. A escolarização desses povos teve início a partir do final da década de 1980.

Na década de 1990, começou a ser ofertado o curso de formação em níveis fundamental e médio, oferecido pela Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Naquele período, os alunos tiveram suas formações interrompidas por conta de uma pandemia de Cólera e Hepatite Delta que afetou todo o território do Vale do Javari. 

Durante a pandemia de Covid-19, na última etapa antes do encerramento do curso de nível superior, as aulas foram suspensas em respeito às medidas de biossegurança. Neste período, o curso esteve em luto pela perda do aluno Benedito Marubo, o primeiro professor indígena de seu povo e sábio conhecedor do Vale do Javari.

O texto foi publicado originalmente em g1 AM

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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