Tragédias ambientais e Mudança Climática – Entrevista com Paulo Artaxo

O clima do mundo vem sofrendo alterações muito significativas ao longo do último século. Após o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU), no ano passado, desapareceu a dúvida sobre se o aquecimento global era algo natural, ou se foi a humanidade que acelerou esse processo de maneira avassaladora: o relatório nos deu não apenas a certeza da responsabilidade humana do evento, mas também a urgência de remediar o quanto antes a situação enquanto estamos começando a sofrer suas consequências.

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Diante dessa série de eventos trágicos no verão do Brasil deste ano, o portal BrasilAmazôniaAgora entrevistou um dos maiores expoentes científicos do mundo quando o assunto é a mudança do clima. Detentor de um currículo imenso e robusto, Paulo Artaxo é doutor em física atmosférica pela USP, tendo já trabalhado na NASA e lecionado em Havard. Hoje é membro do IPCC, órgão das Nações Unidas para a mudança climática.

BrasilAmazôniaAgora – Paulo, você entende que os eventos climáticos extremos, como esses que tem acontecido neste verão pelo Brasil afora, fazem parte da dinâmica normal do clima, ou são demonstrações do acirramento da mudança climática?

Paulo Artaxo– Não há a menor dúvida que a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos estão aumentando não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Isso é hoje muito bem documentado e foi previsto ao longo dos últimos 30 anos nos seis relatórios que o IPCC divulgou. Portanto, é muito conhecido da ciência, há décadas, que o acirramento das mudança climática iria provocar o aumento dos eventos climáticos extremos – tanto em frequência quanto em intensidade.

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Foto: Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro
BAA – O atual governo concedeu no ano passado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) o menor orçamento em muitos anos. Fora este cenário de desmonte dos órgãos ambientais e de fiscalização, é justificada essa redução?

P.A. É claro que o papel da redução do orçamento dos institutos de pesquisa, como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) faz parte de uma estratégia governamental de impedir a produção e a divulgação de dados científicos, e com isso, obviamente, eles não tem a condição de executar suas missões como unidades de pesquisa do MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações) com seus orçamentos absurdamente reduzidos com as quais eles tão tendo que sobreviver.

BAA – A questão enorme da mudança climática é evidente, mas ela apenas pode ser justificativa para esses cada vez mais frequentes desastres? O que mais faz parte dessa equação?

P.A. – A questão da crise habitacional é um dos ingredientes importantes, particularmente em Petrópolis, porque evidentemente você permitir que pessoas de baixa renda vivam em áreas de risco e possam ter a sua vida, e de sua família, colocada em risco é realmente um crime contra essa população, no Brasil como um todo.

BAA – O desmatamento na Amazônia alcançou patamares assustadores, tendo voltado a aumentar nos últimos 3 anos depois de anos em declínio. Qual a relação disso com a crises hídrica e com os eventos na Bahia e no Sudeste do Brasil?

P.A. As tragédias desse verão não estão diretamente associadas ao desmatamento da Amazônia. Mas estão associadas ao aquecimento global! Não podemos esquecer que 80% das emissões de gases do efeito estufa são devido a queima de combustíveis fósseis, enquanto que as emissões decorrentes da queima de florestas tropicais correspondem a cerca de 20% – senda da Amazônia 14% desse total. Então o maior culpado não é a Amazônia, é a queima de combustíveis fósseis, principalmente pelos países desenvolvidos.

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Desmatamento na Amazônia – foto: Mauro Pimentel

Agora, evidentemente, a Amazônia tem sim uma contribuição importante nas emissões de gases de efeito estufa, sobretudo se continuarmos aumentando o desmatamento.

Paulo Artaxo professor do Instituto de Fisica da USP e integrante do Painel Intergovernamental de Mudancas Climaticas IPCC Foto Rogerio Albuquerque
O professor Paulo Artaxo (Foto: Rogério Albuquerque)

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Paulo Artaxo
Paulo Artaxo
Paulo Artaxo é físico e climatologista, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas em mudanças climáticas e química atmosférica no mundo. Sua pesquisa foca nos impactos das emissões de aerossóis e gases na Amazônia e no clima global. Artaxo integra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e diversas iniciativas científicas internacionais. Ao longo de sua carreira, recebeu prêmios e reconhecimentos por suas contribuições à ciência do clima e à preservação ambiental.

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