O Técnico Já Chegou Lá. E o Bacharel?

Há uma pergunta incômoda que paira sobre os corredores das universidades e faculdades do Brasil e do mundo: para que, afinal, estamos formando nosso bacharel em ciência, tecnologia e inovação? Se a resposta honesta for “para conseguir um bom emprego”, então temos um problema sério — não porque empregar-se seja algo menor, mas porque esse objetivo, quando é o teto da formação, produz profissionais incapazes de navegar o mundo que já existe.

A transformação tecnológica em curso não é apenas mais uma onda de automação. É uma ruptura estrutural. A inteligência artificial já executa tarefas que, há dez anos, eram consideradas exclusivamente humanas — análise de dados, diagnóstico, geração de código, síntese de informação.

O técnico especializado opera com maestria crescente dentro do seu domínio — pode configurar infraestruturas críticas, desenvolver sistemas embarcados, treinar modelos de aprendizado de máquina. E é exatamente aí que a questão da formação superior precisa ser reimaginada: se o técnico já executa com excelência, o que justifica o bacharel?

BACHAREL
Foto divulgação

Para entender o que precisa mudar, é necessário primeiro separar com clareza dois perfis profissionais que o sistema insiste em confundir — e que o mercado começa a cobrar com exigência crescente.

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Proponho aqui um termo para nomear essa nova competência central: mentofatura. Da fusão entre mente e manufatura, a mentofatura designa a capacidade de fabricar valor a partir do conhecimento — não do conhecimento isolado de uma disciplina, mas do conhecimento articulado entre múltiplas dimensões: técnica, econômica, social, regulatória, ética.

A mentofatura não é erudição superficial, nem o velho e mal compreendido saber um pouco de tudo. É uma habilidade específica e trainável: a de fazer perguntas inteligentes fora da própria área, de identificar quando um problema técnico tem raiz cultural ou econômica, de saber integrar expertises que, isoladas, não chegam a lugar nenhum.

Num ambiente onde a IA já executa com eficiência crescente as tarefas técnicas mais estruturadas, o diferencial humano deixa de ser a execução e passa a ser a contextualização. Quem decide o que deve ser feito, por que e com que impacto? Essa é a pergunta que o bacharel formado para a mentofatura deve estar equipado para responder.

Antes de avançar, é preciso desfazer um equivoco que costuma surgir nesse ponto da discussão: a proposta da mentofatura não é transformar a universidade numa incubadora de startups, nem inserir “empreendedorismo” como disciplina obrigatória no currículo.

O empreendedorismo não é um conteúdo a ser ensinado. É uma consequência natural da transversalidade do conhecimento. Quando um profissional é formado para enxergar sistemas, articular competências, identificar gargalos e construir pontes entre domínios diferentes, ele desenvolve automaticamente a capacidade de criar — seja dentro de uma grande organização, seja num projeto próprio, seja no setor público. A visão empreendedora emerge da amplitude de formação, não de uma aula sobre como montar um pitch.

Isso significa que o bacharel formado para a mentofatura pode muito bem passar toda a carreira como profissional contratado — e ainda assim ser profundamente diferente do bacharel que o modelo atual produz. A diferença não está em abrir empresa. Está em ter autonomia intelectual, visão sistêmica e capacidade de gerar valor onde quer que esteja.

Os currículos de graduação em ciência e tecnologia são, em sua maioria, organizados em silos disciplinares. O aluno aprende banco de dados em um semestre, redes em outro, gestão de projetos em um terceiro — mas raramente alguém o ensina a enxergar como essas peças se conectam num problema real. A formação é linear onde deveria ser sistêmica. É compartimentada onde deveria ser integradora.

Pior: os indicadores de sucesso institucionais ainda medem empregabilidade. Quando o termômetro de uma instituição é ‘o aluno conseguiu emprego ao se formar’, o currículo inevitavelmente se orienta para esse fim. Forma-se o executor, não o integrador. Forma-se o preenchedor de vagas, não o criador de soluções que o mercado ainda não sabe que precisa.

Mudar a formação sem mudar os incentivos institucionais é reformar a fachada sem tocar na estrutura. Gestores de ensino, formuladores de políticas públicas e financiadores privados precisam entender que os próprios indicadores que usam para avaliar qualidade educacional são, em parte, responsáveis pelo problema que querem resolver.

A proposta não é abolir a profundidade técnica na graduação — é reposicionar o papel do curso superior dentro de um ecossistema mais inteligente de formação. Nesse ecossistema, o curso técnico faz o que faz de melhor: forma o executor sofisticado, com destreza e objetividade dentro do seu domínio, inclusive no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial.

A graduação, por sua vez, deve assumir uma missão distinta: desenvolver o profissional capaz de articular esses saberes, de tornar viáveis os investimentos, de construir pontes entre o que é tecnicamente possível e o que é economicamente sustentável, socialmente legítimo e estrategicamente relevante. Para isso, disciplinas como economia aplicada, design de sistemas, ética tecnológica, análise regulatória e liderança colaborativa não podem ser eletivas periféricas — precisam ser eixos estruturantes do currículo.

Quando essa transversalidade é genuinamente construída ao longo da formação, o empreendedorismo surge como subproduto natural — não porque o aluno foi ensinado a empreender, mas porque passou quatro ou cinco anos aprendendo a enxergar oportunidades onde outros veem apenas problemas, e a articular recursos onde outros veem apenas limitações.

Para o mercado corporativo e para os investidores, a questão é direta: projetos tecnológicos falham com muito mais frequência por razões sistêmicas do que por razões técnicas. Falham porque ninguém soube traduzir a solução técnica em linguagem de negócio. Falham porque a equipe foi montada com especialistas que não dialogavam. Falham porque o contexto regulatório não foi lido a tempo. Falham porque a viabilidade econômica foi avaliada por alguém que nunca foi treinado para isso.

O bacharel formado para a mentofatura é exatamente o profissional que reduz essa taxa de falha sistêmica. Não porque saiba tudo, mas porque sabe perguntar o que não sabe, integrar o que outros sabem e comunicar o que precisa ser decidido. Esse é um ativo estratégico escasso — e continuará sendo, precisamente porque a IA não substitui esse papel. Ao contrário: ela o torna mais necessário.

A educação superior em ciência, tecnologia e inovação tem diante de si uma bifurcação. Pode continuar reproduzindo o modelo que a gerou — formando executores com diploma, para um mercado que a IA está reconfigurando — ou pode dar o salto que o momento histórico exige: formar o integrador sistêmico, o articulador de competências, o profissional que faz a mentofatura acontecer.

Essa escolha não é apenas pedagógica. É política, econômica e civilizatória. As instituições e os países que entenderem isso primeiro terão uma vantagem que não é apenas produtiva — é de capacidade de agência sobre o próprio futuro tecnológico.

A mentofatura não é um luxo de elite intelectual. É a competência que vai determinar quais sociedades conseguem transformar tecnologia em desenvolvimento humano real — e quais ficam presas na posição de executoras de soluções concebidas por outros.

Estevao Monteiro de Paula
Estevao Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.

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