Se o gelo marinho desaparecer por completo, isso equivalerá ao aquecimento gerado por 25 anos de emissões de dióxido de carbono; para mudar esse cenário, empresas como a Real Ice já pesquisam alternativas
Uma estimativa recente revelou aos cientistas que, com a continuidade do aquecimento global cada vez mais intenso, o primeiro dia sem gelo no Ártico poderá ocorrer antes de 2030 — ou seja, em apenas cinco anos.
O histórico não é promissor. Desde 1979, quando começaram os registros por satélite, as temperaturas no Ártico aumentaram quase quatro vezes mais rápido do que a média global. A extensão do gelo marinho diminuiu cerca de 40%, e o gelo mais antigo e espesso sofreu uma queda alarmante de 95%.
Em busca de mudar esse cenário, a Real Ice, uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido, adotou como sua missão preservar essa paisagem em desaparecimento. Para isso, sua equipe de pesquisadores passaram a utilizar uma nova tecnologia que tem se mostrado capaz de regenerar o gelo marinho já perdido.
A inovação consiste em uma bomba movida a hidrogênio, que é inserida em uma perfuração no gelo. A bomba começa a sugar água do mar por baixo do gelo e a lançá-la na superfície, inundando a área com uma fina camada de água. Durante a noite, essa água irá congelar, engrossando ainda mais a camada existente.
O trabalho da Real Ice está no centro de um debate crucial sobre como mitigar os danos causados pelo aquecimento global, e se intervenções climáticas como essa podem causar mais mal do que bem.
Impactos do derretimento do gelo marinho
A perda do gelo marinho tem consequências muito além do Ártico. Segundo reportagem do portal Grist, atualmente, a vasta e branca extensão de gelo reflete cerca de 80% da energia solar de volta ao espaço. Sem ela, o oceano escuro e aberto absorve esse calor, aquecendo ainda mais o planeta.
De acordo com o Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia em San Diego, se o gelo marinho desaparecer por completo, isso equivalerá ao aquecimento gerado por 25 anos de emissões de dióxido de carbono.
As implicações para os padrões climáticos globais também são enormes: a diminuição da cobertura de gelo já está alterando as correntes oceânicas, aumentando a frequência de tempestades e enviando ar mais quente e seco para a Califórnia, o que contribui para o aumento de incêndios florestais.
No próprio Ártico, a perda de gelo representa a perda de habitat e de segurança alimentar para os animais, microrganismos e comunidades indígenas que dependem diretamente dele para sobreviver.
A solução é viável para recuperar o gelo do Ártico?
Entre os críticos dessa tecnologia, o argumento é de que o processo não é escalável. “Os números simplesmente não fecham”, diz Martin Siegert, glaciologista britânico e ex-co-presidente do Grantham Institute for Climate Change.
Ele destacou o tamanho do Ártico — em média, 3,9 milhões de milhas quadradas de gelo marinho — e quantas bombas seriam necessárias para congelar mesmo que apenas 10% dessa área. Mais importante ainda: quem vai pagar por isso?
Segundo Andrea Ceccolini, co-CEO da Real Ice, os modelos da equipe preveem que 500 mil bombas poderiam recongelar cerca de 386 mil milhas quadradas de gelo marinho por ano — uma área equivalente à metade do tamanho do Alasca. Cada uma teria o custo de cerca de U$5,000 dólares.
Assumindo que o gelo espesso dure por vários anos e que as áreas-alvo sejam alternadas anualmente, Ceccolini calcula que a tecnologia poderia manter os atuais níveis de gelo marinho no verão, em torno de 1,63 milhão de milhas quadradas.
“A humanidade já fez coisas muito maiores, muito mais complexas do que isso”, garante ele.
Debate ético
Além de questionar se podemos mesmo recuperar o gelo marinho a partir de uma tecnologia como essa, muitos ainda debatem não se uma solução como essa pode ser feita, mas se ela deve ser feita.
A opinião dos Inuítes, povos locais da região ártica, está dividida. Entre os entrevistados pela equipe do Grist, um apoia a iniciativa da Real Ice, enquanto outro afirma que a tecnologia não está alinhada com os valores indígenas e expressa preocupação com os possíveis danos de sua ampliação.
Eles apontam que novas infraestruturas no Ártico historicamente trouxeram forasteiros, muitas vezes homens, acompanhados de um aumento nos casos de agressão física e sexual contra mulheres indígenas, muitas das quais acabam desaparecidas ou assassinadas.
Ceccolini e Cian Sherwin, o outro CEO da organização, declaram que estão cientes desses riscos e deixam claro que qualquer expansão da tecnologia será feita em parceria com a comunidade local. Eles esperam que, futuramente, o projeto seja gerido pelos próprios povos indígenas.
Aqueles que apoiam as estratégias de intervenção climática ressaltam que, embora a descarbonização seja essencial para preservar o gelo marinho e frear o aquecimento global, ela está avançando muito lentamente e há uma falta de vontade política. Assim, tecnologias como as desenvolvidas pela Real Ice poderiam nos comprar mais tempo.
Paul Beckwith, analista de sistemas climáticos da Universidade de Ottawa, defende uma abordagem em três frentes: eliminar os combustíveis fósseis, remover o dióxido de carbono da atmosfera e proteger o Ártico.
“A conversa não deveria ser sobre escolher uma frente em detrimento das outras, e sim sobre como executar as três ao mesmo tempo”, disse Sherwin.
“Infelizmente, estamos em uma posição em que, se não protegermos e restaurarmos os ecossistemas, enfrentaremos o colapso.”