A nova técnica para extrair e reciclar ouro de lixo eletrônico oferece uma alternativa sustentável ao uso de substâncias altamente tóxicas como o mercúrio e o cianeto, comumente utilizados na mineração tradicional
Cerca de 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram geradas pelos seres humanos em 2022, volume equivalente a mais de 1,5 milhão de caminhões de lixo. Até 2030, esse total deverá alcançar 82 milhões de toneladas. Esse tipo de resíduo inclui itens como celulares e laptops antigos, que contêm materiais valiosos, como o ouro. No entanto, menos de 25% desse volume é atualmente coletado e reciclado de maneira adequada.
Com o objetivo de transformar esse cenário, uma nova técnica foi desenvolvida para extrair e reciclar ouro do lixo eletrônico de forma segura e sustentável, oferecendo uma alternativa mais eficiente e menos prejudicial ao meio ambiente.
Descrita em um artigo publicado na revista Nature Sustainability no último sábado (28), a nova técnica de extração de ouro oferece uma alternativa sustentável ao uso de substâncias altamente tóxicas como o mercúrio e o cianeto, comumente utilizados na mineração tradicional. A abordagem emprega ácido tricloroisocianúrico ativado com água salgada e um polímero rico em enxofre, que é derivado de resíduos da indústria do petróleo. Esse método permite a solubilização do ouro e sua posterior recuperação de maneira seletiva.
Além disso, o processo é concebido dentro do princípio da economia circular: a água utilizada é reciclada, e os reagentes químicos são regenerados para uso contínuo.
Para os pesquisadores, essa inovação tecnológica representa um avanço não apenas ambiental, mas também social e econômico. Ao oferecer uma alternativa segura e sustentável, o novo método pode substituir o uso de mercúrio entre os milhões de garimpeiros artesanais que hoje dependem dessa substância tóxica, muitas vezes em condições precárias de trabalho e com sérios riscos à saúde.
A técnica tem o potencial de impulsionar a reciclagem de lixo eletrônico, que cresce rapidamente, e ao mesmo tempo reduzir a pressão sobre a mineração primária, diminuindo os impactos ambientais da extração de recursos naturais.
Os próximos passos envolvem a realização de testes em maior escala por meio de parcerias com governos, empresas privadas e organizações sociais. Embora ainda existam desafios relacionados ao custo de implementação e à produção em escala industrial, os resultados preliminares são considerados promissores pelos cientistas. Se bem-sucedido, esse método pode transformar a forma como o ouro é recuperado e contribuir significativamente para uma cadeia produtiva mais limpa e justa.