Quem dera fosse assim tão fácil

Precisamos fugir desta armadilha de soluções fáceis para problemas complexos, de unguentos ou super-heróis. Quem não sabe por qual razão pode simplesmente ignorar. Se quiser entender minimamente a razão disso, convém ler a história de qualquer era e local, desde que envolva a ascensão e a queda de uma sociedade.

Augusto César Barreto Rocha
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Augusto César é Professor da UFAM

A velocidade da internet criou um hábito de imediatismo e facilidade. Temos uma dúvida, colocamos a pergunta para um buscador e vem a resposta. Em grupos de WhatsApp, compartilhar mensagens falsas e verdadeiras de soluções para os mais diversos problemas as vezes dão a impressão da verdade para os leitores pouco atentos. São textos breves que agem da mesma forma dos unguentos do camelô desonesto: passou o unguento, resolvido está – certamente pelo efeito do placebo e não pela química.

Efeito placebo 

Estamos em uma fase onde há unguento para a gestão pública, privada e para toda o tipo de problemas. São placebos diversos, que servirão para a Covid-19 em diante, para a falta de recursos públicos, para a falta de competência, para a inflação ou qualquer outro tema. Colocou o unguento fulano, está resolvido. Se fizer tal qual aquela solução fácil e rápida, pronto – tudo resolvido. 

Solução Super-herói 

Entretanto, quando passa algum tempo, as evidências demonstram que não funcionam, mas grande parte das pessoas seguem a acreditar no unguento, no camelô ou no super-herói que apresentar o mais novo produto que cure todos os males, como se ele existisse.​ Quem dera o mundo fosse assim tão simples e os problemas fossem fáceis de resolver: não teríamos doenças, pobrezas ou infelicidade. A realidade do que ignoramos é muito mais complexa e nada no mundo é simples. 

As aparências enganam 

Por trás dos buscadores de internet há matemática, álgebra, eletrônica, eletricidade, telecomunicações, softwares, computadores e uma enormidade de elementos extremamente complexos que levam a esta facilidade. Não podemos esquecer: as aparências enganam. Normalmente por trás de qualquer facilidade há uma enorme complexidade. Tentar não enfrentar a complexidade é típico de quem despreza o outro e os conhecimentos de outros campos científicos diferentes do seu. Como se apenas o seu mundo fosse complexo e todo o resto fosse simples.​Fazer bolo é difícil, mas vender carros é fácil. Vender geladeira é difícil e trabalhar na bolsa de valores é fácil. Sempre o trabalho ou o conhecimento do outro é fácil, mas o nosso é difícil. Esta característica da falta de respeito com o outro e o conhecimento do outro é um mal que precisa ser combatido, sob a pena de sofrermos pelos problemas mais básicos como a água potável. Enfrentar o problema do saneamento, do lixo, do trânsito, da saúde, da segurança, da educação são questões de complexidade enorme. Não admitir isso é um equívoco. 

A construção coletiva é difícil

Os modelos de tributo, de educação, de saúde levaram séculos para serem construídos e podem levar segundos para serem destruídos. A construção coletiva é difícil. A destruição coletiva é fácil. É um desafio perceber quando você está sendo enrolado em uma destruição que não interessa.​Estamos no meio de um enfrentamento de uma reforma tributária que tem a capacidade de destruir a Zona Franca de Manaus. Não poderemos tratar isso como um problema trivial. Estamos no meio de uma onda de ações que podem destruir a floresta Amazônica: a nossa casa. Não poderemos tratar isso como um problema inexistente, fácil ou de solução rápida. Precisaremos fazer uma construção coletiva, sem renunciar aos conhecimentos passados, pois, mesmo com todo o conhecimento e os métodos científicos, são problemas de difícil solução. Se fosse fácil, já teriam sido resolvidos. Se erradicar a fome fosse fácil, isso já teria sido feito no mundo como um todo e assim por diante com os demais problemas das sociedades.

Fugir das soluções fáceis

Uma coisa me é clara: toda vez que atacamos as pessoas e não as propostas ou propomos soluções simples para problemas complexos, nos afastando do núcleo do debate, do problema real e do diagnóstico das causas e uma proposta de solução, com método claro, experimentado ou experimentável, normalmente há interesses não confessáveis movendo aquela postagem do WhatsApp. Quem dera o mundo fosse tão simples como tentam nos induzir os breves posts das máquinas de gerar discórdias, ao invés de buscar convergências e evoluções passo a passo, sem renegar os aprendizados, com os acertos e os erros do passado. Precisamos fugir desta armadilha de soluções fáceis para problemas complexos, de unguentos ou super-heróis. Quem não sabe por qual razão pode simplesmente ignorar. Se quiser entender minimamente a razão disso, convém ler a história de qualquer era e local, desde que envolva a ascensão e a queda de uma sociedade.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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