Promessa de campanha: “Vou arrumar a casa!” – Parte I

O verbo arrumar remete ao ato de imprimir rumo a uma realidade, organização ou qualquer conglomerado humano formalmente estabelecido. O verbo também implica na contratação do caos naquela circunstância. Ora, para assegurar padrões razoáveis de acertos nessa arrumação, é necessário entendermos porque o caos ou a desordem foi instalada. Só assim as providências da arrumação, tendo presente os fatores que levaram ao caos, podem assegurar a permanência da ordem. Em outras palavras, arrumar com seriedade implica em planejar a perenidade de arrumação, garantindo as premissas e as exigências de manutenção dessa nova ordem.

Algumas manifestações

Na edição desta semana a Coluna Follow-Up vai abordar significados, expectativas e prioridades em torno do verbo arrumar e sua transformação em promessa de campanha e eixo de conduta da nova governança estadual. Por isso, priorizamos perguntar a alguns atores do setor privado – aqueles que asseguram a base material dos empreendimentos – o que eles entendem e esperam de tudo isso. Afinal, esta foi a promessa central do governador eleito, Amazonino Mendes, que usou a conjugação do verbo na primeira do plural:  “vou arrumar a casa”! Trata-se de um mandato tampão definido nas eleições de dois turnos em agosto último.

Planejamento e gestão

Açoitado por uma crise sem precedentes e travado por batalhas judiciais e incessantes de seus governos, o Amazonas insensato e fragmentado, tem sido corroído por conflitos políticos e preguiça cívica. E, por isso, mergulhou na anomia, vazia de administração, seus reflexos dispersivos em todas as direções. Dois acontecimentos, porém, e apenas, destoaram dessa navegação desnorteada: um deles foi a escolha de uma equipe interinstitucional para o planejamento, capitaneada por Jorge Nascimento Júnior, que agregou adesão de setor público estadual e federal, com anuência do setor privado. Um de seus feitos, entre tantas virtudes, foi assumir a briga do PPB, quando na Suframa, e transformar, em compromisso do Estado, o protagonismo dessa briga sanguinolenta. E, no contexto desses avanços, o Estado acolheu a leitura de novas saídas, alinhando academia e gestão no âmbito da Universidade do Estado do Amazonas, no desafio de desnudar novos rumos para a Economia, e oferecer roteiros para a ‘stultifera navis’, aqui traduzida, na linguagem cotidiana, por catraia sem rumo. À ausência desses dois fatores, planejamento e gestão, estão na raiz da desarrumação.

Nelson Azevedo

A crise nos desequilibrou a todos, sobretudo pelos abalos do desemprego e da perda da qualidade de vida. Por isso, cada centavo precisa ser bem gasto. Reduzir as filas da saúde, ao mesmo tempo que é preciso verificar a gestão das verbas da saúde. A palavra de ordem é gastar com transparência e competência. As vacas já não estão gordas e a proteína anda escassa.

A educação e a segurança merecem atenção semelhante. Prestigiar professores e policiais, recuperar a autoestima dessas categorias é fundamental. É preciso, porém, enxugar despesas para aumentar o investimento. Emprego recupera a moral do cidadão. E o que é melhor: espalha benefícios pra toda família. Para isso, precisamos reduzir encargos e burocracia para permitir novos postos de trabalho. Com isso, arrumamos a casa coletivamente para sair da crise com vigor e determinação. Não queremos privilégios, mas também não precisamos de tanta formalidade e atrapalhação. Todos queremos e sabemos trabalhar.

Nossa especialidade é gerar emprego, imposto e crescimento. Entretanto, precisamos ser ouvidos. Temos recolhido muito imposto para gerar riqueza, novos negócios e vemos esses recursos serem queimados num custeio obscuro. Não é possível que um estado com tantas oportunidades esteja encolhendo sua capacidade de gerar riqueza.

Augusto César Barroso

“Vamos arrumar a casa!” E isso é uma ação coletiva. Como diria Shakespeare, é muito barulho (quem dera fosse “por nada”), e o que vivemos está muito longe de ser uma comédia. Todavia, a problemática poderia ser uma comédia, mas assemelha-se mais a uma tragédia. Muito se fala sobre corte de custos e maneiras de interromper os incontáveis roubos e desperdícios país a dentro e a fora. Mas, pouco ou nada é falado sobre como se gera riqueza para sairmos da crise que teima em não deixar a nossa vida. É preciso enfrentar a verdade e reconhecer que existe crise e um conjunto de erros cometidos. Sem a admissão deste fato é difícil que a sociedade aceite virar a página. Todos declaram que não há crise, mas ninguém assume o erro, como se ninguém tivesse errado, mas o que não falta é flecha, nem bambu. Há mocinhos por todos os lados e todos entendem que estão certos.

É necessário arrumar a casa. Para isso é preciso aceitar que ela está bagunçada. É preciso produzir e, para isso, é preciso se reconhecer que é difícil ou mesmo impossível produzir. Há excesso de burocracia e pouca ou nenhuma preocupação com o bom uso do recurso em todos os lados. O olhar é voltado para o corte e para o erro e não há olhares para os acertos e os movimentos necessários.

Por que há tanta corrupção? Por que é muito difícil fazer as coisas da maneira correta. Por que há tão pouco investimento produtivo? Porque o juro é muito alto e não é necessário correr risco produzindo. Por que é tão difícil manter um negócio? Porque não há demanda constante e o alto custo fixo corrói qualquer possibilidade competitiva. Por que transportar é caro? Porque não há infraestrutura abundante e segura. As perguntas e respostas são conhecidas. O que falta é um pouco de humildade para reconhecer: temos problemas e não são poucos.

O barulho chinês Bovespa está animadíssimo, porque começam a surgir sinais de oportunidades. Entretanto, o que vemos são empresas chinesas comprando operações brasileira. Desde 2015 a China já investiu mais de R$ 60 bi na aquisição de empresas nacionais em liquidação, nos setores de energia, baterias, engenharia, maquinário, automotivo, transporte, grãos, cibersegurança, mineração, financeiro, plásticos, imobiliário, portuário, aeroportuário e transporte aéreo. Com isso, é claro que o Real ficará forte (porque também há o ingresso de outros países… menciono apenas a China). Por isso a bolsa anima. Mas a produção não anima. Não agora. O país está em liquidação.

O dólar também se enfraquece. Bom para os EUA, que ficam mais competitivos para exportar. Este enfraquecimento é frente a uma cesta de moedas e não apenas frente ao real. E vamos que vamos, sem reconhecer que é um perigo uma quantidade tão grande de empresas trocando de mão para o capital estrangeiro. Por qual razão? Ora, porque o lucro irá para a China. É um negócio da china para a China.

Vamos usar a Amazônia para gerar riqueza. Precisamos romper a lógica de colônia e incentivar a produção e a geração de riqueza. A pauta tem que mudar do corte para a criação de riqueza. Tomara que isso aconteça antes de só termos empresas estrangeiras, porque aí será mais tarde e outra oportunidade terá sido jogada fora. Toda crise traz consigo uma oportunidade. Que saibamos aproveitar a oportunidade para criar riqueza e não para destruir. A Amazônia é um celeiro para isso.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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