“O caminho verde que o Brasil esqueceu de contar da BR-174”
Não foi em nome da preservação do bioma amazônico que nasceu a Zona Franca de Manaus. Contudo — e espero que isso já esteja suficientemente claro —, não fosse a ZFM, o mundo hoje não desfrutaria da Amazônia que ainda temos. Uma externalidade inesperada, mas preciosa, luminosa e real.
Da mesma forma, reivindicamos poder dizer algo semelhante sobre a BR-319. Assim como possuímos uma indústria que se tornou símbolo de externalidade ambiental positiva, nós, amazônidas, queremos erguer o troféu de proprietários da rodovia que será referência global em sustentabilidade.
Penso nisso ao ler a excelente reportagem da Revista Piauí, assinada por Bernardo Esteves e publicada no último fim de semana. Um catatau de quase 25 páginas que teve o mérito de ouvir uma ampla gama de vozes — pesquisadores e moradores do Amazonas, líderes de ONGs e, naturalmente, cientistas do Centro-Sul.
A matéria destacou três pesquisas. Uma concluiu que 90% dos desmatamentos na Amazônia ocorrem próximos a alguma rodovia. Outra construiu um modelo computacional “com uma série de parâmetros” para estimar que, se a BR-319 for asfaltada, o desmatamento até 2050 será quatro vezes maior que o atual.
Por ora, concentro-me nessas duas. Começo pelo equívoco lógico. Que 90% do desmatamento aconteça nas margens de estradas revela uma condição necessária, mas não suficiente. Para haver desmatamento, é preciso haver estrada. Mas a existência de estrada não implica, necessariamente, desmatamento.
Nós, amazonenses, sabemos disso por experiência direta. Um trecho exuberantemente preservado — e paradisíaco — da floresta está às margens da BR-174. Com todo respeito ao colega Britaldo Soares Filho, creio que seu modelo computacional partiu de uma premissa inadequada. O raciocínio contrafactual — “como seria a Amazônia se a BR-319 fosse asfaltada” — não se cumpre com rodovias como as citadas na reportagem, BR-163 e BR-364, que nem sequer passam pelo Amazonas, onde o Polo Industrial de Manaus atenua as pressões pelo desmatamento.
O contrafactual correto é a BR-174, o prolongamento da BR-319 que conecta Roraima ao restante do Brasil — e o Brasil, ao Caribe.
A terceira pesquisa mencionada é mais antiga, da área de engenharia de transportes, e comprova o que já sabemos: o frete aquaviário é a melhor opção, tanto financeiramente quanto ambientalmente. É verdade. Mas, justamente por essa razão, a matéria tenta desqualificar um argumento extremo contra o isolamento amazônico.
Durante a pandemia, se a BR-319 estivesse asfaltada, talvez a crise de oxigênio não tivesse sido tão devastadora. A reportagem, contudo, afirma — sem expor o raciocínio — que o oxigênio poderia ter chegado a tempo descendo o Rio Madeira. Lamentável omissão. Não se menciona que a dependência exclusiva de embarcações obriga as empresas locais a manter estoques elevados, reduzindo competitividade e aumentando custos. Só no ano passado, o estoque adicional subtraiu cerca de R$ 860 milhões da competitividade do Amazonas, para alimentar o velho rentismo.
E quando o transporte recorre aos aviões, o problema se agrava: é muito mais caro e intensifica as emissões de gases de efeito estufa.
Repito: o contrafactual da BR-319 é a BR-174. É preciso perguntar: como conseguimos manter preservadas as margens da BR-174? Terá sido graças à Reserva Waimiri-Atroari? Que se faça na BR-319 algo com a mesma efetividade!
A reportagem menciona que o DNIT possui o projeto de reconstrução, mas ainda não o divulga. Pois que o faça — e com urgência. Precisamos reivindicar com ênfase que esse projeto venha à luz, para que possamos examiná-lo, debatê-lo e propor melhorias.
É nosso direito. É o nosso troféu.