Pesquisadores estudam flor do Atacama para desenvolver plantas resistentes à seca

Flor do deserto do Atacama pode revelar pistas genéticas para criar plantas resistentes à seca e enfrentar os impactos das mudanças climáticas na agricultura global.

No deserto do Atacama, no norte do Chile, uma flor pode revelar caminhos para criar plantas resistentes à seca diante da crise climática global. A Cistanthe longiscapa, conhecida como “pata de guanaco”, sobrevive em um dos ambientes mais secos do mundo e floresce apenas quando raras chuvas transformam o solo árido em um tapete colorido de rosa e lilás, fenômeno chamado Desierto Florido.

Paisagem árida do deserto do Atacama, no norte do Chile, sob céu limpo e solo rochoso. Por isso é ambiente ideal para impulsionar desenvolvimento de plantas resistentes à seca.
O Atacama é considerado o deserto mais seco do mundo, um dos ambientes mais hostis à vida vegetal. Foto: Marek Piwinick/Pexels

Pesquisadores da Universidade Andrés Bello estão decifrando o DNA da espécie. O objetivo é compreender os mecanismos genéticos que permitem à planta suportar longos períodos sem água e temperaturas extremas. A expectativa é que o estudo ajude a desenvolver variedades agrícolas mais tolerantes à escassez hídrica, uma das principais ameaças à segurança alimentar global.

“Com as mudanças climáticas, as secas se tornaram um dos maiores desafios para a agricultura, tanto no Chile quanto no mundo”, afirma Ariel Orellana, diretor do Centro de Biotecnologia Vegetal da universidade. Segundo ele, a pata de guanaco oferece um modelo para entender como as plantas se adaptam à falta de água.

O Chile é um dos países com maior estresse hídrico do planeta, segundo o Instituto de Recursos Mundiais (WRI). Estudos indicam que, até 2050, a região central — responsável por vinhos, frutas e carne — pode enfrentar secas mais severas, ameaçando a produção agrícola.

Um dos segredos da flor está em sua flexibilidade fotossintética. Durante períodos de seca, ela adota o mecanismo CAM (Metabolismo Ácido das Crassuláceas), que economiza água ao abrir os estômatos apenas à noite. Quando as condições melhoram, retorna à fotossíntese C3, mais comum entre as plantas. Essa alternância mostra uma adaptação genética altamente eficiente. 

Lavoura afetada pela seca representa os desafios da agricultura e a importância de desenvolver plantas resistentes à seca
A escassez de água já compromete plantações em diversas regiões. Pesquisas buscam desenvolver plantas resistentes à seca para enfrentar esse cenário. Foto: Gustavo Mansur/ Palacio Piratini.

Para César Pizarro Gacitúa, chefe de conservação da biodiversidade da agência florestal CONAF, o estudo da espécie é valioso diante da crise climática. “Cada resposta pode representar uma esperança para o futuro das lavouras em tempos de crise climática”, afirma.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

III Fórum ESG Amazônia: o ensaio geral do Acordo UE–Mercosul — e a chance de o PIM chegar primeiro

Há momentos em que um evento deixa de ser evento e vira instrumento com metodologia. A preparação do III Fórum ESG Amazônia, conduzida por CIEAM e Suframa, pode ser esse raro intervalo em que o Polo Industrial de Manaus decide fazer o que o Brasil costuma adiar: antecipar-se. E antecipar-se, agora, não é virtude abstrata. É estratégia de sobrevivência e de disputa.

O Acordo União Europeia–Mercosul e o novo mapa das exigências: o que muda na prática para a ZFM

O acordo União Europeia–Mercosul não inaugura apenas um novo corredor de oportunidades comerciais. Ele inaugura, sobretudo, um novo mapa de exigências — um conjunto de filtros técnicos, ambientais, reputacionais e regulatórios que passa a funcionar como “alfândega invisível” do século XXI. A Zona Franca de Manaus, que historicamente se construiu como solução nacional para um problema regional, precisa agora se preparar como solução regional para um problema global.

Iniciativa para guardar o tesouro ancestral das línguas da Amazônia 

"Juliano Dantas Portela, manauara de 21 anos, une ciência...