Plano Clima: Governo retira desmatamento em áreas privadas da meta oficial do setor agropecuário

Governo cria nova categoria no Plano Clima para separar desmatamento em áreas privadas, medida pode afetar metas climáticas, rastreabilidade e a imagem do país no exterior.

Após forte pressão do agronegócio, o governo federal aprovou uma nova versão do Plano Clima, que altera a forma de alocação das emissões de gases de efeito estufa no país. A principal mudança foi a exclusão do desmatamento em propriedades rurais privadas da conta oficial do setor agropecuário. Esse tipo de emissão passa agora a integrar uma categoria específica dentro do plano nacional de descarbonização.

Na versão original, o desmatamento em áreas privadas era contabilizado junto às emissões agropecuárias, como o uso de fertilizantes e o metano liberado por rebanhos. A justificativa era de que grande parte da abertura de novas áreas está diretamente ligada à expansão de pastagens e lavouras. 

Com a mudança, a conta do agronegócio inclui apenas as emissões diretas das atividades produtivas, que somaram 643 milhões de toneladas de CO₂ em 2022. As projeções do governo indicam que esse volume poderá crescer até 1% até 2030 e variar, em 2035, entre uma redução de 7% e um aumento de 2%.

Já a supressão de vegetação nativa em áreas privadas, que respondeu por 352 milhões de toneladas de CO₂ em 2022, terá metas próprias, como a redução de 70% até 2030. Esse novo plano setorial será conduzido de forma conjunta pelos ministérios do Meio Ambiente, Agricultura e Desenvolvimento Agrário.

Reunião de autoridades com banner ao fundo indicando discussão sobre o Plano Clima.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

A nova organização também transfere as emissões de assentamentos rurais e territórios quilombolas para a categoria de desmatamento em terras públicas ou coletivas. Embora o redesenho alivie a pressão contábil sobre o agronegócio, os produtores seguem responsáveis por práticas de conservação, como a restauração de áreas degradadas e a manutenção de vegetação nativa.

Instrumentos como a Cota de Reserva Ambiental, que permite remunerar quem preserva além das exigências legais, devem ganhar protagonismo, ao lado do crédito rural verde, do mercado de carbono e de mecanismos internacionais como o Tropical Forests Forever Fund (TFFF).

Segundo o governo, a nova estrutura permitirá políticas mais específicas e efetivas. No entanto, a fragmentação das categorias pode dificultar o monitoramento e a responsabilização direta pelos desmatamentos. A expectativa é que os documentos complementares, que ainda serão publicados, tragam maior clareza sobre metas, indicadores e incentivos para cada setor.

Com oito categorias — agricultura e pecuária; energia; indústria; transportes; cidades; resíduos; mudança do uso da terra em áreas públicas ou coletivas; e mudança do uso da terra em áreas privadas — o Plano Clima adota uma lógica distinta da usada nas NDCs brasileiras. A forma como essa separação será interpretada por organismos internacionais e pelo mercado pode definir parte do sucesso ou fracasso do novo Plano Clima.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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