Enquanto absorvem calor e carbono, os oceanos enfrentam riscos ambientais e pressões econômicas que redefinem clima, segurança alimentar e soberania marítima.
Os oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra e sustentam parte decisiva do que torna o planeta habitável. Eles armazenam calor, absorvem carbono e mantêm cadeias ecológicas fundamentais para os seres humanos. Ao mesmo tempo, os oceanos guardam hoje uma infraestrutura estratégica: sob as águas passam cabos que carregam a internet global; no horizonte avançam turbinas eólicas e, no fundo do mar, cresce a disputa por recursos fundamentais para energia. Entenda qual a importância do maior bioma do planeta Terra.
A origem dos oceanos e do planeta azul
Para entender os oceanos, é preciso voltar ao período Hadeano, há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando a Terra era marcada por vulcanismo intenso e frequentes colisões com corpos celestes. A pergunta central sobre a origem dos oceanos e que permanece aberta na geociência é: de onde veio tanta água?
A ciência trabalha com duas hipóteses principais, possivelmente complementares. A primeira, chamada exógena, sugere que parte da água chegou por meio de asteroides e cometas ricos em gelo. Estudos recentes indicam que o impacto com Theia — corpo celeste associado à formação da Lua — pode ter enriquecido a Terra com elementos voláteis, como o hidrogênio, favorecendo a estabilização da água.
A segunda hipótese, endógena, aponta para uma origem interna. O interior do planeta pode ter armazenado hidrogênio em minerais desde sua formação. Com o resfriamento gradual da crosta, o vapor liberado por intensa atividade vulcânica teria se acumulado na atmosfera e precipitado em chuvas prolongadas, formando os primeiros mares.
Independentemente da origem exata, os oceanos alteraram a trajetória do planeta. Ao estabelecer condições físico-químicas, especialmente em ambientes como fontes hidrotermais profundas, que criaram condições favoráveis à biogênese, o surgimento da vida na Terra.
A vida no maior ecossistema do planeta
O oceano é o maior ecossistema do planeta e sua biodiversidade vai muito além de espécies visíveis. Mais da metade do oxigênio produzido na Terra vem do oceano, principalmente por organismos microscópicos. Entre eles destaca-se o Prochlorococcus, cianobactéria considerada o organismo fotossintético mais abundante do planeta e responsável por até 20% do oxigênio da biosfera.
Esse fitoplâncton também desempenha papel central na chamada bomba biológica de carbono, na qual parte do carbono capturado na superfície é transportada para camadas profundas, onde pode permanecer isolado por longos períodos. Assim, a biodiversidade microscópica conecta diretamente ecologia e clima.
A biodiversidade marinha também é estratégica do ponto de vista econômico. A biotecnologia azul explora compostos marinhos para aplicações farmacêuticas e industriais. Um exemplo é a Ziconotida (Prialt), analgésico derivado da toxina do caramujo-cone, utilizado no tratamento de dor crônica. Nesse contexto, explorar o oceano significa também disputar conhecimento, inovação e cadeias tecnológicas.
Ecossistemas costeiros como manguezais e pradarias marinhas acumulam grandes estoques de carbono, o chamado carbono azul, além de proteger o litoral contra tempestades e servir como berçários de espécies pesqueiras, com impacto direto na segurança alimentar.
O oceano como amortecedor climático
Na era do aquecimento global, o oceano atua como principal amortecedor térmico do planeta. Segundo o IPCC, ele absorve mais de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de gases de efeito estufa. Sem esse papel regulador, o aumento da temperatura atmosférica seria ainda mais intenso.
O custo desse processo, porém, é crescente. O aquecimento altera correntes marinhas, contribui para a elevação do nível do mar e pressiona cidades costeiras e pequenas ilhas. A expansão térmica da água, somada ao derretimento de geleiras, amplia riscos de deslocamentos populacionais e danos à infraestrutura.
A absorção de CO₂ também provoca acidificação, afetando corais e organismos calcificadores. A degradação de recifes compromete biodiversidade, pesca e turismo. Soma-se a isso a possível desaceleração da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), sistema que redistribui calor entre os trópicos e o Atlântico Norte. Alterações nessa dinâmica podem provocar mudanças abruptas nos regimes de chuva e na produção agrícola.
Esses fenômenos integram o debate sobre pontos de inflexão oceânicos, limiares a partir dos quais mudanças podem se tornar rápidas e irreversíveis, incluindo o colapso de correntes da AMOC, a perda de recifes e a aceleração do degelo polar na Groenlândia e Antártida.
A geopolítica dos oceanos
Os mares também são território estratégico. Pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, países exercem direitos sobre recursos em suas Zonas Econômicas Exclusivas, que podem se estender por até 200 milhas náuticas.
No Ártico, o recuo do gelo amplia o potencial de novas rotas comerciais entre Europa e Ásia, reconfigurando interesses estratégicos. No Brasil, o conceito de Amazônia Azul, uma área de cerca de 5,7 milhões de km², reforça a dimensão geopolítica do espaço marítimo nacional.
Em águas internacionais, a exploração de petróleo e a mineração de nódulos polimetálicos, ricos em níquel e cobalto, gera controvérsia. Enquanto parte dos países vê na atividade uma solução para suprir a demanda por minerais da transição energética, pesquisadores alertam para riscos ambientais ainda pouco compreendidos. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos registra que dezenas de países defendem uma moratória, evidenciando a falta de consenso global.
Inovação, energia e disputa por dados
O oceano abriga infraestrutura essencial à economia digital. Mais de 99% do tráfego intercontinental de dados depende de cabos submarinos. O aumento de rompimentos, riscos de sabotagem e tensões geopolíticas elevou a discussão sobre segurança e resiliência dessa rede invisível na agenda internacional.
Na transição energética, o mar também ganhou protagonismo. A eólica offshore avança rapidamente. Em 2024, a capacidade global instalada alcançou 79,4 GW, segundo a IRENA. A expansão movimenta cadeias industriais, fortalece infraestrutura portuária e se integra a projetos de hidrogênio de baixo carbono, posicionando o mar como eixo da descarbonização.
Outra fronteira envolve tecnologias de remoção de CO₂ com participação do oceano, como o aumento de alcalinidade marinha. Embora promissoras, essas soluções exigem pesquisa, regulação e avaliação de impactos, além de envolverem disputas sobre créditos de carbono e governança internacional.
O futuro do planeta azul
O oceano é frequentemente subestimado, mas sua participação no equilíbrio climático, na produção de oxigênio e na manutenção de cadeias alimentares é central. Nos próximos anos, a questão não será apenas quanto o mundo conseguirá extrair dos oceanos, mas se será capaz de preservar o sistema que sustenta o funcionamento climático e biológico do planeta.