Oceanos entram no debate sobre energia, clima e seus dados pessoais

Os oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra e sustentam parte decisiva do que torna o planeta habitável. Eles armazenam calor, absorvem carbono e mantêm cadeias ecológicas fundamentais para os seres humanos. Ao mesmo tempo, os oceanos guardam hoje uma infraestrutura estratégica: sob as águas passam cabos que carregam a internet global; no horizonte avançam turbinas eólicas e, no fundo do mar, cresce a disputa por recursos fundamentais para energia. Entenda qual a importância do maior bioma do planeta Terra. 

A origem dos oceanos e do planeta azul

Para entender os oceanos, é preciso voltar ao período Hadeano, há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando a Terra era marcada por vulcanismo intenso e frequentes colisões com corpos celestes. A pergunta central sobre a origem dos oceanos e que permanece aberta na geociência é: de onde veio tanta água?

Ilustração do período Hadeano mostra o impacto entre a Terra primitiva e um corpo celeste que pode ter influenciado a formação dos oceanos e da Lua.
Representação artística do Éon Hadeano. Foto: Tim Bertelink (CC BY-SA 4.0).

A ciência trabalha com duas hipóteses principais, possivelmente complementares. A primeira, chamada exógena, sugere que parte da água chegou por meio de asteroides e cometas ricos em gelo. Estudos recentes indicam que o impacto com Theia — corpo celeste associado à formação da Lua — pode ter enriquecido a Terra com elementos voláteis, como o hidrogênio, favorecendo a estabilização da água.

A segunda hipótese, endógena, aponta para uma origem interna. O interior do planeta pode ter armazenado hidrogênio em minerais desde sua formação. Com o resfriamento gradual da crosta, o vapor liberado por intensa atividade vulcânica teria se acumulado na atmosfera e precipitado em chuvas prolongadas, formando os primeiros mares.

Independentemente da origem exata, os oceanos alteraram a trajetória do planeta. Ao estabelecer condições físico-químicas, especialmente em ambientes como fontes hidrotermais profundas, que criaram condições favoráveis à biogênese, o surgimento da vida na Terra.

A vida no maior ecossistema do planeta

O oceano é o maior ecossistema do planeta e sua biodiversidade vai muito além de espécies visíveis. Mais da metade do oxigênio produzido na Terra vem do oceano, principalmente por organismos microscópicos. Entre eles destaca-se o Prochlorococcus, cianobactéria considerada o organismo fotossintético mais abundante do planeta e responsável por até 20% do oxigênio da biosfera.

Imagem de microscopia eletrônica de transmissão (MET) de Prochlorococcus marinus, microrganismo marinho responsável por parte da produção de oxigênio nos oceanos.
Microscopia eletrônica revela Prochlorococcus marinus, uma das cianobactérias mais abundantes dos oceanos e responsável por parcela significativa do oxigênio produzido no planeta. Crédito: Luke Thompson (Chisholm Lab) e Nikki Watson (Whitehead/MIT) – Flickr.

Esse fitoplâncton também desempenha papel central na chamada bomba biológica de carbono, na qual parte do carbono capturado na superfície é transportada para camadas profundas, onde pode permanecer isolado por longos períodos. Assim, a biodiversidade microscópica conecta diretamente ecologia e clima.

A biodiversidade marinha também é estratégica do ponto de vista econômico. A biotecnologia azul explora compostos marinhos para aplicações farmacêuticas e industriais. Um exemplo é a Ziconotida (Prialt), analgésico derivado da toxina do caramujo-cone, utilizado no tratamento de dor crônica. Nesse contexto, explorar o oceano significa também disputar conhecimento, inovação e cadeias tecnológicas.

Ecossistemas costeiros como manguezais e pradarias marinhas acumulam grandes estoques de carbono, o chamado carbono azul, além de proteger o litoral contra tempestades e servir como berçários de espécies pesqueiras, com impacto direto na segurança alimentar.

Peixes-donzela nadam em recife de corais na Baixa Califórnia do Sul, México, representando a biodiversidade dos oceanos.
Peixes-donzela em recife de corais na Baixa Califórnia do Sul ilustram a diversidade biológica dos oceanos e a importância desses ecossistemas para o equilíbrio marinho. Foto: Mauritius Images GmbH/Alamy.

O oceano como amortecedor climático

Na era do aquecimento global, o oceano atua como principal amortecedor térmico do planeta. Segundo o IPCC, ele absorve mais de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de gases de efeito estufa. Sem esse papel regulador, o aumento da temperatura atmosférica seria ainda mais intenso.

O custo desse processo, porém, é crescente. O aquecimento altera correntes marinhas, contribui para a elevação do nível do mar e pressiona cidades costeiras e pequenas ilhas. A expansão térmica da água, somada ao derretimento de geleiras, amplia riscos de deslocamentos populacionais e danos à infraestrutura.

A absorção de CO₂ também provoca acidificação, afetando corais e organismos calcificadores. A degradação de recifes compromete biodiversidade, pesca e turismo. Soma-se a isso a possível desaceleração da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), sistema que redistribui calor entre os trópicos e o Atlântico Norte. Alterações nessa dinâmica podem provocar mudanças abruptas nos regimes de chuva e na produção agrícola.

Mapa simplificado mostra a circulação global das correntes oceânicas que regulam o clima dos oceanos e do planeta.
Mapa da NASA ilustra o fluxo global das correntes oceânicas, sistema que redistribui calor pelos oceanos e influencia padrões climáticos em escala planetária. Foto: NASA.

Esses fenômenos integram o debate sobre pontos de inflexão oceânicos, limiares a partir dos quais mudanças podem se tornar rápidas e irreversíveis, incluindo o colapso de correntes da AMOC, a perda de recifes e a aceleração do degelo polar na Groenlândia e Antártida. 

Recife afetado por branqueamento de corais mostra impacto do aquecimento e da acidificação nos oceanos.
Branqueamento de corais evidencia os efeitos do aquecimento e da acidificação dos oceanos, fenômenos ligados à crise climática e à perda de biodiversidade marinha. Foto: Enric Sala.

A geopolítica dos oceanos

Os mares também são território estratégico. Pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, países exercem direitos sobre recursos em suas Zonas Econômicas Exclusivas, que podem se estender por até 200 milhas náuticas.

No Ártico, o recuo do gelo amplia o potencial de novas rotas comerciais entre Europa e Ásia, reconfigurando interesses estratégicos. No Brasil, o conceito de Amazônia Azul, uma área de cerca de 5,7 milhões de km², reforça a dimensão geopolítica do espaço marítimo nacional.

Em águas internacionais, a exploração de petróleo e a mineração de nódulos polimetálicos, ricos em níquel e cobalto, gera controvérsia. Enquanto parte dos países vê na atividade uma solução para suprir a demanda por minerais da transição energética, pesquisadores alertam para riscos ambientais ainda pouco compreendidos. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos registra que dezenas de países defendem uma moratória, evidenciando a falta de consenso global.

Equipamento de mineração em águas profundas ilustra a exploração de recursos minerais nos oceanos.
Equipamento de mineração em águas profundas. Foto: Reprodução/Richard Baron.

Inovação, energia e disputa por dados

O oceano abriga infraestrutura essencial à economia digital. Mais de 99% do tráfego intercontinental de dados depende de cabos submarinos. O aumento de rompimentos, riscos de sabotagem e tensões geopolíticas elevou a discussão sobre segurança e resiliência dessa rede invisível na agenda internacional. 

Mergulhador realiza manutenção de cabos submarinos responsáveis pela transmissão de dados nos oceanos.
Mergulhador realiza manutenção de cabos submarinos responsáveis pela transmissão de dados nos oceanos. Foto: Click Petróleo e Gás.

Na transição energética, o mar também ganhou protagonismo. A eólica offshore avança rapidamente. Em 2024, a capacidade global instalada alcançou 79,4 GW, segundo a IRENA. A expansão movimenta cadeias industriais, fortalece infraestrutura portuária e se integra a projetos de hidrogênio de baixo carbono, posicionando o mar como eixo da descarbonização.

Outra fronteira envolve tecnologias de remoção de CO₂ com participação do oceano, como o aumento de alcalinidade marinha. Embora promissoras, essas soluções exigem pesquisa, regulação e avaliação de impactos, além de envolverem disputas sobre créditos de carbono e governança internacional.

Turbinas de energia eólica offshore instaladas no mar destacam o uso dos oceanos na geração de energia renovável.
Parque de energia eólica offshore exemplifica como os oceanos se tornaram estratégicos na transição energética, impulsionando a geração de eletricidade limpa em larga escala. Foto: Beenergy.

O futuro do planeta azul

O oceano é frequentemente subestimado, mas sua participação no equilíbrio climático, na produção de oxigênio e na manutenção de cadeias alimentares é central. Nos próximos anos, a questão não será apenas quanto o mundo conseguirá extrair dos oceanos, mas se será capaz de preservar o sistema que sustenta o funcionamento climático e biológico do planeta.

Vista aérea de Tahaa e Raiatea, na Polinésia Francesa, cercadas pelos oceanos e recifes de corais.
Foto: Shutterstock.
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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