Quando a floresta se organiza, a política precisa escutar

Há decisões que parecem técnicas, mas são profundamente políticas. A revogação do decreto que abria caminho para concessões de hidrovias no Tapajós, Madeira e Tocantins não foi somente um gesto administrativo. Foi resposta direta a mais de um mês de mobilização indígena, ocupações, pressão pública e cobrança por consulta prévia. Foi o rio falando por meio de seus povos.

A cena em Santarém expôs uma tensão estrutural. De um lado, a pressa logística para ampliar o corredor de exportação de grãos pelo Arco Norte. De outro, territórios vivos, culturas milenares e um ecossistema cuja complexidade não cabe em planilhas de eficiência portuária.

A Cargill, protagonista histórica dessa rota, carrega um passivo que não pode ser varrido para debaixo do cais. Seu terminal no Tapajós sempre esteve no centro de controvérsias envolvendo licenciamento ambiental, pressão sobre territórios e estímulo indireto à expansão da fronteira agrícola. Ainda que a empresa tenha aprimorado mecanismos de rastreabilidade, a memória regional associa sua presença ao ciclo de intensificação da soja na Amazônia e às transformações profundas no uso do solo.

Dragagem não é detalhe técnico. Em rios amazônicos, significa alterar regimes de correnteza, mexer em bancos de sedimentos, interferir na reprodução de peixes, modificar ciclos de cheia e vazante que sustentam agricultura ribeirinha, pesca artesanal e transporte tradicional. O Tapajós e o Madeira não são canais artificiais. São sistemas ecológicos integrados à floresta e ao clima continental.

quando a floresta se organiza
Foto divulgação

Há um ponto ainda mais sensível. Os grandes rios da Amazônia participam do equilíbrio hidrológico que alimenta os chamados rios voadores, fundamentais para o regime de chuvas no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Intervenções acumulativas e mal avaliadas podem produzir efeitos em cascata. Em um país que já enfrenta extremos climáticos, tratar hidrovias como simples esteiras de commodities é, no mínimo, imprudente.

O que os povos indígenas reivindicaram foi algo elementar: consulta prévia, livre e informada, conforme a Convenção 169 da OIT. Não é favor. É direito. Quando esse princípio é ignorado, abre-se uma fissura institucional que compromete qualquer projeto de desenvolvimento.

O Brasil precisa de infraestrutura. Precisa de competitividade. Precisa integrar regiões isoladas. Mas precisa, acima de tudo, decidir se a Amazônia será plataforma de bioeconomia, ciência, indústria limpa e inovação ou se continuará sendo vista apenas como corredor barato de exportação primária.

Lembrando da COP 30, o mundo observa. A coerência entre discurso climático e prática territorial será medida em decisões como esta.

A revogação do decreto não encerra o debate. Ele apenas o recoloca no eixo correto. Logística sim. Mas com ciência, transparência, participação social e respeito aos limites ecológicos.

Quando a floresta se organiza, a política precisa escutar.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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