O impeachment ambiental

É compreensível inserir, explicitamente, o caráter de sustentabilidade no novo projeto de governo para priorizar uma Nova Matriz Econômica – e Ambiental – do Amazonas. A queda da arrecadação é assustadora e são remotas as chances de recomposição no curto prazo dos estragos causados pela crise política. Por isso, essa iniciativa resultou em chamar à responsabilidade o conjunto de atores envolvidos no desafio de criar novas modulações econômicas capazes de oferecer respostas novas para a arrecadação pública, de onde saem os recursos vitais de saúde, educação, moradia… Todos, especialmente, os atores responsáveis pela proteção ambiental, hoje transformados em impedimentos do formalismo para que o fator humano seja, de fato, protegido. Alguns destes agentes, com generosas exceções, ainda bem, se comportam de modo abusivo, mais real do que o rei e mais legal do que a lei. São comuns e insistentes as reclamações a respeito nos debates que desenham projetos e programas de empreendedorismo no interior do Estado. Isso se depreende da postura inflexível adotada e pelo tom de voz impositivo de alguns protetores do ambiente, tanto nas reuniões de trabalho como no debate de empreendimentos das proibições legalistas. Uma inversão inaceitável de prioridades e valores. De que vale um floresta viçosa, habitada por pessoas em condições subumanas?

Não se trata de insinuação da venda de dificuldades, embora esta seja uma das mais comuns distorções do burocratismo cartorial do país. O problema mais comum é a transformação do legalismo burocrático num fim em si mesmo, muitas vezes para permitir ao burocrata o poder que lhe dá um estranho e nocivo prazer. Esse proibicionismo estéril tem trazido grandes entraves à fluidez de novos empreendimentos, única fonte de resguardo para os parâmetros ambientais. Não existe outra forma de proteger o meio ambiente senão conferir-lhe uma oportunidade econômica. De outra forma, sem ganho nem alternativa, as populações literalmente consomem os estoques naturais. Decididamente, a exclusão social é sinônimo de depredação ambiental.

Em vez de proibir em nome do legalismo vesgo porque não sentar juntos e apontar as vantagens de empreender com a racionalidade e a inteligência da sustentabilidade. Por que não entender que a flexibilidade é o contraponto producente da interatividade vital da construção das novas oportunidades de emprego e renda, que o aproveitamento da vocação de negócios da floresta pode oferecer? Nesse contexto, a nova matriz econômica, no contexto de inteligência ambiental, pode integrar-se, como faz o Peru, na produção de alimentos orgânicos, produção de peixe, numa empreitada inteligente e até publicitária com a agenda de desenvolvimento, sustentável e global. Para os 17 ODS, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, assumidos pelo Brasil, em Paris, no mês de dezembro, segurança alimentar e recomposição das áreas degradadas podem representar o carro-chefe de uma nova economia amazônica. O Amazonas não pode concordar com a sina de um Estado apartado por conta de uma legislação ambiental restritiva. Iremos a lugar algum com a Nova matriz Econômica Ambiental do Amazonas, se continuar o boicote legal, que proíbe sem nada contrapor, que invoca esse legalismo autoritário e vesgo até para a reconstrução da conexão rodoviária do Estado com o restante do país, a maldita falácia da BR 319. Chega de hipocrisia, em nome de interesses inconfessos, de burocratas autoritários e avessos ao interesse maior da sociedade. Chega de boicote às alternativas energéticas, logística de transporte e comunicação universal. É preciso promover as pessoas, impedir o burocratismo ambiental, aprender ensinando e proteger prosperando para avançar na direção de um novo patamar, ambientalmente fraterno, socialmente justo e economicamente producente, em favor das pessoas, de todas as pessoas em seu habitat.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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