Aos 50 anos da Abraciclo, os empregos, a produção e os cuidados com a segurança viária mostram a dimensão de uma indústria que sustenta oportunidades na Amazônia. Cabe ao poder público transformar parte da riqueza arrecadada em educação, pesquisa e desenvolvimento regional.
Coluna Follow-Up
Quando perguntamos a Marcos Bento que indústria espera encontrar em Manaus nos 60 anos da Abraciclo, a intenção era examinar os caminhos da próxima década. Como ampliar a participação da região no desenvolvimento de tecnologias, na engenharia dos produtos e na formação de fornecedores locais? O presidente da entidade respondeu que espera um polo “cada vez mais tecnológico” e apontou condições para isso: políticas regulatórias equilibradas, valorização da indústria nacional e um ambiente favorável ao investimento.
A resposta merece ser lida à luz do que essa indústria já entrega. Segundo os números apresentados por Bento, o segmento de duas rodas gera 154 mil empregos diretos em todo o Brasil. No Polo Industrial de Manaus, são mais de 21.900 postos em 2026, diretos, um aumento de aproximadamente mil vagas em relação ao mesmo período do ano anterior. Considerando os empregos gerados indiretamente, são estimados mais de 100.000 postas de trabalho. O faturamento informado para janeiro a julho chegou a R$ 28,3 bilhões, com crescimento de 11,4%. Segundo pesquisas da FEA/USP, mais da metade é repassado aos cofres públicos.
Por trás desses resultados há trabalhadores, famílias, fornecedores e uma rede comercial que alcança o país. São 7.800 pontos de venda e mais de 1.500 fornecedores de componentes, conforme a apresentação da entidade. Manaus abriga o maior polo de produção de duas rodas fora do eixo asiático, uma posição que dá à Amazônia participação relevante na indústria brasileira.
Na região, o emprego industrial tem um significado especial. A renda regular ajuda a sustentar famílias, qualificação profissional e perspectivas de futuro num território em que as oportunidades econômicas são profundamente desiguais. A atividade das fábricas movimenta serviços e comércio e oferece uma base de trabalho urbano compatível com a defesa de um desenvolvimento apoiado na floresta em pé. Ampliar os benefícios dessa base para o restante do Amazonas exige políticas públicas e investimentos continuados.
A atuação apresentada por Bento também alcança a segurança viária. Em setembro, a Abraciclo participou de iniciativas da Semana Nacional de Trânsito e promoveu, em Manaus, uma ação educativa com mais de 1.200 atendimentos a motociclistas, motofretistas e entregadores. Ações frequentes e preocupação permanente com a segurança das pessoas. A campanha nacional A Vida Pede, segundo a entidade, alcançou mais de 8,6 milhões de perfis, abordando responsabilidade, atenção, cuidado e respeito.
Esse trabalho tem importância numa sociedade em que a motocicleta atende ao deslocamento diário e sustenta a renda de muitos trabalhadores. Os cuidados com quem utiliza os veículos fazem parte da responsabilidade do setor e encontram, nessas ações, uma expressão concreta. Sua continuidade depende também de fiscalização, infraestrutura viária, educação para o trânsito e serviços públicos capazes de prevenir acidentes e atender suas vítimas.
É nessa relação entre contribuição privada e responsabilidade pública que a pergunta sobre os próximos dez anos ganha alcance.
O poder público, grande beneficiário da riqueza produzida pela indústria, precisa oferecer uma contrapartida mais efetiva à região. Os recursos que a atividade industrial faz chegar aos cofres públicos devem sustentar condições para que o Amazonas forme profissionais, desenvolva conhecimento e amplie sua capacidade de participar das transformações tecnológicas.
Universidades, institutos de formação e centros de pesquisa precisam de orçamento previsível, laboratórios bem equipados e condições de manter equipes. Precisam também de mecanismos de cooperação com as empresas, para que o conhecimento encontre aplicação e os desafios da produção estimulem novas pesquisas. Cabe ao Estado organizar e financiar parte desse esforço, com objetivos claros e prestação de contas.
Uma agenda dessa natureza poderia apoiar a formação de engenheiros e técnicos, pesquisas sobre materiais e eficiência energética, segurança dos veículos e qualificação de fornecedores regionais. As prioridades devem ser construídas com as instituições de ensino e o setor produtivo, considerando competências existentes e demandas concretas. O financiamento público ganha sentido quando seus resultados aparecem na formação dos estudantes, na capacidade dos laboratórios e nas soluções desenvolvidas na região.
A cobrança, portanto, alcança a qualidade das escolhas orçamentárias. Quanto da riqueza gerada pela indústria retorna ao Amazonas em condições para produzir conhecimento? Que continuidade têm os programas de pesquisa? Que estrutura é oferecida às instituições chamadas a colaborar com o desenvolvimento regional?
A previsibilidade defendida por Marcos Bento faz parte desse compromisso. Empresas planejam investimentos ao longo de anos; universidades e centros de pesquisa também precisam de continuidade para formar pessoas e consolidar competências. A articulação entre essas trajetórias exige um poder público presente, capaz de cumprir suas obrigações e acompanhar os resultados.
Nos 60 anos da Abraciclo, será desejável encontrar uma indústria ainda mais tecnológica, com mais empregos qualificados e fornecedores locais. Para que essa expectativa se realize, parte dos recursos gerados pela produção precisa retornar como investimento público na inteligência amazônica. A trajetória construída pelo polo de duas rodas oferece uma base expressiva para esse avanço. A próxima década dependerá também do que os governos fizerem com a riqueza que recebem dessa atividade.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br