No país que acolhe o negacionismo climático, a copa do mundo será a copa das emissões

Enquanto os olhos do planeta acompanham a maior festa do futebol, uma estatística menos celebrada corre paralelamente aos placares. A Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, caminha para se tornar o evento esportivo mais poluente da história.

O torneio foi apresentado pela FIFA como uma vitrine de sustentabilidade. Os documentos oficiais falam em redução de impactos ambientais, eficiência energética, gestão de resíduos e legado verde. Entretanto, os números projetados por pesquisadores independentes contam outra história.

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Régia é Diretora da Industria de Embalagens IMPRAM, Conselheira Efetiva CIEAM – Centro das Industrias do Estado do AM, Coordenadora Comissão de ESG no CIEAM

Estudos recentes estimam que a competição poderá gerar cerca de 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, praticamente o dobro da média das Copas realizadas entre 2010 e 2022. Em cenários mais amplos, dependendo das metodologias utilizadas, esse volume pode alcançar patamares ainda superiores, de acordo com a revista Exame.

Pela primeira vez, uma Copa do Mundo será disputada simultaneamente em três países, distribuída por 16 cidades-sede separadas por milhares de quilômetros. Equipes, jornalistas, patrocinadores e milhões de torcedores dependerão essencialmente do transporte aéreo para acompanhar a competição. Algumas estimativas indicam que as viagens responderão por mais de 80% das emissões totais do evento.

negacionismo climatico

A ironia ganha contornos ainda mais agudos quando observamos o contexto político da principal nação anfitriã. Os Estados Unidos seguem sendo uma potência científica e tecnológica incontestável. Mas também se tornaram palco de uma das mais influentes correntes de negacionismo climático contemporâneo. Nos últimos anos, parcelas expressivas do debate político americano transformaram evidências científicas em disputa ideológica, retardando respostas proporcionais à crise climática.

É nesse ambiente que a maior competição esportiva do planeta pretende exibir suas credenciais ambientais. A situação revela um problema mais profundo do que a simples incoerência entre discurso e prática. Ela expõe uma tendência crescente de transformar sustentabilidade em ferramenta de marketing institucional, sem necessariamente questionar os fatores estruturais que produzem as emissões.

A expansão da Copa de 32 para 48 seleções, o aumento para 104 partidas e a dispersão continental das sedes não foram decisões climáticas. Foram decisões econômicas. Mais jogos significam mais ingressos, mais patrocínios, mais direitos de transmissão, mais consumo e mais receitas. também significam mais voos, mais deslocamentos, mais energia consumida e mais carbono lançado na atmosfera.

O futebol apenas reproduz uma lógica presente em diversos setores da economia global. Fala-se cada vez mais sobre neutralidade climática enquanto se ampliam atividades cuja expansão depende justamente do aumento das emissões.


A Copa de 2026 ocorre num momento em que eventos climáticos extremos deixaram de ser previsões para se tornarem rotina. Ondas de calor, incêndios florestais, secas severas e enchentes já afetam diretamente regiões que receberão partidas do torneio. Pesquisadores alertam que várias cidades-sede enfrentam riscos crescentes relacionados ao estresse térmico para atletas e espectadores. (Scientists for Global Responsibility)

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O espetáculo será realizado sob a sombra da própria crise climática que ajudará a aprofundar. Talvez essa seja a imagem mais representativa de nosso tempo.

Uma humanidade que conhece os riscos, dispõe da tecnologia, acumula conhecimento científico sem precedentes, mas continua ampliando a escala dos problemas que afirma combater.

A Copa do Mundo de 2026 poderá deixar legados importantes em infraestrutura, integração regional e desenvolvimento urbano. Mas também deixará uma pergunta inevitável.

Até que ponto a sustentabilidade continuará sendo apresentada como compromisso real e não apenas como um selo conveniente aplicado sobre modelos que permanecem essencialmente os mesmos?

Nos gramados, vencerá uma seleção. Fora

Régia Moreira Leite
Régia Moreira Leite
Régia Moreira Leite é economista, administradora, empresária, coordenadora da Comissão ESG e conselheira do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas

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