Mortes de Bruno e Dom escancaram problema de segurança na Amazônia

Pedro Luiz Côrtes analisa o assassinato dos ativistas num contexto em que existe uma rede de corrupção trabalhando para regularizar as atividades exploratórios dos diversos grupos que agem ilegalmente na região

As mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Philips se somam a tantas outras cometidas por grupos que exploram os recursos naturais da Amazônia em busca de lucro. “Esse é um exemplo do que vem acontecendo sistematicamente na Amazônia”, afirma Pedro Luiz Côrtes, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição. Em sua avaliação, essa situação mostra como a segurança na Amazônia está “seriamente comprometida”.

“Ativistas são executados por grileiros, madeireiros, garimpeiros, pescadores ilegais, que enxergam na atividade desses ativistas um problema, um obstáculo para a confecção dos seus projetos pessoais”. O discurso do governo federal é de que há a ameaça de internacionalização da Amazônia. O professor rebate. “A grande ameaça está na fronteira, por conta da ação de narcotraficantes, e também no interior, por conta da ação de grupos organizados, fortemente armados, que grilam terras, se apropriam de terras da União sem qualquer tipo de autorização, sem qualquer tipo de ressarcimento aos cofres do Tesouro Nacional, e também exploram ilegalmente a madeira.”

Corrupção

O professor conta que há uma “rede de corrupção” trabalhando para regularizar as atividades exploratórias desses grupos. “Eles utilizam um modus operandi muito parecido com o que usaram os narcotraficantes na Colômbia e hoje utilizam no México, ou seja, se apropriam de grandes áreas, impõem a própria lei, e a polícia muitas vezes tem dificuldades de entrar nessas áreas.”

20220204 Pedro Luiz Cortes
Pedro Luiz Côrtes – Foto: IEA-USP

O desmonte na fiscalização, com redução do efetivo e falta de recursos, atingiu órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Fundação Nacional do Índio (Funai). Fortalecê-los novamente é o caminho, na avaliação do professor. “Os fiscais do Ibama eram acompanhados por agentes da Polícia Federal que garantiam a sua segurança. […] Seria de fundamental importância que as Forças Armadas se envolvessem mais na tentativa de entendimento melhor do que se passa nessas regiões.” Vontade política é o fator determinante para isso. 

Pedro Luiz Côrtes participa do Destaque de Meio Ambiente às sextas-feiras. Para mais análises do professor, acesse seu canal no YouTube O ambiente é o nosso meio neste link.

Texto publicado originalmente em Jornal da USP


Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Quando a emergência pode se transformar em método

A mobilização preventiva contra a estiagem de 2026 revela...

Eleições na Amazônia 2026: Agenda socioambiental do Maranhão tem avanços, mas esbarra em velhos conflitos 

Reportagem analisa o saldo socioambiental do governo de Carlos Brandão no Maranhão, com seus avanços e contradições.

Manifesto ABRACICLO 50 anos

Apresentação  Ao completar 50 anos de atuação, a Abraciclo escolhe...

A próxima fronteira da indústria brasileira

Verticalizar cadeias produtivas, fortalecer a indústria nacional de componentes...

O luto da bola e a lição da realidade

"A derrota da Seleção Brasileira dói porque rompe uma...