Morre Mariano Cenamo, cofundador do Idesam e referência em bioeconomia e conservação na Amazônia

Liderança nacional em desenvolvimento sustentável, Mariano Cenamo marcou instituições, comunidades e profissionais que passaram a enxergar e criar novas formas de cuidar da Amazônia e viver da floresta.

Mariano Cenamo, engenheiro florestal e cofundador do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), morreu na noite de sexta-feira (10), aos 46 anos. A morte foi comunicada pelo instituto no sábado (11). Cenamo tratava uma recidiva de câncer de intestino, identificada em março de 2023. A cerimônia de despedida foi realizada em Florianópolis (SC).

Formado em Engenharia Florestal pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) da USP, Cenamo deixou São Paulo logo após a graduação e se mudou para Manaus. Ele chegou à região Norte em 2004 para trabalhar com manejo florestal sustentável e em projetos ligados ao mercado de carbono, decisão que definiria o rumo de sua vida profissional. A partir dali, dedicou-se a construir alternativas econômicas capazes de gerar renda e tecnologia sem depender da derrubada da floresta.

Foi também em 2004 que participou da fundação do Idesam, instituto que, sob sua liderança, se tornou referência nacional em bioeconomia. Entre os projetos que ajudou a criar estão o Programa Carbono Neutro Idesam, o café agroflorestal produzido em Apuí e a miniusina de óleos essenciais Inatú, iniciativas que aproximam conservação ambiental, conhecimento técnico e geração de renda para comunidades amazônicas. 

Anos mais tarde, em 2021, criou a AMAZ Aceleradora de Impacto, dedicada exclusivamente a negócios com atuação na Amazônia Legal. Sob sua condução, a organização passou a operar um fundo de financiamento híbrido de R$ 25 milhões, somando recursos filantrópicos e investimentos privados. Até 2025, a aceleradora havia avaliado mais de 500 iniciativas, acelerado 52 e investido diretamente em 18 negócios de impacto socioambiental.

Esse empreendedorismo socioambiental foi uma das marcas de sua trajetória. Cenamo se dedicou a reduzir a distância e criar pontes entre os empreendedores que criam soluções na floresta e os investidores, convencido de que apoiar esses negócios exigia não só recursos, como também acompanhamento, conexões e a disposição para assumir riscos que o mercado tradicional evita. 

Foi esse mesmo espírito que o levou a idealizar o Festival de Investimento de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (Fiinsa), criado para colocar em diálogo empreendedores, comunidades, investidores, pesquisadores e organizações da região. Tudo isso a partir de uma premissa que ele defendia com convicção: as estratégias econômicas para a Amazônia precisam nascer das experiências de quem vive nela.

O reconhecimento da sua trajetória não tardou a vir. Cenamo foi celebrado por organizações como as fundações Avina e Ashoka e, em 2022, recebeu o Prêmio Empreendedor Social, na categoria Inovação em Meio Ambiente, concedido pela Folha de S.Paulo e pela Fundação Schwab. No ano seguinte, passou a integrar a rede global de empreendedores sociais da Ashoka e foi convidado para o Programa Liderança para Mudança Sistêmica, ligado à Schwab.

Os prêmios traduziram também uma convicção que ele repetia e que resume boa parte de quem foi. Em entrevista à Folha, em 2024, ao falar sobre investimentos em soluções climáticas, afirmou: “o mercado não assume riscos, mas o maior risco, diante da crise climática, é não fazer nada”. A frase carrega uma marca constante de sua trajetória, a capacidade de transformar preocupação ambiental em soluções concretas.

Sobre essa dimensão empreendedora, o Idesam destacou que “sua capacidade de reunir pessoas, formar lideranças, construir pontes entre diferentes setores e transformar desafios em oportunidades marcou profundamente a trajetória da instituição e influenciou inúmeras iniciativas que seguem gerando impacto positivo na região”.

Mas a memória de Cenamo vai além dos resultados técnicos. “Mariano deixa um legado que transcende o tempo. Ele seguirá presente na missão do Idesam, nas pessoas que formou, nas instituições que ajudou a fortalecer e em cada transformação construída em favor da Amazônia”, afirmou em nota o Idesam. 

Essa marca aparece nos números que sua trajetória deixa para a Amazônia. Mais de 10,8 milhões de hectares de floresta passaram a ser protegidos por iniciativas que ele ajudou a criar ou fortalecer e milhares de famílias ribeirinhas, indígenas e produtoras rurais encontraram, a partir de seu trabalho, novas formas de gerar renda associadas à floresta em pé. São dados que medem o que Cenamo construiu, mas que não explicam sozinhos por que sua ausência dói tanto entre quem trabalhou ao seu lado.

Isso porque, para quem conviveu com ele, Mariano Cenamo era, antes de tudo, uma inspiração, alguém incansável na missão de construir uma Amazônia melhor. Colegas e parceiros o descrevem como alguém dedicado além do comum, movido por um otimismo que resistia mesmo às adversidades, uma figura difícil de comparar e impossível de substituir. 

Mariano Cenamo morreu quando ainda conduzia projetos e articulava novas formas de economia sustentável para a Amazônia. As instituições que ajudou a criar seguem funcionando, mas sua falta será sentida sobretudo nas relações cotidianas que sustentavam esse trabalho: nas conversas, nas decisões compartilhadas e na confiança que depositava nas pessoas. 

É nesse território menos mensurável — o das equipes que formou, dos empreendedores que acompanhou de perto, das famílias que passaram a viver da floresta — que também permanece o seu legado. Único em sua forma de unir causa e ação, Mariano Cenamo deixa não apenas instituições, mas uma maneira de acreditar na Amazônia que continuará viva em cada pessoa e projeto que ele acompanhou.

Leia a nota de pesar do Brasil Amazônia Agora em:

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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