Mobilidade Urbana em Manaus pode ser humana e bela – Carta ao Prefeito

“E, por fim, lembre-se que temos muita área navegável em nossa cidade. Aproveite-a. Turismo? Transporte diário? Faça algo nesta direção – somos a capital do Amazonas e ignoramos o rio. Estamos no centro da maior bacia hidrográfica do planeta e não tiramos proveito disto.”

Augusto César Barreto Rocha
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Desde sempre, a mobilidade urbana em Manaus vem sendo tratada como tema secundário. O poder executivo municipal nunca deu atenção continuada para a questão. Temos vivido de lampejo em lampejo e por isso Manaus é como é. Escrevo este texto antes do resultado das urnas, mas independentemente do vencedor, faço-o como uma carta para nosso Prefeito Eleito.

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Augusto é Professor da Ufam

Pequenas ações

As ações para melhorar o movimento na cidade não são grandes ações, mas um conjunto enorme de pequenas ações. Se alguém lhe propuser qualquer obra de grande porte, não aceite. Faça antes umas mil pequenas obras de melhoria pela cidade, sem desperdiçar o seu escasso recurso em um único ponto, pois a cidade é um sistema. O enfoque de obras para a mobilidade urbana são pequenas intervenções. Depois de muitas delas é que se pensa em algo médio, para que o recurso não seja dragado. Todos precisam se perceber contemplados pela prefeitura – aliás, isso me parece muito mais inteligente para sua visibilidade política – agrade a todos, ao invés de pequenos grupos ou resolvendo apenas uma interseção e transferindo o problema para a próxima esquina.

Médias ações, com o uso da ciência, da matemática, da pesquisa operacional e da tecnologia

Como uma das ações de porte relativamente maior, modernize o sistema de ônibus como prioridade. As linhas de ônibus devem ter frequência de até 10 minutos para pelo menos 50% da capacidade de pessoas transportadas nas horas de pico e com velocidade média muito superior a atual. Para isso, todos os grandes corredores de ônibus precisam operar com faixas exclusivas, mudando as linhas de ônibus para o problema de 2020. Não nos serve mais um modelo concebido nos anos 1970-1980.

Precisamos de uma nova análise de Origem-Destino das pessoas, sem ela tudo é puro e absoluto chute. Não acredite se alguém lhe disser que conhece o sistema. Temos uma cidade muito maior e mais complexa que aquela na mente de todos os envolvidos com o tema. Depois disso, as empresas precisam ser integradas, em um projeto tecnicamente adequado, que seja rentável para todos, a começar pelos usuários. Use ciência e tecnologia – sem elas não teremos soluções minimamente decentes.

Outra ação fundamental é a implantação de uma rede semafórica que utilize em tempo real os dados de fluxo das vias – inclusive dos pedestres. Com a brutal redução de custos dos sensores e da telecomunicação não faz mais sentido ter semáforos como os que temos hoje. O custo é insignificante e o benefício enorme. Qualquer solução que não apresente simulação computacional deve ser desconsiderada. Note, ainda, que o Polo Industrial de Manaus é o grande produtor de bicicletas do Brasil – deveríamos ter uma cidade convidativa e acolhedora para elas.

O ser humano no centro de tudo

O mais importante em todas estas ações é colocar o ser humano no centro do problema, com todos os serviços de mobilidade sendo voltados para ele, em todas as condições: a pé, de bicicleta, de ônibus, de táxi, de carro por aplicativo, de veículo particular ou de caminhão para transportar cargas que movem a nossa economia. Uma boa mobilidade urbana é aquela que respeita e inclui todos. Precisamos de uma mobilidade urbana humana e bela. Pense nisso e exija estas duas características em cada projeto – isso não o tornará mais caro, apenas usará os recursos para o que interessa. Atente para não aprovar nenhum projeto que não seja inclusivo, com todos os atores – não podemos mais aceitar obras que não considerem pedestres, ciclovias, estacionamentos ou que somos uma cidade industrial.

Lembre-se de nossos rios

E, por fim, lembre-se que temos muita área navegável em nossa cidade. Aproveite-a. Turismo? Transporte diário? Faça algo nesta direção – somos a capital do Amazonas e ignoramos o rio. Estamos no centro da maior bacia hidrográfica do planeta e não tiramos proveito disto. Corrija este erro histórico. Conte com a UFAM para apoiar as suas iniciativas responsáveis – temos formado alunos brilhantes que poderiam ser mais bem aproveitados – precisas de jovens nesta sua equipe. (Deixo entre parênteses que não estou na faixa etária para ser executivo público desta mega confusão – cabe-me apenas professar, de fora, possíveis soluções). Boa sorte para o senhor, que teve a coragem de se candidatar para esta encrenca e foi eleito pela maioria de nós. Administre para todos e não para uma parcela da cidade. Que Deus inspire as suas decisões.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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