Pesquisa inédita revela microplásticos no estômago de bugios que vivem nas copas de reservas da Amazônia, indicando a gravidade da poluição plástica mesmo em ambientes preservados.
Uma descoberta inédita indica a gravidade da poluição plástica na floresta amazônica. Pela primeira vez, fragmentos de microplásticos foram encontrados no estômago de primatas estritamente arborícolas, os guaribas-vermelhos (Alouatta juara), também conhecidos como bugios. Os animais analisados habitavam duas das áreas mais preservadas da Amazônia: as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e Amanã, no estado do Amazonas.
O achado foi feito por pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e publicado em setembro no periódico científico EcoHealth. A contaminação foi detectada em dois dos 47 estômagos analisados, recolhidos com o apoio de caçadores locais entre 2002 e 2017, durante um estudo sobre dieta e parasitas. Os microplásticos mediam entre 1 e 5 milímetros.
Segundo os cientistas, a presença desse tipo de resíduo em primatas que vivem exclusivamente nas copas das árvores, sem contato com o solo, evidencia a disseminação dos poluentes mesmo em ecossistemas isolados. Uma das hipóteses é que, durante a cheia dos rios, os plásticos descartados ilegalmente sejam levados até a vegetação mais alta, contaminando a fauna que habita esses espaços.
A pesquisadora Anamélia Jesus, líder do estudo, alerta para os riscos dessa contaminação. “É preocupante encontrarmos essas partículas plásticas no estômago de guaribas, especialmente em um ambiente tão conservado quanto o das reservas”, disse. Microplásticos podem transportar toxinas e microrganismos, afetar a nutrição, a reprodução e até causar a morte de animais. Além disso, como os guaribas fazem parte da alimentação de algumas comunidades locais, há também preocupações sobre impactos na saúde humana.
A poluição plástica na Amazônia é crescente. Um levantamento da equipe identificou mais de 50 estudos científicos que já apontam microplásticos em diferentes elementos da bacia amazônica. Desde águas e sedimentos até peixes, botos, aves e mamíferos terrestres. O caso dos guaribas, no entanto, expõe um novo grau de contaminação e reforça a urgência de conter o descarte inadequado de resíduos na região.