Meu logístico favorito

“Quem não sabe fazer, deve perguntar. O que não pode é deixar pessoas morrerem. A ignorância ingênua é linda. A ignorância pseudossábia é que mata, por inação ou por atitude deliberada.”

Augusto César Barreto Rocha
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Entre 1948 e 1949, Berlim Ocidental teve toda a sua vida sustentada por uma logística aérea. No começo da Guerra Fria, três corredores abasteciam de avião a cidade, com até 15 mil toneladas de produtos ao dia. Estamos em outros tempos, a Guerra não tem Balas, nem é fria, mas Manaus está em estado de guerra, com pessoas morrendo nos hospitais, só que por falta de oxigênio. E ainda ouvimos a estupidez que “já foi feito tudo que é possível”. Como assim? Como levar isso a sério? Vidas amazonenses importam. Vidas civis importam. Precisamos respirar. Uma coisa é o erro. Outra coisa é a má-fé.

Nesta guerra de desinformação e estupidez, vou falar como se atendesse a um aluno de graduação começando a refletir sobre logística. Depois de algum tempo, ele já deveria saber resolver este problema ou seus colegas o apelidariam de “meu logístico favorito” (alunos são mordazes e estão próximos da infância, realizam rápida associação com filmes infantis). Ora, se não é possível transportar por estrada, pelo pouco tempo disponível (aliás, nem tem estrada!), nem pelos rios (demora demais), é só lembrar que precisamos salvar vidas e usar todos os recursos existentes. Até pouco tempo atrás estávamos no Grupo de Países mais ricos, mesmo assim ainda não somos assim tão pobres, nem de dinheiro, nem de espírito. Mesmo que a solução seja pedir doações, ela ainda é atingível. Para efeito didático, farei de conta que o Governo é pobre, mas minimamente responsável.

Solução didática: (1) Reunir todos os Secretários de Saúde dos Estados em videoconferência e pedir doações voluntárias de oxigênio para socorrer Manaus, com origem de, pelo menos, 15 Estados, e estes cilindros devem ser colocados no aeroporto de Brasília, Belém ou Guarulhos, conforme a menor distância; (2) Reunir a imprensa e pedir doações voluntárias de espaço de porão de aeronave de todos os voos com destino a Manaus, a partir das mesmas cidades; (3) Na mesma coletiva, pedir doações de oxigênio de empresas no mesmo local; (4) Montar um setor de inspeção e testes dos cilindros para transporte em aeronaves, garantindo a segurança dos voos (em cooperação com empresas aéreas e de fabricação de cilindros, com auditores de ambas) – os que não atendessem aos requisitos iriam por estrada e balsa; (5) Criar uma ponte aérea ininterrupta com aviões da FAB e com os espaços de porões doados, destas cidades para Manaus (incluindo aquele KC-390 que foi pros EUA em péssimo momento); (6) Nos voos de retorno, devolver os cilindros vazios.

Neste instante, chamaria a atenção dos alunos para eles atacarem o problema, para proteger as pessoas, ao invés de atacar as pessoas e proteger o problema (para quê chamar aquele aluno que se diz especialista em logística de “logístico”?). Estamos em 2021 e não é a II Guerra Mundial ou a Guerra Fria. Não gostamos mais de “bullying”. Além disso tudo, ter pessoas que morrem por falta de oxigênio é mais estúpido do que achar que queimar a floresta é normal. Quem não sabe fazer, deve perguntar. O que não pode é deixar pessoas morrerem. A ignorância ingênua é linda. A ignorância pseudossábia é que mata, por inação ou por atitude deliberada.

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Augusto César Barreto Rocha é professor da UFAM
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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