Projeto do marco temporal abre brecha para garimpo, hidrelétricas e rodovias em Terras Indígenas

A Câmara dos Deputados se movimenta para votar ainda nesta semana o projeto de lei (PL) 490/2007, que estabelece o marco temporal para restringir as demarcações de Terras Indígenas no Brasil. Os parlamentares correm contra o tempo antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) retomar o julgamento sobre a tese, programado para a semana que vem.

A proposta discutida pelos deputados, porém, vai muito além: a Folha apontou que o texto cria também dispositivos que flexibilizam a exploração de recursos naturais e a realização de obras de infraestrutura dentro dos territórios indígenas.

Se aprovado, o projeto pode abrir brecha para atividades hoje ilegais, como o garimpo, além de facilitar empreendimentos como usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e abertura de rodovias.

O projeto também isenta os responsáveis pelas obras de fazer qualquer tipo de consulta às comunidades indígenas e à FUNAI e prevê a possibilidade de “terceiros não indígenas” atuarem dentro desses territórios na realização das atividades econômicas.

Marco Temporal
Foto divulgação

“O PL 490 é inconstitucional, pois viola os Direitos Fundamentais dos Povos Indígenas previstos na Constituição. Além disso, o direito à terra é originário. Sem território não há saúde nem educação para os Povos Originários”, argumentou o advogado Maurício Terena, coordenador jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), contra o projeto.

Em entrevista ao UOL, o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, fez coro contra a tese do marco temporal. “O PL do marco temporal é o pior projeto de desmonte na Câmara”, afirmou. “Se passar o marco temporal [pelo Congresso Nacional], será um desserviço ao país”, afirmou.

Já a CartaCapital repercutiu o parecer da Defensoria Pública da União (DPU) contra o PL 490 na Câmara. De acordo com a análise, o projeto “despreza” o caráter originário dos direitos territoriais indígenas e contraria a Constituição. “Em nenhum momento, a última Assembleia Constituinte exteriorizou algum marco temporal para o reconhecimento desses direitos originários e sequer estabeleceu dispositivo que possa induzir equivocadamente o intérprete a tal entendimento”, diz o documento.

Enquanto aguardam a retomada do julgamento sobre o marco temporal no STF, os indígenas do Povo Xokleng vivem um cenário de apreensão em Santa Catarina.

A demanda por território dessas comunidades resultou na ação que está sendo analisada pelo Supremo. “Está havendo ameaças. Os colonos, nossos vizinhos, têm feito vídeos, falando que pode haver um banho de sangue. Se ganharmos no STF, vai ter conflito”, disse o cacique Tucum Grakam ao Valor.

Texto publicado em CLIMA INFO

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

El Niño no Brasil: Governo federal exige planos de prevenção dos estados em 30 dias 

El Niño no Brasil leva União a cobrar planos de prevenção contra incêndios, seca e impactos em lavouras, alimentos e energia.

34% das plantas da Amazônia usadas por povos tradicionais podem desaparecer 

Estudo alerta que 34% das plantas da Amazônia usadas por povos tradicionais podem desaparecer com a crise climática até 2080.

Quando a transparência deixa de ser exceção

A convivência saudável nasce quando falar a verdade deixa...

Emissões globais por incêndios atingem o menor nível em 24 anos, diz Copernicus

Emissões globais por incêndios caem ao menor nível em 24 anos, mas El Niño, IA e aquecimento mantêm alerta climático.