“Manaus produz. São Paulo fatura” – Entrevista com Nelson Azevedo

BAA — A reportagem da Folha afirma que a reforma tributária pode aumentar em 30% o número de empresas na Zona Franca de Manaus. O senhor ficou surpreso?

Nelson Azevedo: Não. A reforma trouxe algo que o investidor valoriza muito: previsibilidade. Quando existe segurança jurídica, o capital se movimenta. O que estamos vendo é uma consequência natural desse ambiente de maior confiança.


BAA — Parte do setor industrial paulista vê esse movimento com preocupação. Faz sentido?

Nelson Azevedo: Eu acredito que não. Essa preocupação parte de uma visão incompleta da realidade econômica. São Paulo e Manaus não são adversários. São parceiros dentro da mesma cadeia produtiva nacional.


BAA — O senhor costuma dizer que a Zona Franca compra muito mais de São Paulo do que se imagina.

Nelson Azevedo: Exatamente. Grande parte dos componentes, máquinas, equipamentos, insumos e serviços utilizados pelas indústrias de Manaus vem de São Paulo. Quando uma fábrica cresce aqui, ela aumenta as encomendas para fornecedores paulistas.


BAA — Então o crescimento de Manaus gera negócios para São Paulo?

Nelson Azevedo: Sem dúvida. Os números mostram isso. São Paulo é um dos maiores fornecedores da Zona Franca. Existe uma integração produtiva construída ao longo de décadas. O sucesso de Manaus gera demanda para a indústria paulista.

Foto do Dr Nelson oficial e1663714519351
Nelson Azevedo

BAA — Há risco de migração em massa de empresas do Sudeste para o Amazonas?

Nelson Azevedo: Não existe fundamento econômico para essa tese. São Paulo possui mais de 170 mil estabelecimentos industriais. O Polo Industrial de Manaus tem cerca de 600 grandes fábricas. Estamos falando de escalas completamente diferentes.


BAA — Então por que essa narrativa continua aparecendo?

Nelson Azevedo: Porque ela é antiga. Desde a criação da Zona Franca existe uma resistência de alguns setores que enxergam qualquer política de desenvolvimento regional como uma ameaça. Mas a experiência de quase sessenta anos mostra justamente o contrário.


BAA — A discussão costuma ficar restrita aos incentivos fiscais. O que está faltando nesse debate?

Nelson Azevedo: Falta incluir o valor ambiental da Amazônia. O Polo Industrial de Manaus não é apenas um projeto econômico. Ele é também uma estratégia de conservação florestal.


BAA — Como assim?

Nelson Azevedo: Ao gerar emprego urbano e renda industrial, o modelo reduz pressões sobre a floresta. O Amazonas preserva cerca de 97% de sua cobertura vegetal. Isso produz benefícios para todo o Brasil.


BAA — Inclusive para o agronegócio?

Nelson Azevedo: Principalmente para o agronegócio. Os rios voadores que nascem na Amazônia ajudam a sustentar os regimes de chuva do Centro-Oeste e do Sudeste. A floresta preservada é um ativo econômico nacional.

Manaus produz
Criador: by Kim Schandorff | Crédito: Getty Images

BAA — O que o senhor responderia à Faria Lima quando afirma que a Zona Franca recebe privilégios?

Nelson Azevedo: Eu responderia que a Constituição brasileira reconheceu a necessidade de compensar desigualdades regionais históricas. Não se trata de privilégio. Trata-se de uma política nacional de equilíbrio federativo.


BAA — Qual é o maior equívoco dos críticos da Zona Franca?

Nelson Azevedo: Acreditar que o desenvolvimento da Amazônia acontece às custas de outras regiões. A realidade demonstra o contrário. Quando a Amazônia cresce, o mercado nacional cresce junto.


BAA — Em uma frase, qual é a principal mensagem dessa nova fase da Zona Franca?

Nelson Azevedo: O Brasil precisa compreender que a Amazônia não é um problema a ser compensado. É uma oportunidade estratégica capaz de gerar indústria, inovação, conservação ambiental e prosperidade compartilhada para toda a Federação.


Artigos Relacionados

Manaus, a cidade no coração da floresta que desaprendeu a respirar

Fumaça volta a cobrir a capital, expõe crianças e...

Trump já está interferindo na eleição brasileira?

“Da pressão sobre o STF às articulações bolsonaristas em...

O rio além da draga – PARTE I – Coluna Follow-Up

A mobilização das entidades do Amazonas para trazer os atores federais ao debate logístico merece ser reconhecida. Durante muito tempo, a navegação amazônica foi tratada em Brasília como uma facilidade concedida pela geografia: rios largos, extensos e aparentemente inesgotáveis dispensariam a disciplina de planejamento reservada às rodovias, ferrovias e portos. As secas de 2023 e 2024 expuseram o preço dessa ilusão. A presença recente do Ministério de Portos e Aeroportos, da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação e do DNIT abre uma oportunidade que a região não deve desperdiçar. Para aproveitá-la, será preciso qualificar o debate e distinguir uma obra necessária em certos pontos de uma política capaz de organizar todo o sistema.

Terra Indígena Apyterewa: desmatamento caiu de 102 km² para 7,5 km² após a retirada de invasores

Terra Indígena Apyterewa reduz o desmatamento após desintrusão, mas ameaças e risco de novas invasões ainda preocupam o povo Parakanã.