“O Brasil não está condenado a viver sob juros de 15% para sempre. O que nos prende a essa taxa é menos a realidade econômica e mais o medo: medo de mexer em privilégios, de reformar o que precisa ser reformado, de discutir abertamente quem ganha e quem perde com o atual arranjo”
Com inflação em queda e taxas quatro vezes maiores que as dos Estados Unidos, o Brasil insiste em um modelo que sacrifica a sociedade para tranquilizar o “mercado”. O dilema não é gasto público ou austeridade: é qual projeto de país queremos financiar.
Os números mais recentes da inflação mostram um dado relevante: pela primeira vez em mais de um ano, o índice oficial voltou a ficar abaixo do teto da meta. A notícia poderia abrir espaço para um debate maduro sobre redução estrutural dos juros e retomada do crescimento. Mas não é isso que acontece.
Enquanto os Estados Unidos operam com juros elevados para enfrentar um ciclo inflacionário específico, mas deixam claro que se trata de um remédio temporário, o Brasil convive com uma taxa próxima de 15% ao ano – aproximadamente quatro vezes maior que a americana – como se fosse uma espécie de condição natural do país, uma maldição tropical inevitável.
Por trás dessa naturalização do absurdo, esconde-se uma escolha política: usar a taxa de juros como freio permanente porque o Estado se recusa a enfrentar seus dilemas estruturais – fiscais, sociais e produtivos.
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O falso dilema: gasto público x responsabilidade
Nos últimos anos, o debate econômico foi sequestrado por uma narrativa simplificadora. De um lado, parte do campo liberal transformou “gasto público” em palavrão, como se cada real destinado a políticas sociais, educação, saúde ou ciência fosse, por definição, desperdício. De outro, setores da esquerda reagiram defendendo a expansão do gasto como se bastasse distribuir recursos para que o desenvolvimento florescesse por gravidade.
Esse embate produz mais fumaça do que luz.
Não é sério colocar no mesmo saco: privilégios tributários regressivos, renúncias fiscais sem avaliação, corporações capturando o orçamento público;
• e investimentos em educação básica, atenção primária em saúde, infraestrutura verde, pesquisa científica, transição energética e proteção social mínima.
O primeiro é custo do atraso. O segundo é capital produtivo da sociedade.
Ao tratar tudo como “despesa” e nada como “investimento”, legitima-se o raciocínio de que só existe uma âncora possível para a economia: juros estratosféricos. É o preço do medo de encarar a conversa incômoda sobre quem se beneficia, hoje, da máquina pública e de que forma.
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Crescimento orgânico da sociedade x ditadura do curto prazo
Quando falamos em “crescimento orgânico da sociedade”, estamos falando de algo diferente da expansão artificial movida apenas por crédito caro ou por booms passageiros de commodities. É um tipo de desenvolvimento que:
1. Reduz vulnerabilidades estruturais – Menos dependência da exportação de produtos primários; mais valor agregado, tecnologia, bioeconomia, economia do conhecimento. Um país que investe em ciência, inovação e diversificação produtiva precisa de juros que incentivem o risco produtivo, não que o estrangulem.
2. Aumenta a capacidade produtiva das pessoas – Educação de qualidade, saúde preventiva, saneamento, mobilidade, acesso à cultura e à informação. Nada disso é “luxo social”: é infraestrutura invisível da produtividade. Países ricos não se tornaram ricos cortando escola, universidade e pesquisa, mas financiando-as de maneira consistente.
3. Fortalece instituições e planejamento de longo prazo – Regras fiscais claras, combate à corrupção, avaliação de políticas, previsibilidade regulatória, transparência. Quando o país reduz o “prêmio de risco Brasil” com instituições confiáveis, o juro cai não por decreto, mas porque o risco efetivo diminui.
Em outras palavras: mercados funcionam melhor em sociedades fortes. Colocar a sociedade acima dos interesses imediatos do mercado financeiro não é negar a economia, é dar-lhe base sólida.
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O que nos mantém presos a juros de 15%?
Há, ao menos, cinco correntes que amarram o Brasil à armadilha dos juros altos:
1. Um fiscal desequilibrado, mas mal discutido – Fala-se muito em “rombo das contas públicas”, mas pouco se explica de que é feito o gasto. Mantêm-se intocados benefícios tributários opacos e gastos regressivos, enquanto políticas estruturantes de longo prazo são colocadas no banco dos réus.
2. Gasto social sem avaliação sistemática – Em vez de debater quais programas funcionam, quais precisam ser reformulados e quais devem acabar, o debate se resume a “mais” ou “menos” gasto. O resultado é desperdício, descrédito e munição para os que defendem o desmonte do Estado.
3. Ausência de estratégia produtiva clara – Sem política industrial verde, sem prioridade consistente para a transição energética, para a inovação e para regiões estratégicas como a Amazônia, os incentivos se dispersam. O país não sabe bem que tipo de futuro está financiando com seu orçamento.
4. Descoordenação entre política monetária e política de crédito
O Banco Central reage à inércia fiscal e institucional elevando juros, enquanto bancos públicos e fundos de desenvolvimento não são usados de forma estratégica para amortecer ciclos e sustentar investimentos essenciais.
5. Um sistema tributário que pune trabalho e consumo e protege privilegiados
Quando a carga recai desproporcionalmente sobre quem ganha menos, qualquer política social é acusada de “irresponsabilidade”, mesmo que o verdadeiro buraco esteja nas isenções concedidas a grupos influentes.
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Amazônia como exemplo do que está em jogo
A Amazônia é um caso emblemático desse impasse. De um lado, o discurso de ajuste fiscal justifica o corte de investimentos em ciência, monitoramento ambiental, bioeconomia, educação básica e infraestrutura que poderiam ancorar um novo ciclo de desenvolvimento baseado na floresta em pé.
De outro, bilhões seguem fluindo para atividades de baixa produtividade social e alto impacto ambiental: subsídios diretos e indiretos a combustíveis fósseis, incentivos à expansão de fronteiras agropecuárias predatórias, obras sem planejamento territorial.
Juros altos, nesse contexto, significam travar justamente os investimentos que poderiam gerar empregos verdes, renda e arrecadação estável na região, enquanto a economia ilegal segue sem pagar imposto nem juros.
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Para onde caminhar?
A pergunta que se impõe, diante desse quadro, não é “gasto público ou austeridade?”. A questão real é: qual projeto de país queremos financiar com o orçamento, com a política monetária e com a nossa paciência histórica?
Um caminho possível passa por:
• Responsabilidade fiscal com hierarquia social – Regras estáveis, sim. Mas com prioridade explícita para investimentos em gente, ciência, transição energética e redução de desigualdades. Austeridade que poupa privilégios não é responsabilidade, é covardia distributiva.
• Revisão profunda de renúncias e subsídios – Não faz sentido sacrificar educação, saúde e pesquisa enquanto renúncias fiscais pouco transparentes drenam recursos bilionários sem contrapartida clara para a sociedade.
• Juros em trajetória de queda estrutural, não apenas conjuntural – Quando inflação e expectativas convergem para a meta, manter a taxa básica em 15% deixa de ser prudência e passa a ser escolha política – com nome, endereço e beneficiários concretos.
• Política industrial verde e regionalizada – Planejar o desenvolvimento da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste e do interior do país como prioridades nacionais, apostando em bioeconomia, indústria limpa, digitalização, infraestrutura resiliente e inclusão produtiva.
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O medo não pode ser nosso projeto
O Brasil não está condenado a viver sob juros de 15% para sempre. O que nos prende a essa taxa é menos a realidade econômica e mais o medo: medo de mexer em privilégios, de reformar o que precisa ser reformado, de discutir abertamente quem ganha e quem perde com o atual arranjo.
Enquanto o medo for o projeto, o juro continuará alto e o crescimento seguirá baixo. Quando a sociedade — e não apenas o “mercado” — voltar ao centro das escolhas econômicas, começaremos a construir um país em que estabilidade macroeconômica e justiça social caminhem juntas.
É isso, no fundo, que está em jogo hoje: não apenas a taxa de juros do mês, mas o tipo de futuro que aceitamos financiar com o nosso próprio sofrimento.

