A conta do clima e o dever de participar: a indústria amazônica diante do chamado da COP30

“Que a  economia da proteção florestal seja, pois, articulada — com clareza, com dados, com governança — a instrumentos como o mercado de carbono, os títulos verdes e o ESG corporativo”.

Coluna Follow Up

A carta da presidência da COP30 – que desencadeou a presença de Denis Minev como representante do setor privado na COP da Amazônia em Belém, que acontece neste mês de novembro – afirma com clareza que “só com recursos do setor privado será possível fechar a conta do combate às mudanças do clima”. Essa mensagem ganha intensidade especial na Amazônia — região onde os efeitos da crise climática se ampliam e onde o setor industrial tem um papel estratégico de protagonismo.

Confira a: Carta do setor privado da Amazônia

Enquanto o país se prepara para receber a conferência em Belém, entidades empresariais do Amazonas permanecem concentradas nos reflexos da reforma tributária e no novo tabuleiro fiscal da Zona Franca de ManausIsso é legítimo — mas a urgência climática exige que o debate sobre sustentabilidade, governança e inovação entre no centro da agenda industrial.

Mercado de carbono no Brasil: o novo tabuleiro

O Brasil está avançando com o estabelecimento de um mercado regulado de carbono — a partir da sanção da Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). 

O Ministério da Fazenda criou recentemente a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono (SMEC) para operacionalizar esse sistema. 

Segundo o relatório da ICC Brasil “Oportunidades para o Brasil em Mercados de Carbono”, o país verá uma crescente importância desse mercado em termos de competitividade internacional, cadeias produtivas e finanças corporativas. 

Busca-se promover uma transição para uma economia verde, investindo em descarbonização, de maneira mais inclusiva e abrangente
Foto: Freepik

Para a indústria amazônica essa transição traz três vetores principais:

  • Precificação de carbono e custos de emissões — as empresas que não internalizarem essas dimensões podem perder competitividade.
  • Créditos de carbono como fonte de receita ou mitigação — proteger florestas, conservar biodiversidade e capturar carbono podem gerar créditos, o que muda o papel da Amazônia de “passiva” para “agente” no mercado climático.
  • Governança e transparência — o mercado regulado exige padrões, rastreabilidade e conformidade (comportamento que o setor industrial deve antecipar).

Títulos verdes no Brasil: captar recursos para o clima

Outra ferramenta que se enraíza no Brasil são os chamados títulos verdes (green bonds), instrumentos de dívida cujo produto é direcionado para projetos com impacto ambiental e social positivo. 

Alguns destaques:

  • O Brasil captou US$ 2 bilhões em sua primeira emissão de títulos verdes públicos no exterior, no fim de 2023, com boa demanda internacional. 
  • No primeiro semestre de 2025, as emissões no Brasil somaram US$ 3,3 bilhões — uma queda significativa frente a US$ 9,5 bilhões no mesmo período de 2024. 
  • Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indica que desde 2015 o mercado brasileiro de títulos verdes vem crescendo. 

Para a indústria da Amazônia, os títulos verdes se colocam como alternativa de financiamento de projetos de baixo carbono, de rastreabilidade e de cadeias sustentáveis, algo que dialoga com a bioeconomia, floresta em pé e a economia da biodiversidade.

O papel da Comissão de ESG do CIEAM no Amazonas

No âmbito regional, a efervescência da Comissão de ESG do CIEAM – configura-se como um mecanismo institucional relevante para conectar essas iniciativas globais e nacionais com a realidade do Polo Industrial de Manaus (PIM). A convite da ABDI, a Comissão ESG do CIEAM, liderada por Régia Moreira, vai fazer uma conferência sobre PIM ESG e Novas Cadeias Produtivas e levar um Manifesto das empresas para a COP da Amazônia.

Algumas ações e fundamentos:

  • A missão da Comissão é “proporcionar aos participantes da Comissão e associados do CIEAM a possibilidade de criar um progresso notável em ESG, ampliando visões, evolução de modelo de boas práticas, métricas e disseminação de conhecimentos compartilhados”. 
  • Em 17/09/2025, realizou-se a 16ª Reunião da Comissão de ESG, em formato híbrido, com foco em inovação, sustentabilidade e posicionamento da indústria rumo à COP30. 
  • Em 2025 foi celebrado o II Fórum ESG Amazônia, promovido em parceria com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), com painelistas e cases de empresas do PIM que já implementam práticas ESG. 
zona franca de manaus em expressionismo imagem IA

Da expectativa à pauta: o que a indústria pode fazer agora

Para que o chamado da COP30 não permaneça apenas como retórica, o setor industrial amazônico — via CIEAM e seus associados — precisa converter expectativas em agendas concretas, que incluam:

  • Inclusão da transição de baixo carbono nos planos estratégicos das empresas associadas ao PIM.
  • Programas internos de monitoramento de emissões ligados a plataformas como o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) que fornece dados de trajetória nacional. 
  • Mapeamento de oportunidades de créditos de carbono e títulos verdes relacionados aos ativos da Amazônia: florestas, biodiversidade, bioeconomia.
  • Fortalecimento da governança ESG, com definição de métricas, relatórios de impacto, e engajamento com comunidade, cadeia de fornecedores e meio ambiente.
  • Inserção da temática climática nas reuniões plenárias da CIEAM, como tema permanente, não apenas agregado.
  • Alinhamento com a agenda da COP30: preparar posicionamentos, dados regionais, e apresentar à comunidade internacional que a Amazônia industrial está pronta para o protagonismo.

Por que isso importa para o Amazonas

  • A indústria do Amazonas – por meio do PIM – tem relevância nacional: modernizar a produção, inserir inovação e valor agregado à economia da floresta em pé. Esse movimento pode ganhar escala se conectado à meta de baixo carbono.
  • A Amazônia, além de símbolo global da urgência climática, oferece recursos naturais, biodiversidade e serviços ecossistêmicos que podem se traduzir em valor econômico sob novos paradigmas.
  • Se a indústria local ficar à margem desse novo cenário, corre o risco de perder competitividade, ficar relegada a setores que não se adaptaram, ou simplesmente ver suas externalidades ambientais e sociais se transformarem em passivos.
  • Inserir-se estrategicamente no mercado de carbono e nas finanças verdes é um sinal de maturidade econômica e componente de legitimidade frente ao mundo que se mobiliza por sustentabilidade.

Isto posto… 

O chamado da COP30 é um chamado à consciência — e à ação. A comissão de ESG do CIEAM, com as demais comissões junto ao setor industrial amazônico, não dispensa oportunidade de demonstrar que a Amazônia não é apenas território a preservar, mas território ativo de inovação, de valor sustentável e de protagonismo global. Que o debate climático entre no centro da pauta das plenárias do PIM, não como obrigação, mas como estratégia de futuro.

A economia da floresta em pé já está em curso. O glamour e o apreço conquistados pelo PIM há quase 60 anos, se devem, em parte, a este compromisso. Que a  economia da proteção florestal seja, pois, articulada — com clareza, com dados, com governança — a instrumentos como o mercado de carbono, os títulos verdes e o ESG corporativo.


Coluna Follow-Up é publicada pelo Jornal do Comércio às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação o editorial do Alfredo Lopes, editor do BrasilAmazôniaAgora

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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